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Por Nelson Rocha, da Tribuna da Bahia

Na quinta-feira, 27 de outubro, o jovem Rafael Brito pegou a bike e seguiu para a Biblioteca Pública do Estado da Bahia, popularmente conhecida como Biblioteca Central dos  Barris, com o objetivo de fazer pesquisa e clipagem de jornais. Lá chegando fez a primeira constatação: “Nossa, como tá feia e degradada esta frente. Portões enferrujados, alguns quase caindo. a fachada com infiltrações e seguranças batendo papo. Se não bastasse, vou até ao espaço de jornais e ao chegar lá: “Não recebemos jornais há mais de quatro meses. Exatamente o período que eu desejava fazer a pesquisa”. Em relato no facebook, o estudante retratou as condições precárias em que se encontra hoje um dos patrimônios culturais da capital baiana, cujo acervo está ameaçado pela degradação.

Ferrugem está engolindo a grade de proteção da biblioteca
Ferrugem está engolindo a grade de proteção da biblioteca

A decepção de Rafael continua sendo relatada: “Depois de colocar a bicicleta num local inadequado e adentrar fui informado que teria que retirar e colocar a bike em outro local: “Não temos espaço adequado para colocar, se possível coloque do lado de fora, não nos responsabilizamos por perdas e roubos. Estamos vendo mais um patrimônio sendo jogado às traças. Recordo que quase fechou por falta de segurança. O prédio tá super esquecido pelo poder público. Os funcionários já não trabalham com felicidade e os espaços cheios de infiltração, entregues às traças”, conclui Rafael sobre as observações feitas no local.

Do outro lado da Rua General Labatut, onde está situada a Biblioteca Central – primeira do Brasil e da América do Sul e a maior do estado-, a empresária Corina Veloso, responsável pela Pérola Negra, espaço também de divulgação da cultura baiana, lamenta o estado de degradação do equipamento público. “A Biblioteca é vital aqui para os Barris e importantíssima pra cidade toda. É o maior registro que a gente tem, em nível de pesquisa que as pessoas podem usufruir, mas está bastante mal cuidado, com instalações precárias”, diz.

Corina revela ter um cliente amigo que “quando vem à biblioteca fazer o seu trabalho, traz um ventilador de casa. Ainda assim ele tem que vir porque é a única fonte onde ele encontra o que busca para por num livro sobre Irmã Dulce. É interessantíssimo ele chegar com o ventilador numa sacola, por causa de instalações precaríssimas, embora o acervo seja fantástico. Não abre a noite, tem muita escuridão porque falta manutenção da parte elétrica e é assim, a biblioteca realmente está capengando, funciona pelo esforço dos funcionários que, independentes das obrigações, tentam ajudar no que podem. E quando a biblioteca não abre os Barris está morto”, declarou.

O estado é de abandono - Foto: Romildo de Jesus
O estado é de abandono – Foto: Romildo de Jesus

Ainda conforme Corina, os comerciantes sentem a falta de movimento na biblioteca. “O bairro é pequeno, não tem terminal de ônibus e não dá sustentação ao comércio, que fica à mercê das clínicas, que são poucas também, e da biblioteca que traz o pessoal de fora. Mas ela tem mais de dois meses funcionando de forma precária, abre um pouquinho e depois passa uma semana, duas, fechada. É uma falta de comprometimento coma nossa cultura, com o nosso acervo. É terrível mesmo”, relatou a empresária, que quando tomou conhecimento que a central de ar condicionado está quebrada há mais de um ano e sem perspectivas de concerto ficou ainda mais indignada.

A Biblioteca dos Barris, com mais de 120 mil livros e 600 mil jornais em seu acervo,  salas de cinema, galeria, diretoria de Som e Imagem e um  teatro (Espaço Xis), integra o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, gerido pela Fundação Pedro Calmon – Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA).

Os funcionários da biblioteca, por sua vez, não se pronunciam a respeito das condições no ambiente de trabalho, mas deixam transparecer que fazem o que gostam. Ontem, por exemplo, durante todo o período da tarde, eles promoveram a 9ª Lavagem das escadarias do prédio, em homenagem à criação da unidade, ocorrida no dia 13 de maio de 1811,  inicialmente funcionando na Praça da Sé e, em seguida, na Praça Municipal. Grupos de samba, de dança, hip-hop e uma Feira de Economia Solidária foram atrações do evento que também celebrou o Dia Nacional da Cultura Brasileira, que é hoje, 5 de novembro.

 Mas, nos meses de agosto e setembro, eles não tiveram muito que comemorar. Os vigilantes se recusaram a continuar a trabalhar, devido ao atraso nos salários, e a biblioteca ficou com o funcionamento reduzido, limitado às poucas horas e em poucos espaços.

“Fez muita falta, apesar de eles liberarem o acesso, porém era bem limitado. A galera reclamava bastante, porque não deixavam subir. É um espaço bem importante pra galera que quer estudar. É um lugar tranquilo, tem várias opções de livros e a galeria de empréstimos também”, comentou a estudante Adriele Martins, 18.

Apesar dos problemas estruturais do prédio, inaugurado em 5 de novembro de 1970,  quem estuda para concursos, Enem ou busca informações sobre autores baianos e a história do estado, tem na biblioteca uma fonte inesgotável.” Estudar ou pesquisar na biblioteca é bom, quando encontramos o que procuramos. Eu, por exemplo, agora estou com dificuldade de achar  artigos específicos sobre a cidade de Lauro de Freitas, mas continuo pesquisando”, diz Rafael Vasconcelos, 27, estudante de História.

“ Hoje a gente se restringe mais a internet, mas a biblioteca não deixa de ser um componente importante para as nossas pesquisas”, comenta o estudante Lucas Vieira, 21, acrescentando que torce para que “ as autoridades não deixem este patrimônio abandonado e façam o que for necessário para que seja um local cada vez mais confortável e atraente para quem busca o conhecimento”.

Esse monte de ferros retorcidos é uma grade de proteção - Foto: Romildo de Jesus
Esse monte de ferros retorcidos é uma grade de proteção – Foto: Romildo de Jesus

De acordo com a assessoria da Fundação Pedro Calmon, a biblioteca possui um acervo de 166.350 livros, 652.802 periódicos e 15.336 multimeios, com setores de documentação baiana, braille, obras raras, periódicos, empréstimos, infantil, pesquisa e referências e salas de estudo. No total, são 67 bibliotecários e auxiliares de biblioteca.

Com relação às assinaturas de jornais, o Órgão esclareceu que está tomando providência para a retomada de assinaturas e que o serviço será retomado ainda este mês. A Fundação ainda afirmou, por meio de nota, que, a Biblioteca terá seu sistema de refrigeração retomado.

Serão disponibilizados recursos de R$74 mil, na próxima semana,  para solução desta questão, no intuito de melhor atender os usuários. Após a liberação, será feito o conserto.

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1 Comentário

  1. Lee Afranio
    6 de novembro de 2016 a 20:31 —

    Devemos lembrar que muitas da depredação da biblioteca dos barris é ação dos próprios usuários. Já foram no banheiro do primeiro andar? Como os usuários fazem suas necessidades no próprio assento? Joga lixo fora do cesto, já usei a sala de estudos e os próprios usuários deixavam a sala imunda. Não é por que é publico que devemos tratar como lixo. Zelar seria importante para a manutenção dela.

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