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“Uma política de sustentabilidade deve iniciar-se pela educação de nossa sensibilidade. E não existe método mais eficaz do que a literatura para dialogar com a fantasia que silenciosamente mora em nós e nos move. Ao dar corpo aos nossos desejos, ao conversar com nossas inquietações, ao nos abrir para novos entendimentos, a literatura é objeto capaz de nos propor o mais fecundo dos diálogos: quando o eu real, no espaço do silêncio, conversa com o eu ideal”, escreveu querido poeta Bartolomeu Campos de Queirós em “A Infância e o livro”.

Eu tive o enorme privilégio de conhecer e conviver com Bartolomeu por alguns poucos anos em alguns inesquecíveis momentos. Ele reflorestava meu coração. Ele era o que escrevia, e o que escreveu segue semeando o coração de muita gente. Semear coração… semear coração é uma metáfora. Porque ele é o órgão em nós que pulsa e revela em movimento e som de que há vida em nós. Mas é no cérebro que podem brotar as sinapses sementes de humanidade.

O planeta ficou doente porque está com a humanidade baixa!

Nos últimos dias circulou pelas redes sociais um post com a imagem da Mafalda, do inigualável Quino, sempre evocada para gritar nossa indignação e tocar lá no fundo do nosso cérebro onde mora a “alma humana”.

Habitando dias de enorme perplexidade, medo, insegurança e isolamento— possível para a classe média e inviável para a imensa maioria da população brasileira que vive em situação de riscos extremos e desassistência todos os dias há séculos —, muito se fala sobre quem seremos após esta pandemia originada de uma pandemia anterior, a meu ver, resultado de total descaso e inconsequência com a forma como habitamos este planeta e descuidamos de cuidar de cada vida.

“Não existe cuidado sem troca”, alertou o saudoso Daniel Piza, com quem também tive o enorme privilégio de conviver e de trabalhar em duas publicações, sendo uma delas “Leituras da natureza”, obra que segue atualíssima, onde discorre e dá exemplos de leituras literárias imperdíveis sobre como “a literatura tem alertado, há tempos, para os problemas na relação com a natureza e com os outros seres humanos, para a necessidade de não se deixar iludir e se acomodar por um estilo de vida que em médio e longo prazo pode ter um custo insanável”. Pois é, cá estamos!

A pergunta segue ecoando: quem seremos após esta pandemia? Como é que estamos plantando o futuro no presente? Pergunta igualmente vital: quem estamos sendo nesta pandemia? Até onde alcança nosso olhar? Nossa empatia? Até quem chega? Como chega? Se é que chega um cadinho para além da nossa própria bem vivência ou sobrevivência.

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.”

O poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira, é de 1947! Há 73 anos! Quem seguimos sendo há 73 anos que seguimos invisibilizando seres humanos? Em 2007 escreveu Ivan Angelo — que também tive o privilégio de conhecer de pertinho — no texto “A formiga e o lixo”, página 140 do livro, “A vida que a gente quer depende do que a gente faz“, sobre a presença dos catadores de material reciclável nas ruas de Sampa:

“Pensa, senhor cidadão de primeira categoria: que homem é esse? Um descartado — como as sobras que transporta. Ele não conta, não usa CD, DVD, celular, iPod, cinema, universidade, casa, transporte, televisão, roupa nova, geladeira, videogame, sapatos — na grande cidade, é um resto. Um rejeito levando rejeitos”.

Os catadores têm um papel fundamental na política nacional de resíduos sólidos. O trabalho que realizam, de forma geral, é sob condições extremamente precárias, muitas vezes de forma solitária, outras reunidos em cooperativas. Segue longe de ser uma oportunidade de trabalho decente. Sua atividade é reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2002. Visíveis, mas invisíveis. Visível é o acúmulo de tudo que consumimos de forma desenfreada, invisibilizada a exploração desenfreada de recursos naturais.

