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As folhas e galhos das árvores seculares e colossais bloqueavam qualquer brecha de luz. Era impossível saber se era dia ou noite em Sanshouuo, a floresta esquecida. Nenhum dos habitantes dos vilarejos próximos se atrevia a atravessar ou se aproximar das terras de Sanshouuo. Das bocas sábias dos anciões, a recomendação era irredutível: jamais olhar para a floresta dos espíritos ruins, pois ela devoraria a essência vital do curioso.

Sem saber qual era o dia, mês ou ano, Yukio colocava a última pedra sobre o túmulo de seu pai, que soprou seu derradeiro suspiro enquanto dormia. Agora Yukio estava completamente sozinho. Habitantes de Sanshouuo desde que Yukio era pequeno, a floresta era o mundo dos dois; tudo o que possuíam e conheciam.

Depois que terminou o ritual, Yukio colocou as mãos atrás da cabeça e chorou. Não havia mais nada a ser feito. Sem passado e nem futuro, o homem só possuía as memórias divididas com o seu velho pai: a pesca no rio Kaeru, as folhas e as varas dos bambus usados para fazer utensílios, a caça, a chuva torrencial e o calor minimizado pela camuflagem das árvores. Nem mesmo isso Yukio teria mais.

Vagando pela floresta, o homem de sorriso torto, expressões rústicas e com o eterno hábito de roer as unhas não sentia os pés. Andava por andar. Nem um único pensamento transitava em sua mente.

O tempo foi se arrastando dessa mesma maneira até que, certo dia, Yukio encontra um animal pequeno, com características semelhantes às de uma raposa, bebendo água no rio Kaeru. Tinha uma pelagem parda, estrutura curvilínea e olhos atentos. Yukio ficou fascinado com a beleza exótica da criatura. Sua perplexidade o impediu de perceber que o animal o fitava diretamente. Só foi capaz de deixar o transe quando ouviu as palavras se formando e saindo das mandíbulas carnívoras:

— O que faz pisando no solo de Sanshouuo?

Incrédulo, Yukio piscou os olhos várias vezes. O animal estava falando?

— Não tenho tempo para incredulidades — disse em tom desaforado. — Quero saber o que faz aqui.

— Eu… — o homem gaguejava. Estaria sonhando? — Eu vivo aqui há muitos anos. Esta é a minha casa.

— Vive aqui? Em Sanshouuo? Impossível! Estas são terras sagradas que não aceitam espíritos impuros.

— Meu pai me trouxe para cá quando eu ainda era do tamanho deste bambu — apontou para a planta que crescia ao lado do animal.

— Onde está o seu pai?

Yukio baixou a cabeça. Uma tosse profunda o atacou. Quando conseguiu recuperar o fôlego, respondeu:

— Meu pai está sepultado há doze palmos do chão.

O animal se aproximou de Yukio. O homem não se conteve:

— Posso perguntar se estou falando com uma raposa?

— Eu pareço uma raposa para você?

— Sim, parece muito. Eu nunca ouvi um animal falar. Devo estar sonhando.

Revirando os olhos, a criatura respondeu:

— Não sou uma raposa. Sou um Ookami, um lobo-de-honshu. Meu nome é Wabi Sabi e sou o último de minha espécie.

— Um lobo? Nunca vi nenhum como você.

Yukio observava o lupino entregue ao mais puro encanto. Notando a fascinação do homem, Wabi Sabi disse:

— Você sabe por qual razão eu consigo falar e os outros animais de Sanshouuo não?

— Não, eu não sei.

— Porque eu nasci para fazer três perguntas. Mas, antes disso, gostaria de passar três dias ao seu lado. Você permite?

Imaginando que tudo não passava de um sonho ou alucinação, Yukio aceitou a proposta de Wabi Sabi. Eles passaram três sóis e três luas conversando, caçando pequenos roedores e ouvindo o coaxar dos sapos. Yukio contou sobre a vida que levou ao lado do pai e Wabi Sabi sobre a vida de peregrino solitário. Em dado momento, os dois perceberam que tinham algo em comum: eram sozinhos no mundo.

— Toda a minha raça foi extinta — contou o lobo-de-honshu.

— O que aconteceu?

— Modernidades agrícolas e surtos de uma doença assassina que nos mata sem dó e nem piedade e nos faz matar os outros.

— Sinto muito, Wabi Sabi. Nada é eterno nessa vida. Veja você: eu só tinha o meu pai e mesmo assim o perdi. Você perdeu todos os membros de sua espécie e mesmo assim está aqui.

