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A série “The Librarians” baseia-se na cinematografia de mesma nomenclatura. Os filmes são três produções: The librarian, quest for the spear; The librarian return to king Salomon’s mines e The librarian curse of the Judas chalice. Em todas as três produções, o protagonista é o renomado bibliotecário Flynn Carsen, interpretado pelo ator Noah Wyle. O seriado teve a sua estreia em dezembro de 2014. The Librarians foi produzida pela emissora Turner Network Television (TNT). Produzida por John Rogers, o seriado apresenta dez episódios, cada um com quarenta e dois minutos de duração. Foram exibidos, entre 2007 e 2010, pela rede de TV australiana ABC. A trama gira em torno de uma biblioteca que recruta os mais célebres intelectuais de sua época.

Eles possuem conhecimento em diversas áreas e precisam passar por um exame admissional para o cargo de bibliotecário. Esse exame que a série apresenta-nos ajuda a perceber a questão da preparação que esse profissional deve ter para execução da sua função social. Após esta etapa, o funcionário adquire a responsabilidade de salvar o mundo de influências mágicas. Para isso, necessita procurar objetos perdidos e enfrentar alguns antagonistas.

Os bibliotecários exercem um papel de grande relevância na sociedade. A própria cultura televisiva reafirma esta ideia ao conceder espaço para tal profissão. No entanto, verificamos participações de forma esporádica. Contudo, as bibliotecas e seus responsáveis têm o seu valor mostrado. Constantemente, são usadas como cenários das séries de TV. Ao assistirmos a série americana, encontramos o ator americano, Noah Wyle. Este interpreta Flynn Carsen, um bibliotecário que trabalha em um local onde, secretamente, são armazenados objetos mágicos e lendários como: a espada Excalibur e a coroa do Rei Arthur. Ele lidera uma equipe com a missão de proteger esses objetos mágicos.

As primeiras temporadas, com os 10 episódios produzidos, são as seguintes: 1 A coroa do Rei Arthur; 2 A espada na pedra; 3 O dilema do labirinto;  4 O Papai Noel; 5 O pomo da discórdia; 6 As fábulas da destruição; 7 A regra de três; 8 O coração sombrio; 9 A cidade da luz; 10 O tear do destino. Percebemos no título de cada episódio informações que nos permite inferir que a série apresente o mundo das bibliotecas como destaque.

A estréia no Brasil ocorreu pelo Canal Universal (TV por assinatura) e os episódios da 1ª temporada da série mostram as aventuras dessa equipe para proteger e recuperar algum item mágico das mãos dos vilões. Lembramos que será necessário certo desapego por Flynn – ao cuidado tradicional do bibliotecário como exemplo a guarda e preservação de materiais – para avanço nas missões que acontecem.

A produção televisiva mostra muito bem que a magia e os desafios de se trabalhar em uma biblioteca são descobertos diariamente, confirmando que de certo somos verdadeiros heróis por vencermos diversas dificuldades impostas na prática profissional. Verificamos, em um dos episódios, o bibliotecário Flynn, descrevendo-se de forma similar a proposta por autores como Ortega Y Gasset.

Ainda que com inúmeras concepções pós-modernas, e numa sociedade envolta em tecnologias, percebemos por parte dos diretores e roteiristas uma preocupação em deixar explícita a essência e relevância do “SER BIBLIOTECÁRIO”. Vejamos como o personagem se posiciona:

– Precisamos de um bibliotecário para proteger todos nós.

-Bibliotecários não são perfeitos, nenhum de nós é, mas alguém precisa segurar a linha.

– Manter o equilíbrio. (The Librarians, 1 temporada, episódio 5)

Relacionando as argumentações supracitadas com a série, observamos em alguns episódios que alguns personagens escolhem a profissão não como paixão ou desejo de ser um profissional da informação, nem sempre é uma escolha consciente. Em um dos diálogos da série, destacamos esse pensamento:

– John precisa melhorar seu comportamento, se quiser ser bibliotecário vai fazer o trabalho.

– Trabalho? Ai essa palavra eu não gosto nem de como ela soa, eu virei bibliotecário porque parecia divertido.

– A vida é mais que viajar pelo mundo abusando da sorte. (The Librarians, 1 temporada, episodio 6).

Como em qualquer outro ambiente, teatros e cinemas, por exemplo, há demanda por atitudes disciplinadas. Ainda que com uma narrativa imaginária, presenciamos resquícios desse profissional na série analisada. Almeida Júnior (1997) destaca que embora a biblioteca esteja ligada a construção imagética de guarda dos artefatos, como a série se propõe a mostrar, isso não reduz a importância da necessidade social desse local.