Distantes das fontes de recurso, julgamos infindáveis, apesar dos apelos e informes de organizações e da comunidade científica. Didáticos, ensinamos crianças a fazerem brinquedos de material reciclável, mas não ensinamos como reduzir consumo. Precisamos? Não, desejamos. E vamos às compras! Os catadores, invisibilizados, são a ponta de um iceberg que não queremos ver à nossa frente, atrapalhando o trânsito.

Enquanto escrevo este artigo, leio que no continente africano há uma quantidade pequena de idosos em função da baixa expectativa de vida!!!!!!, o que não significa que a atual pandemia de coronavírus deixará poucas vítimas, já que as  condições sanitárias precárias e a desnutrição são fatores endêmicos. Enquanto escrevo este artigo milhares de vidas correm riscos extremos nas periferias das cidades do Brasil, onde não há a menor condição de isolamento social, condições sanitárias e mesmo abastecimento de água para a higiene necessária.

Enquanto escrevo este artigo há muita gente inconsequente, indiferente, autocentrada, sem compaixão, olhando sem ver os númerosque sobem diariamente e os projetados: pessoas que serão infectadas e que fatalmente morrerão porque não haverá como oferecer os atendimentos necessários, e que também morrerão vítimas da indiferença, do descaso, do abandono de séculos. São números sem face. Vidas sem importância.

Enquanto escrevo este artigo, há diversos coletivos da sociedade civil em ação para apoiar as populações sempre tão fragilizadas e ainda mais nestes tempos, a maioria deles criados e coordenados por moradoras(es) das periferias. Enquanto escrevo este artigo, há universidades públicas, cientistas, pesquisadores, equipes médicas e hospitalares — equipes de limpeza, alimentação, administração — em ação para produzir o atendimento e os recursos necessários.

Enquanto escrevo este artigo, leio nas mídias que o confinamento de mulheres, crianças e jovens resultará na superexposição à violência diária por seus agressores.

Enquanto escrevo este artigo, penso no que estamos fazendo hoje, nestes tempos em que uma força muito maior está nos obrigando a puxar o freio para todas as rotinas cegamente seguidas, para refinar nossa sensibilidade, para calibrar nossos sentidos e nossa percepção para sermos seres melhores neste planeta. Ou se sairemos desta experiência dramática omissas(os), irresponsáveis, inconsequentes, com muitos memes e piadinhas novos para seguir replicando pelas redes sociais porque, afinal de contas, “precisamos relaxar com todo esse estresse”.

Eu escolhi, de novo, Ariano Suassuna:

“Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo”.

Concordo com Suassuna, semeamos para um futuro ainda muito muito longínquo. E escolhi seguir convicta que a arte e a literatura podem fazer de nós humanos humanistas. Ser voz e resistência.Não apagar. Não esquecer. O fósforo na escuridão de Faulkner[1]. A poesia que revela a potência contra todas as tiranias. Como nos versos de “Alfanje”, da escritora Neide Almeida, amor de gente que tive o privilégio de conhecer recentemente. Marielle, presente!

“Não se cala uma mulher

com máscaras, nem de ferro, nem de flandres.

Sua verdade é lâmina afiada,

rompe todas as mordaças…

… Não se cala uma mulher

com balas, nem de chumbo nem de prata.

Seu silêncio verte-se em fúria, ventania

converte-se em poderosas tempestades.”

E me apoio, também, no que a ciência vem demonstrando. Circulou recentemente um artigo intitulado “O hábito de ler romances nos torna mais humanos”, que comenta um artigo escrito em 2013 no The New York Times por um professor de filosofia, Gregory Currie, da Universidade de Nottinghamm, intitulado “A grande literatura nos torna melhor?”, e o contraponto da jornalista e escritora Annie Murphy Paul.

Currie fala que inexistem evidências científicas que comprovem que a literatura nos torna pessoas mais empáticas. E lança a pergunta: “você pode ter certeza de que seu amigo inteligente, socialmente sintonizado e generoso que lê Proust ficou assim por causa da leitura? Não poderia ser ao contrário, que pessoas inteligentes, socialmente competentes e empáticas têm mais probabilidade do que outras de encontrar prazer nas representações complexas das interações humanas que encontramos na literatura?”

