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Por Guy Barcellos na Carta Capital

 

Quando entrei pela primeira vez em sala de aula, em uma pequena escola na zona rural da região metropolitana de Porto Alegre (RS), aspirava ser diferente de todos os professores que tivera, inclusive dos poucos que foram bons. Meu anseio era de fazer um trabalho que contemplasse as demandas dos alunos e neles não causasse tédio ou alienação. Apesar da intenção, percebi que estava entrando na mesma roda inexorável da sondagem de conhecimentos teóricos, das aulas expositivas e da prova.

Foi quando me questionei sobre quando, em minha vida escolar, aprendera com prazer e alegria. Lembrei-me dos tempos do Ensino Médio, em que construí, com meus colegas, um museu na escola. Chamava-se Museu da Natureza. Foi uma época na qual aprendi com uma grande aventura, a de vivenciar e pesquisar. Após esse lampejo, percebi que era a hora de entrar em ação!

Levei minhas coleções de fósseis, rochas e miniaturas de dinossauros e de animais marinhos e, antes de começarmos a organização do museu (o que chamei posteriormente de construção participativa), expliquei aos aprendizes o que era um museu. Disse que, na Grécia Antiga, acreditava-se que Orfeu, o semideus que tocava a lira, silenciou quando perdeu sua amada Eurídice. Enfurecendo, assim, as ninfas, que o estraçalharam e jogaram seus pedaços por toda a Terra. Assim, todas as coisas se contaminam pela poesia de Orfeu. Os museus têm, portanto, a missão de recuperar o lirismo de Orfeu, presente em todas as coisas.

Também naquela época, existiam os mouseions, templos dedicados às musas, detentoras do saber absoluto e filhas da titã que representava a memória, Mnemosine. Os museus guardam o maior tesouro da humanidade, a memória. Afinal, somos o que lembramos. Nossas memórias constroem nossa identidade e a nossa cultura. Fazer um museu na escola é, de certa forma, construir a identidade de uma comunidade, de um indivíduo e de um planeta.

Os mouseions desapareceram com a queda de Roma, mas renasceram entre a nobreza dos séculos seguintes com os chamados “gabinetes de curiosidades”, como aqueles do rei Ferrante de Nápoles, do duque Ferdinando I de Médici, do imperador Rodolfo II de Habsburgo, entre outros.

Acumulavam em salas de castelos desde obras de arte e engenhocas até rochas, esqueletos e conchas de animais. Também no período da Renascença (séculos XIV a XVII), grandes naturalistas como Albertus Seba e Athanasius Kircher, ávidos colecionistas, criaram museus com acervos monumentais e decisivos para a história da ciência.

Os ventos revolucionários na França mudaram a concepção de museu: passaram a ter um papel social, promovidos a guardiões públicos do patrimônio coletivo. No século XIX, surgiram museus com temáticas mais específicas e, no século XX, aparece o primeiro museu interativo, o Instituto Exploratorium, criado por Frank Oppenheimer. Hoje, o que define um museu é ser um espaço que promove a pesquisa científica, o diálogo com a comunidade, a preservação dos vários tipos de patrimônio e a animação cultural.

É, portanto, o momento de dizer que, no século XXI, um novo museu pode surgir, no qual os curadores são os alunos. Eles seriam os novos Ferrantes, Sebas, Kirchers e Oppenheimers.

No caso da escola em que leciono, a experiência intensa rendeu três anos de um trabalho capaz de transformar a geografia e a psique da escola. Os alunos passaram a ter o ambiente escolar como um espaço impregnado de suas identidades e que expressava seus saberes e pensamentos.

Existe um esforço internacional para melhoramento do ensino de Ciências e da alfabetização científica, a competência de ler o mundo pelo prisma da ciência. Recentemente, o Brasil recebeu nota baixa no Indicador de Letramento Científico (ILC), elaborado pelo Instituto Abramundo em parceria com o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa. Inédito no País, o estudo revelou que a população brasileira não domina conceitos e tem dificuldade de aplicar a Ciência em situações cotidianas: apenas 5% dos brasileiros são considerados proficientes. A maioria (79%) apresentou um conhecimento mediano sobre a área e, 16%, praticamente nulos.

Portanto, em muitas escolas ocorrem feiras e mostras científicas, reproduzindo o que acontece nas universidades: pesquisadores desenvolvem seus trabalhos em laboratórios e divulgam seus resultados com artigos e apresentações. Esse tipo de dinâmica pode mostrar-se muito eficiente, mas é efêmero: após a mostra, os trabalhos são arquivados ou descartados e se reproduz somente uma forma de construção do conhecimento.

As instituições que divulgam o conhecimento, ao mesmo tempo que o produzem no meio científico, são os museus. Acima de tudo, eles transformam objetos materiais e imateriais em patrimônio, processo similar a transformar informação em conhecimento, um dos desafios contemporâneos dos professores.

As escolas visitam museus, levam seus alunos para conhecer suas coleções e exposições. Os museus visitam as escolas, com exibições itinerantes e interativas. Por que, então, o museu não poderia germinar na escola? Existem escolas com empresa, laboratório, cozinha experimental e oficina de robótica, entre outros elementos do mundo moderno. Por essas razões, um museu na escola é uma proposta densa, mas razoável.

*Guy Barcellos é biólogo, mestre em Educação em Ciências e Matemática e docente de Ciências e Biologia do Instituto Estadual de Educação Paulo da Gama

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