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E um dia a gente acorda e percebe que já não é mais o mesmo. Que o medo e a insegurança vieram fazer morada em nosso ser e se alimentam de nossos traumas, dores, incertezas. É uma dor que não tem muito um lugar certo para se fazer sentir. A gente insiste em dizer que é lá no coração. Ou nas pernas, que tremem quando queremos agir contra o medo paralisante. Ou na cabeça, quando inúmeros pensamentos confusos, desconectados e eufóricos nos deixam meio tontos, como se estivéssemos sem chão, como um forte ataque de labirintite.

É num labirinto que entramos sem saber que corremos sérios risco, já que não somos Teseu, nem temos o fio salvador de Ariadne. É um labirinto que nem sabemos quem construiu, se algum Dédalo expert em construções que encerram os males e a si mesmo, ou sei lá quem. O minotauro, quem é nessa construção hermética? A gente finge que não sabe que a dor é só nossa, e culpa o mundo. A gente finge que a dor não existe e quer ser forte, quando já não há pernas e sonhos e luzes que nos guiem. A gente finge um sorriso, mas é um riso que dói, porque o rosto é puro granito. A gente só quer se libertar de uma gaiola que foi construída por nós mesmos.

Nem sei mais o que este texto significa. Escrevo utilizando o automatismo psíquico. E pode mesmo ser que o que venha a ficar pronto seja um cadáver requintado – o cadavre exquis – ou cadáver esquisito (não importa como traduzimos isso, porque a aberração dá na mesma). Só quero com isso tentar fazer com que meu inconsciente assuma de fato minhas ações e resolva por mim tantas coisas. Automatismo psíquico, escrita de louco, fluxo de consciência, técnica dadá, qualquer porra que sirva para denominar isso que quero dizer e que não consigo e no entanto estou dizendo sem vírgula ponto e vírgula e ponto final nesse período aqui e agora.

Pontuação às vezes atrapalha o dizer e tudo fica mais angustiante porque sintaxe nenhuma dá conta da gramática interior. O interior só sabe o que é a desgramática, a despoesia, o desatino. E qualquer tentativa de tornar coerente o pensamento esbarra na impossibilidade do dito revelar-se.

Bem que eu gostaria de falar de tempos sólidos, mas o que tenho visto e vivido me faz ir ao encontro de Zigmunt Bauman e abraçá-lo na sua firme convicção de que tudo é líquido atualmente, amorfo, sem característica definida. O conteúdo assume o caráter do continente, moldando-se à luz das circunstâncias. Não tem firmeza, nem cor, nem gosto.

Insípido, incolor e inodoro, igual o Tsukuru Tazaki, protagonista do romance do Haruki Murakami, que li outro dia. O rapaz pertencia a um grupo de amigos para sempre, cujos sobrenomes faziam referência a cores. Ele era o único descolorido do grupo e, sinal dessa sina, acaba por ter sua vida afetada significativa e drasticamente.

Sim, agora lembro que li esse livro noite e dia, dia e noite, do começo ao fim, não só porque o autor escreve como quem está do nosso lado a nos contar um drama real de modo tão convincente, mas também porque aquele personagem incolor me lembrou do sujeito pós-moderno, fragmentado, literalmente descentrado, que perdeu referências espaciais, temporais, filosóficas, morais, ainda que não tenha feito nenhum mal a si e aos outros.

É essa incerteza sobre o que os outros pensam, como os outros reagem, vociferam, bradam, sem pensar nas consequências, ou simplesmente se calam diante das irracionalidades, dos fundamentalismos, da ressurreição do fascismo e de outras merdas; enfim, é tudo isso, e muito mais, que forma a sopa intragável do mundo contemporâneo, onde a gente não tem mais fronteira que nos separe, e no entanto, está tão isolada na barreira que nós mesmos criamos, achamos que estamos protegidos.

O muro de Berlim não foi derrubado. Está aqui dentro de mim, aí dentro de você. O apartheid sul-africano não acabou. Vigora nos guetos que nós construímos, não importando as geografias que se colocam sob nossos pés. Eu não gostaria de dizer isso, mas o que me vem à mente nesse momento é somente esta frase de Shakespeare: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum” (Macbeth, Cena V, Ato V).

Acho que já perdi o fio da meada dessa crônica. Mas não importa. É uma crônica, ora; uma ferida crônica. Não cicatriza, nem termina quando o texto se fecha. Ela precisa ficar ressoando, zumbindo, não como o voo de uma abelha, mas como o voo chato de uma mosca varejeira diante da podridão, querendo expelir suas larvas. E se o leitor quiser ler algo com começo, meio e fim, já sabe que quer, na verdade, ser enganado, porque sabe que a história é cíclica e o tempo não pode ser medido com a régua do espaço, ainda que estejamos na Terra.

E agora me perdi completamente. Bem, sobre o que mesmo eu estava falando no começo do texto? Sim, era alguma coisa sobre o ato de ser grande, santo, justo, bom. Não, não era isso. Não existe bondade nem justiça nessa terra. Mas era sobre uma espécie de desejo, de sonho.

Lembrei (não volto ao início para verificar, nem que isso resulte um monstro). Era sobre pesadelo. Sim, o pesadelo que é viver atualmente boiando num oceano de incertezas. Acho que já falei inclusive sobre as incertezas numa outra crônica. Mas tudo é incerto. E não quero verificar nada, por medo de virar uma estátua de sal feito a mulher de Ló.

Acredito que o tempo presente é uma quimera a nos açoitar. Chega!

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