A fim de atingir esses objetivos, a produção estabeleceu treinamentos específicos para os personagens da série. Cada um passou por um laboratório diferente. Além de serem bibliotecários, eles detinham uma segunda profissão que possui um destaque muito maior que o de “guardião de livros”. Nos subitens seguintes, analisamos os cinco principais personagens, percebendo como ocorre a construção da identidade do profissional bibliotecário, os estereótipos e valores ocupacionais que o seriado norte-americano redesenha para cada um.                                     

Personagem Flynn Carsen, o bibliotecário

Flynn Carsen (Noah Wyle) é um estudante de história muito bem-sucedido academicamente, mas não tanto socialmente. Até que ele recebe uma carta com uma proposta de emprego na Biblioteca Pública local. Ao ser aceito para a vaga, se vê em um mundo completamente novo de magia e aventura. Seu emprego como bibliotecário consiste em encontrar artefatos mágicos pelo mundo e guardá-los na biblioteca, impedindo-os de cair em mãos erradas.

Percebemos nos traços psicológicos do personagem, que ele apresenta um orgulho exagerado por sua profissão. É um profissional prepotente. Apresenta um nível intelectual muito bem desenvolvido e apurado para várias áreas do saber. Ao estabelecermos conexões com as referências bibliográficas pesquisadas, verificamos que ao apresentar o personagem com essas características, é retomada a discussão da função social ocupada por cada profissional.

O bibliotecário necessita de uma desenvoltura interdisciplinar: esse discurso é compreensível. As próprias mudanças advindas do processo de globalização exigem, continuamente, alguém acima do padrão de qualidade, uma vez que estamos imersos num mundo dominado pelas tecnologias.

Cada vez mais se exigem profissionais capacitados a lidar com os novos avanços tecnológicos, e que esteja inserido no contexto da informação, do conhecimento e das tecnologias de informação disponíveis. Já afirmamos anteriormente que com advento das tecnologias de comunicação e informação os profissionais estão em um período de mudanças. Um contexto conhecido como sociedade da informação. A mudança do suporte físico para o digital e os novos espaços de trabalho exigiram profissionais de atitude e com características específicas com a realidade atual. Afirmamos que de certo modo Flynn Carsen insere-se nesse perfil.

No aspecto caracterização, a produção de figurino do seriado preocupou-se em utilizar uma vestimenta clássica. Gravatas, coletes, cores opacas, bolsa carteiro, óculos e relógio de bolso são elementos marcantes do perfil do personagem Flynn Carsen que demonstra-se extremamente caracterizado. É considerado um herói dentro da produção televisiva. Por isso a trama mescla características fantásticas dentro de um universo real.

O protagonista encontra barreiras em suas relações interpessoais. Prefere se deter ao âmbito de sua carreira. Flynn Carsen, observado pela visão social, nos mostra que podemos encontrar diversos estereótipos se reafirmando. Com o desenrolar da trama algumas dessas características vão se suavizando enquanto outras permanecem intactas.

No personagem analisado, verificamos que o estereótipo da vestimenta se mantém presente. As roupas com coloração fria e estilo social são suportes essenciais para construção identitária da chamada “seriedade profissional”. Logo, percebemos que estereótipo nada mais é que um molde sólido no qual se baseia a sociedade para um reforço e construção de algo ou alguém, neste caso, esse alguém é o bibliotecário Flynn Carsen. No item a seguir, apresentaremos a análise da bibliotecária Cassandra, que é mais uma evolução na construção identitária do profissional em análise.

Personagem Cassandra Cillian, a bibliotecária matemática

Cassandra Cillian (Lindy Botthy) é a bibliotecária matemática. Tem alucinações auditivas e sensoriais ligadas à recuperação da memória. Devido a sua rara doença no cérebro ela é uma sinesteta. Sinestesia é um distúrbio sensorial. A personagem tem os sentidos embaralhados e processa informações de forma separada e contida.

Para uma pessoa sinestésica sete é o roxo, sal tem gosto de redondo e o agudo tem textura macia. Possuem uma memória fotográfica. O cérebro de Cassandra é conectado aos cinco sentidos e ligados à memória. Os números, cores e ciência são notas musicais. Quando ela calcula, sente cheiros. Têm alucinações completas, o que indica uma anomalia no lobo frontal, chamado de oligodendroglioma.

Todas essas características nos apresentam um profissional completamente diferente de Flynn Carsen. Quando buscamos estudar a construção dos estereótipos femininos dentro da profissão são inúmeras suas referências. Na literatura erótica podemos citar Belle Logan em A bibliotecária, e outras séries de tv que prezam pela erotização da profissional da informação.