Um contundente argumento de que lança mão tem a ver com o fato de terem existido e existir pessoas extremamente cultas, grandes leitoras, capazes de promover atos de grande crueldade. A história tem fartas evidências. Uma delas vem, inclusive, de um famoso escritor britânico, que contribuiu em grande parte para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa: Charles Dickens, autor, entre outros, de “Oliver Twist”, um romance que relata as aventuras e desventuras de um rapaz órfão.

Dickens tentou internar sua esposa, Catherine, com quem viveu por vinte anos, em um hospício, após separar-se e sair para viver seu romance com uma jovem atriz. Tudo tem suas exceções e, como dizem, não podemos jogar fora o bebê junto com a água do banho. Ao contrário, devemos entender, pesquisar, aprender e persistir. Vamos ouvir Annie Paul.

Em resposta, a escritora Annie Murphy Paul, jornalista e colunista também do The New York Times, consultora e palestrante sobre o tema “como aprendemos e como podemos aprender melhor”, escreve o artigo “Porque precisamos ler literatura”. Nele discorre sobre as evidências científicas: “Na verdade, existe essa evidência. Raymond Mar, psicólogo da Universidade de York, no Canadá, e Keith Oatley, professor emérito de psicologia cognitiva da Universidade de Toronto, relataram em seus estudos publicados em 2006 e 2009 que indivíduos que costumam ler ficção parecem mais capazes de entender outras pessoas, simpatizar com elas e ver o mundo a partir de suas perspectivas.

Esse vínculo persistiu mesmo depois que os pesquisadores consideraram a possibilidade de indivíduos mais empáticos optarem por ler mais romances. Um estudo de 2010 encontrou um resultado semelhante em crianças pequenas: quanto mais histórias leram para elas, mais acentuada sua ‘teoria da mente’[2] ou modelo mental de interação com outras pessoas”. Tudo em nós e na história da vida biológica na Terra é obra de tempo, que apura e acura características, habilidades e, tão vital, consciência sobre a nossa responsabilidade com todas as vidas neste planeta.

Como reafirma Annie Paul em seu artigo, é preciso oferecer leituras literárias significativas com constância para ensinar o cérebro a acessar os circuitos da leitura para que sejamos capazes de ler com o nível de profundidade necessária para mergulhar em narrativas que aprofundam experiências de vida, dilemas humanos, tensões, contradições, habitar personagens e emergir impregnadas(os) de humanidade, de condições sensoriais e intelectuais para sermos mais empáticas(os).

Sobre a trajetória intensa que pode nos tornar leitoras e leitores sensíveis e competentes tratei no artigo publicado aqui na Biblioo em fevereiro, intitulado “Devo a leitora que sou às pessoas que me indicaram livros e leituras”.

Não somos donos da teia da vida”, alertou o escritor e querido amigo Daniel Munduruku, que conheço há quase duas décadas, bem como seu trabalho bonito e consistente no miudinho para que mais e mais indígenas tomem a palavra para escrever suas narrativas e, com elas, demonstrar a potência e beleza de culturas ancestrais que foram aqui sufocadas, extorquidas e escravizadas pelos colonizadores europeus. O que Daniel tem a dizer é coisa de pé de ouvido. Silêncio. Escute o que Daniel aprendeu com seu avô:

“Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio da vida, e o que fere, machuca a Terra, machuca também a todos nós, os filhos da Terra. Foi aí que entendi que a diversidade dos povos, das etnias, das raças, dos pensamentos, é imprescindível para colorir a Teia, do mesmo modo que é preciso sol e água para dar forma ao arco-íris”.

E você? Quais narrativas está lendo? Quais está ofertando para crianças e jovens? Com quais narrativas está semeando o sonho de sermos seres tão mais melhores neste planeta, para que sejamos capazes de oferecer o futuro às nossas crianças sem lhes roubar o presente?

[1]“O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor”.

[2]Teoria da menteé a habilidade de atribuir e representar, em si próprio e nos outros, os estados mentais independentes – crenças, intenções, desejos, conhecimento, etc— e de compreender que os outros possuem crenças, desejos e intenções que são distintas da sua própria.

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