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Estamos vivendo como em um conto de fadas. Esta afirmação, por mais romântica e doce que pareça, representa uma situação temerosa de tempos sombrios em nosso país. O conto de fadas a que me refiro é a conhecida história da Bela Adormecida, a princesa amaldiçoada com 100 anos de um sono profundo ao espetar seu dedo na agulha de uma roca em seu aniversário de 15 anos.

Diz a lenda que, para evitar a desgraça anunciada já no dia do seu batismo, seu pai, um amoroso rei, resolve exterminar de seu reino todas as máquinas de tecer e excluir sua linda menina do convívio de sua família e de seu povo até que o tempo de perigo se cumprisse e ela estivesse a salvo. Todos conhecemos a história e sabemos que isso não funcionou.

A analogia à qual gostaria de me dedicar coloca a bancada de políticos conservadores no papel do rei que deseja exterminar da sociedade tudo o que, de acordo com seus princípios, seria prejudicial às crianças e às famílias brasileiras. E assim vemos surgir um movimento pseudo-moralista, que começa a perseguir manifestações de arte e cultura no Brasil sob o pretenso tema da moral e bons costumes.

Vou me ater a apenas uma situação, que me toca mais de perto profissionalmente: a censura às bibliotecas. Em um caso recente ocorrido no Rio Grande do Sul ao menos cinco câmaras de vereadores exigiram a retirada do polêmico catálogo das obras da exposição do Santander “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”. E, dessa forma, os livros sumiram de algumas bibliotecas públicas. Tempos atrás, vereadores de uma cidade no estado do Espírito Santo, criaram um projeto de lei que se propunha a desenvolver uma lista de livros a serem proibidos nas bibliotecas de um certo município. Tudo em nome da família e das nossas crianças.

O livro “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” é uma das obras mais visadas na onda recente de censura às bibliotecas. Foto: internet

As lendas e contos, além de entreter, costumam trazer lições que podem ser aplicadas ao cotidiano. No caso da Bela Adormecida, a conclusão mais óbvia possível é que a estratégia do rei jamais daria certo. Criar um ambiente totalmente refratário, protegido e saudável para evitar que aqueles que prezamos sofram qualquer dano ou prejuízo é uma utopia com graves e inevitáveis consequências.

Talvez, se a princesa Aurora tivesse recebido de seus pais uma educação que lhe preparasse para os riscos da vida e que a orientasse a tomar boas decisões nas horas de perigo, ela não ficaria tão curiosa ao ver uma roca pela primeira vez, não se sentiria tão tentada a tocar na agulha e não cairia na tão temida maldição…  A educação é a solução, não o protecionismo paternalista.

Nossos “zelosos” políticos deveriam saber que as bibliotecas possuem mecanismos de gestão capazes de evitar o uso indevido de seus materiais, orientando e acompanhando seus interagentes de acordo com perfil e faixa etária, por exemplo. Deveriam também saber que investir na educação e na cultura garantiria a formação de cidadãos capazes de fazer escolhas saudáveis e de conviver com a diversidade.

Mas não posso deixar de mencionar que minha analogia não é perfeita. O rei zeloso, mesmo tomando uma decisão equivocada, tinha intenções verdadeiramente amorosas ao tentar proteger sua filha. A onda conservadora que se levanta no Brasil parte, em grande medida, de motivos eleitoreiros nada nobres que envolvem muita politicagem e uma ávida busca pelo poder a qualquer preço.

Em um país onde a classe política é historicamente marcada pela corrupção e em meio a um governo tomado por meio de ações questionáveis, fica inviável ligar a censura que vemos surgir a uma real preocupação com as crianças e as famílias que, diga-se de passagem, em sua maioria sofre com condições precárias de vida, saúde, moradia, alimentação e educação, enquanto os nossos “zelosos” políticos enriquecem às suas custas.

Talvez adormecidos estaremos todos nós – quem sabe pelos próximos cem anos – caso permitamos que essa insanidade seja instalada em nossa terra brasilis.  E não haverá nada de belo nisso.

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