Entretanto, Cassandra é uma personagem que foge dos extremos e se aproxima da realidade. Ela não carrega características de idade avançada, assim como características explicitamente sensuais. Não possui habilidades de combate como Jake (bibliotecário que analisaremos posteriormente), assim como capacidades com tecnologia avançada como Ezekiel (outro bibliotecário da série).  Podemos dizer que representa em parte a essência da imagem tradicional da profissão.

Contudo, Cassandra demonstra conter uma exímia capacidade matemática. Em suas vestes utiliza novamente as cores frias, mais especificamente o branco e o azul (novamente a presença do estereótipo da vestimenta). Entretanto, busca estampas mais chamativas, com pré-disposição para estampas florais. O que podemos afirmar é que em alguns momentos é uma fuga do estereótipo. O cabelo ruivo é uma característica marcante e um diferencial.

Jake Stone é sobre quem discorreremos no tópico seguinte. Perceberemos novas características que diferem de Cassandra, mas que são elementos importantes para entendermos o desenvolvimento do bibliotecário na sociedade da informação.

Personagem Jake Stone, o bibliotecário historiador.

Jake Stone (Christian Kane) é o bibliotecário historiador. Considerado uma “enciclopédia humana” e muito bom com datas e séculos. Seu QI (Quociente de Inteligência) de 190 fez com que fosse aceito pelas universidades de Sarbonne e Cambridge para títulos em artes, mas recusou ambos. É um escritor da área da literatura e história da arte. Sua origem é europeia, mas vive como americano. Trabalha como petroleiro a 8 km da cidade onde cresceu.

Ao compararmos Jake com os dois personagens analisados até aqui, confirmamos que ele é o personagem com a maior quebra de estereótipos da trama. Poucos modelos se encaixam nesse personagem. Seu elevado QI e sua capacidade intelectual exacerbada na área de história da arte o aproximam do ideal de bibliotecário dentro da série, uma vez que todo seu vasto conhecimento teórico se mostra útil durante todos os episódios que se seguem.

O perfil físico de Jake chama bastante atenção. Ele é completamente diferente do primeiro bibliotecário apresentando, Flynn Carsen. O personagem apresenta um físico típico de praticantes de musculação. Um corpo robusto e uma musculatura mais desenvolvida. Um ponto interessante na quebra do estereótipo tradicional, levando-se em consideração que nos dias atuais a chamada ditadura da beleza e a busca pelo corpo ideal permeiam todas as profissões da pós-modernidade.

Concernente ao vestuário, observamos que há uma quebra na ideia do estereótipo da vestimenta. Os dois bibliotecários apresentados anteriormente mantinham uma semelhança neste quesito. No caso de Jake, o estilo da vestimenta se aproxima muito com o de um cowboy. Entretanto, conseguimos perceber a permanência da característica da coloração “padrão”, cores frias em predominância.

Essa característica aponta para uma dissociação com o imaginário pré-construído sobre o profissional, pois o personagem é dotado de um corpo forte e alto e idade que é estimada em trinta anos. Assim como Flynn Carsen, Jake se demonstra extremamente corajoso. É um exímio combatente corpo a corpo, atributos normalmente desassociados a bibliotecários.

O personagem, em muitos episódios, busca atividades solitárias. A falta de confiança nos companheiros de profissão também é um ponto interessante. Essa característica individualista se mantem em todos os personagens com o título de bibliotecários dentro do seriado. Uma reflexão bem pertinente aos dias atuais, onde presenciamos cada vez mais a ligação do homem com a máquina (redes sociais) e menos contato pessoal.

Podemos relacionar as características de Jake com atividades das áreas da Biblioteconomia em que a relação interpessoal é relativamente baixa. Os bibliotecários de áreas como processamento técnico, normalização e restauração de documentos são exemplos em que se evita o contato com o usuário. Sendo este fator que se fixa ao imaginário da população de que o bibliotecário é um profissional “tímido” e reservado. O estilo despojado do personagem e sua natureza tranquila se contrapõem criando um misto de confirmações e rejeições de estereótipo.

Ezekiel Jones, nosso próximo bibliotecário, é o representante máximo quanto às habilidades com a tecnologia. O personagem é um referencial da evolução da profissão na era da globalização e da revolução tecnológica.