O lobo aguçou as orelhas com extremo interesse. Agora sim, ele estava integralmente disposto a ouvir o homem.

— E o que você acha disso, Yukio? Não sente raiva pelas coisas serem do jeito que são?

— Confesso que já me senti pior. Desejei ter uma vida diferente. Pensei até mesmo em abandonar o meu pai e fugir. Mas eu não o fiz. Não fiz nada disso. Preferi ficar. Mesmo sem saber se é dia ou noite ou quantos anos tenho, eu me esforcei e continuo me esforçando para fazer desta floresta um lar.

— Você sabe que os outros de sua espécie temem este lugar? Que eles não colocarão os pés aqui?

Yukio bebeu água em uma tigela e serviu-a ao amigo. Wabi Sabi notou que a tigela estava cheia de remendos.

— Sei sim. Mas essa é a escolha deles. Gostaria muito que conhecessem Sanshouuo e vissem o quanto estão enganados e o quanto ela é especial. Um dia, até mesmo a imensidão das árvores que protegem este lugar irá acabar.

— Por que remenda esta tigela? Por que não faz outra?

— Esta foi a tigela de meu pai. Ele a passou para mim. Não tenho para quem passá-la, mas respeito sua história. E veja… Cada parte trincada tem um rastro próprio. Cada vez que essa tigela caiu, ela caiu de uma maneira diferente.

Wabi Sabi chegou próximo de Yukio. Tão próximo que seu som uivante era nada mais que um sussurro:

— Diga-me, homem, você acha que a impermanência atinge a todos?

— Por que não haveria de atingir?

— E não te faz infeliz? Saber que tudo um dia tem fim?

Yukio coçou o queixo e depois sorriu. Na sua boca, dentes irregulares e imperfeitos apareceram para o lobo-de-honshu.

— Quando enterrei o meu pai, senti um grande vazio, uma grande dor. Passei dias perambulando sem qualquer razão ou consciência. Mas quando o vi às margens do rio Kaeru, eu sabia que o meu ciclo anterior havia encerrado e que um novo começaria.

— Por que?

— Porque nunca nos vimos antes. E seus olhos… Bem, não me leve a mal, posso estar sonhando ou algo assim, não tenho certeza de nada que tem acontecido nesses dias em sua companhia, mas sinto que os seus olhos são diferentes.

— Diferentes como?

— Parecem humanos.

Nesse instante, Wabi Sabi foi ganhando contornos distintos. Em alguns segundos, abandonou a sua forma de lobo-de-honshu e um homem tomou o seu lugar. Mesmo assombrado, Yukio, vendo que o homem estava nu, ofereceu-lhe seu manto. O homem cobriu-se e disse:

— Estou há quase oitocentos anos vivendo na forma de um lobo-de-honshu. Todas as espécies foram extintas há vinte e cinco anos atrás. Por ter desacreditado da divindade da impermanência e blasfemado contra o ciclo natural das coisas, eu, o monge Takeda, vaguei durante todos esses séculos. Meu destino permaneceria igual se eu não tivesse encontrado você, justo e sábio Yukio.

Ajoelhado aos pés do monge, o homem baixou a cabeça até a sua testa encostar no solo.

— Venerável monge, é uma honra conhecê-lo!

Takeda ergueu Yukio e ajoelhou-se aos seus pés:

— Que os espíritos da floresta reconheçam em você, homem que aqui cresceu e viveu, o espírito de uma venerável criatura. Que te concedam uma vida longa e feliz!

Imediatamente, as copas das árvores se abriram e os raios de sol penetraram na impenetrável Sanshouuo.

— Posso ter o prazer de sua companhia? — perguntou Takeda ao homem da floresta.

Sorrindo, Yukio balançou a cabeça afirmativamente. Depois de se despedir de seu pai, o homem de dentes imperfeitos deixou a floresta Sanshouuo ao lado do monge Takeda. Juntos, peregrinaram por muitos anos espalhando a filosofia da impermanência. Tempos depois, retornaram à temida floresta e ergueram um templo próximo aos pés de suas árvores. Dizem que é o único lugar do Japão onde se é capaz de ouvir o uivo do extinto lobo-de-honshu.

*Este conto foi publicado originalmente ao livro “A noite das estrelas cadentes e outras lendas nipônicas”, de Mara Vanessa Torres e Rafaela Torres.

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