Personagem Ezekiel Jones, o bibliotecário hacker

Ezequiel Jones (John Kim) é um bibliotecário hacker de nível mundial e gênio na informática. Consegue acessar qualquer sistema de segurança. Foi contratado justamente para possibilitar a invasão dos lugares mais seguros. Um bom exemplo no seriado é quando ele entra no sistema de segurança de um dos maiores museus da cidade de Londres. Dentro do universo fantástico criado por John Rogers, ele foi aderido ao papel de bibliotecário.

O personagem apresenta características que o aproxima, mas que ao mesmo tempo diferem-se do contexto profissional. Ezekiel antes de conseguir o cargo na “biblioteca” detinha o título de estelionatário multinacional, utilizando de seus conhecimentos dentro da área tecnológica para executar furtos em museus com obras de alto valor.

Com uma personalidade altamente egoísta e avarenta, Ezekiel é usado diversas vezes nos episódios para discussão dos valores humanos e a conduta ética que deve incorporar a vida do profissional da informação. Esse é o ponto interessante. Percebemos a capacidade que tanto seriados como filmes têm de ensinar valores, ainda que no universo mágico e irreal.

Quanto às habilidades com a tecnologia, o personagem é um referencial da evolução da profissão. Encontramo-nos cada vez mais emersos na tecnologia. Novas plataformas de dados, novos softwares, novas mídias digitais tornam a inserção do bibliotecário nesse ramo tecnológico indispensável para a evolução profissional.

A grande maioria costuma associar os bibliotecários como guardiões do conhecimento. Figuras metódicas, de trabalho clássico e enraizado a uma tradição que em nada se liga ao meio tecnológico. O personagem Ezekiel Jones surge como uma quebra desse estereótipo que se enraizou na cultura popular.

Como já discutimos nos capítulos anteriores, o bibliotecário, enquanto mediador da informação, também deve atuar nos ambientes virtuais. Isso é importante para que ele amplie as atividades desenvolvidas nos ambientes físicos das bibliotecas. Ele tem a função de apresentar-se como um facilitador do acesso e uso da informação nesses ambientes. Enfatizamos que o bibliotecário está imerso na cultura virtual, e ter um personagem que representa a classe e que detém meios de conhecimento dentro da área virtual ajuda na desmistificação do papel do profissional na sociedade.

Por fim, destacamos os elementos que compõe o vestuário de Ezekiel Jones. Semelhante aos outros personagens, costuma utilizar roupas de coloração fria. Entretanto, observamos seu estilo de vestimenta mais informal e despojado. Sua idade é outro elemento que estabelece uma ruptura com o estereótipo padrão. Na maioria das vezes, é nos apresentado o profissional do sexo masculino com senilidade e um traje mais voltado ao clássico e formal.

Veremos no tópico seguinte, a análise do perfil do administrador da biblioteca. O bibliotecário Jenkins é um dos mais experientes na profissão. Vejamos quais as características mais marcantes nesse personagem.

Personagem Jenkins, o administrador da biblioteca.

Jenkins (John Larroquette) é o administrador da biblioteca. Usa um anexo em Portland e costuma fazer pesquisas sobre artefatos. Relutantemente aceitou os bibliotecários como guardiões. Fornece informações e ajuda os outros bibliotecários. No entanto, tem medo de se envolver na luta. É o responsável por cuidar dos outros bibliotecários.

 Sua função é enviar os bibliotecários nas missões para salvar artefatos antigos e mágicos. Percebemos que mesmo em meio ao mundo mágico, Jenkins é um dos bibliotecários que mais se a aproxima do estereótipo padrão. Com base nas pesquisas bibliográficas, observamos que há uma série de fatores que contribuem para afirmarmos que Jenkins não se distancia da visão que a sociedade desenvolveu sobre os bibliotecários.

O personagem é responsável pelo cuidado do acervo e manutenção do espaço físico. Essa característica reflete o que a literatura já menciona. Os primeiros profissionais eram pessoalmente responsáveis pela integridade e manutenção dos acervos, o que intensificava a necessidade de cobranças e de impedimentos de acesso às obras. Tal qual ocorre na série.

A responsabilidade que o personagem detém sobre o grupo é outro aspecto interessante. As bibliografias destacam que as funções das pessoas que trabalhavam nas bibliotecas incluíam a responsabilidade pela limpeza, organização física dos livros e “arejamento” do local. Além disso, há relatos que em muitas organizações o pessoal da biblioteca participava do processo de seleção dos alunos das universidades. Essa tradição pode ser percebida no seriado. Jenkins tem o poder de escolha em que participa ou não do grupo.

O estereótipo apresentado pelo diretor da série, Dean Delvin, evidencia a ideia de que os bibliotecários jovens necessitam de um experiente para auxiliá-los. Nas missões, Jenkins é o responsável por manter esses jovens com os “pés no chão”. Cabe ao mais experiente a função de guiar os iniciantes e ajudá-los, evitando que os mesmos desviem-se do seu objetivo principal: o resgate de artefatos raros.

Quanto aos elementos que compõe o vestuário de Jenkins, destacamos que costuma utilizar roupas de coloração fria. O tom clássico é marcante durante toda a temporada da série.  O seu estilo de vestimenta formal e sua idade estabelecem pontes com o estereótipo padrão. O profissional do sexo masculino com maior experiência na área e um mantendo um pensamento e uma forma de agir voltada aos padrões do rigor e da formalidade da profissão.

A partir dessas constatações, inferimos que a série reproduz, por meio de Jenkins, a imagem padrão que ainda perdura pelo fato, concreto, de serem os bibliotecários, na maior parte das organizações, os responsáveis pelo patrimônio documental nas instituições que dirigem. Logo, é compreensível a associação desses profissionais com pessoas que resistem em “abrir” seus acervos, que de certa forma vigiam, mais que mediam informação.

O seriado apresenta, nos episódios iniciais, a ideia de que foram décadas de uma imagem se reafirmando socialmente. No entanto, os diretores são vanguardistas e propõem ao longo da minissérie uma nova reflexão. É apresentado, então, ao longo dos capítulos, bibliotecários que fogem ao padrão discutido nos primeiros capítulos deste trabalho. O próprio ambiente de inovações tecnológicas propicia o aparecimento de profissionais com características diferentes dos profissionais que optam por certo tradicionalismo.

Mesmo em meio a algumas modificações na construção identitária do bibliotecário, percebemos que os diretores de certo modo corroboram com as discussões apresentadas por autores da área da Biblioteconomia sobre a função do profissional. Ao buscarmos subsídios nas produções literárias para construção do trabalho, verificamos que os diversos autores mostram que o bibliotecário é o profissional apto para exercer o relevante papel de busca, seleção, organização e disseminação da informação. Num mundo em acelerada transformação.

Inferimos que os diretores do seriado não tenham buscado diretamente essas fontes para construção da imagem dos personagens. Entretanto, nos posicionamos afirmando que os bibliotecários da série, The Librarians, atendem muito bem a esse ambiente de intensas transformações no qual estamos imersos.

O seriado pelo seu enredo já desconstrói o imaginário que se fixou na sociedade. Aquele bibliotecário tradicional que vive sentado, organizando, apático ou mesmo de uma idade avançada. Verificamos ao longo da pesquisa, nos aspectos físicos, bibliotecários com vestes desassociadas a imagem padrão.

Por outro lado, no que se refere à personalidade, observamos profissionais introspectivos, destemidos, críticos e audaciosos. Quanto às funções que eles desempenham na minissérie temos alguns com hábitos ilegais (acesso às informações confidenciais), como o bibliotecário Ezekiel, e uma que usa da sinestesia para preservar os bens culturais da biblioteca. Argumentamos que os estereótipos são emoldurados por um perfil rico e caracterizados por funções, mas por uma caracterização criada pela própria mídia.

O que observamos nesse estudo é que o estereótipo padrão do bibliotecário (aqui nos referimos ao padrão brasileiro, visto que nos EUA, o padrão para o profissional estabelece-se de outras formas, mas que não objetivamos destacar nesse momento) não se perde por completo dentro da produção televisiva. Os próprios elaboradores do seriado deixam explícito o principal papel do profissional no seriado: guardião do conhecimento e dos bens culturais. Diante dessa informação, percebemos que nesse ponto os diretores afirmam o que autores, como Ortega y Gasset (grande pensador sobre o que é ser bibliotecário), já havia afirmado e discutido anos anteriores antes da produção da série. A essência de guardião do conhecimento não se perde. Os perfis podem mudar, por conta de diversos fatores, no entanto, a essência e os princípios profissionais permanecem.

Nossa análise não pretende dá conta de todos os estereótipos. Outros podem ser encontrados em trabalhos futuros. Pode ocorrer também que as pessoas não os conheçam, ou mesmo que saiba pouco sobre a existência e função social desses profissionais. Esses aspectos são pontos importantes, visto que podem ser incorporados em pesquisas futuras.

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2 Comentários

  1. Luiz Felipe
    26 de abril de 2017 a 16:31 —

    Artigo sensacional! A autora conseguiu transmitir com clareza e coesão todo seu estudo e conhecimento relacionando o assunto com a série em questão! Que é maravilhosa por sinal!
    Parabéns Ludmila Costa!

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