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RIO – Bibliotecária, professora da Universidade Federal do Amazonas e uma das organizadoras do movimento Abre Biblioteca (mobilização em prol da reabertura da Biblioteca Pública do Amazonas), Soraia Magalhães fala com a Revista Biblioo sobre o surgimento do movimento e do descaso do poder público em relação às Bibliotecas Públicas da região.

Rodolfo Targino: Como surgiu a ideia de criar uma mobilização pela reabertura da Biblioteca Pública do Amazonas?

Soraia Magalhães: Faz algum tempo que se percebe um descontentamento geral em Manaus sobre o fato da principal biblioteca do estado estar fechada para reforma há cinco anos. Em 2011, a secretaria de cultura do estado anunciou, por três vezes, que a biblioteca reabriria, mas as datas não se cumpriram, frustrando as expectativas daqueles que esperavam com ansiedade esse retorno. O pensamento sobre uma mobilização pela biblioteca pública não é recente; inclusive alguns estudantes de biblioteconomia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) chegaram a falar sobre esse ano, na realização de uma manifestação em frente ao prédio da biblioteca no dia 12 de março (dia do bibliotecário), que não aconteceu. O impulso pela realização do movimento Abre Biblioteca, nasceu durante a primeira Bienal do Livro do Amazonas (ocorrida entre os dias 27 abril e 06 de maio de 2012). O evento trouxe para Manaus, além de stands de livros e personalidades do mundo literário, várias atividades, como palestras, contação de história, conversas com escritores e ações tão comumente encontradas em boas bibliotecas públicas e atraindo considerável público. Essa movimentação nos fez observar que o povo amazonense está efetivamente carente de acesso a serviços informacionais e concluímos que a cidade poderia obter ganhos consideráveis se a Biblioteca Pública fosse reaberta, e sua gestão se propusesse a oferecer eventos semelhantes aos que aconteceram na Bienal, envolvendo debates, encontros com escritores, atividades para as crianças, não apenas por dez dias, mas durante todo o ano. Foi assim, em meio a essa discussão, que junto com o estudante finalista de biblioteconomia Thiago Siqueira, depois com a bibliotecária Katty Anne Nunes e Evany Nascimento, doutoranda em Design na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, decidimos fazer algo. A principal providência foi uma petição pública digital e impressa, bem como a criação e difusão da marca da campanha nas redes sociais, onde buscamos o apoio visual de pessoas. Nossa campanha tem inspiração num movimento criado por bibliotecários espanhóis chamado Marea Amarilla (maré amarela), que tem levado às ruas, profissionais e apaixonados por bibliotecas em luta pelas bibliotecas públicas naquele país. Por enquanto, nós aqui no Amazonas, esperamos a definição da data para a reabertura da nossa Biblioteca Pública.

R. T.: Quanto tempo a biblioteca está fechada? Quais os motivos para o fechamento?

S. M.: A Biblioteca Pública do Amazonas fechou em 2007 e de acordo com informações publicadas na imprensa, a demora refere-se ao fato de ter sido realizado bem mais que uma reforma e sim a restauração em vários elementos do edifício que data de 1910. Agora dizem que problemas no telhado inviabilizam a reabertura, contudo, acredito que precisamos de uma definição, um prazo final. Se nova licitação para recuperação de telhado for realizada, e se não houver por parte do poder público uma ação prioritária, acreditamos que a reabertura não se dará entre45 a 60 dias, como foi prometido.

R. T.: Qual a posição das autoridades e do poder público local em relação ao fato de a biblioteca se encontrar fechada?

S. M.: A Biblioteca Pública do Amazonas não tem sido tratada como elemento de prioridade pelo poder público, e não estou me referindo ao edifício e a reforma, mas a sua importância no plano do desenvolvimento cultural da cidade. As Bibliotecas Públicas, de acordo com o Manifesto da UNESCO, são “a porta de acesso local ao conhecimento – fornece as condições básicas para uma aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais”. Não temos encontrado esse suporte e creio que o fato de não questionarmos gera as condições para que problemas dessa natureza aconteçam. Cinco anos é muito tempo e o povo está perdendo a identidade com esse espaço que é tão vital para a cultura da cidade.

R. T.: Quais são as ações desenvolvidas pela mobilização? Que ferramentas vocês estão utilizando para mobilizar a população?

S. M.: A petição pública e as manifestações visuais (imagens com pessoas utilizando o símbolo da campanha nas redes sociais) são as principais ferramentas. Buscamos o apoio da sociedade que tem vindo de forma muito espontânea. As redes sociais são hoje componentes muito fortes e foi bonito ver que ao divulgarmos nossas dificuldades aqui em Manaus sobre o fato de não termos acesso a biblioteca pública, fechada por cinco anos, várias pessoas de outros estados e até de outros países se posicionaram de forma contributiva.

R. T.: Até o momento, quais os resultados concretos conquistados pela mobilização? Quantas pessoas já aderiram e assinaram a Petição Pública?

S. M.: O movimento é recente, começou no dia 9 de maio. Em apenas 11 dias tivemos uma adesão de 892 pessoas que assinaram a petição online e a petição impressa já ultrapassa 600 assinaturas. Criamos um grupo no facebook chamado Abre Biblioteca, que contem 3.427 seguidores, bem como tivemos a contribuição de vários artistas amazonenses, estudantes de biblioteconomia e a população em geral que vem emprestando sua imagem para a campanha posando para fotos com o cartaz Abre Biblioteca. O saldo positivo foi uma declaração no dia 15 de maio do secretário de cultura do Amazonas em um jornal local, apontando um prazo entre 45 a 60 dias para a reabertura do espaço. Diante dessa perspectiva, começamos a contar os dias com imagens visuais publicadas diariamente no facebook, para que ninguém esqueça que o movimento Abre Biblioteca está vivo. Precisamos que as pessoas continuem assinando a petição.

R. T.: Qual é a postura do CRB 11 e das associações de representação dos bibliotecários em relação a esse caso?

S. M.: Até o momento não houve uma participação efetiva, apenas ações isoladas. Contudo fiquei satisfeita por ver que vários professores do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do Amazonas, assinaram a petição.

R. T.: Em sua opinião, o que representa essa mobilização para a busca dos direitos de garantir a manutenção das Bibliotecas Públicas?

S. M.: Sabemos que outras bibliotecas aqui em Manaus estão fechadas. A Biblioteca Pública Municipal também fechou as portas e vamos lutar para que reabra. Contudo, hoje sabemos que é a Biblioteca Pública do Amazonas que precisa ser reaberta para fazer a diferença. Ela é a representante do estado junto ao sistema nacional de bibliotecas públicas. É a partir de sua ação que o interior do Amazonas, em termos de bibliotecas públicas, poderá ser fortalecido. Uma pesquisa que venho realizando aponta a inexistência de bibliotecas em vários municípios do Amazonas, bem como há outras que não estão cadastradas no sistema nacional, o que é uma grande perda para a nossa região. Penso que talvez com o retorno das atividades da Biblioteca Pública Estadual, muitas dessas pendências poderão ser sanadas.  Por fim, de forma mais restrita, o que buscamos com essa mobilização é possibilitar a população acesso ao uso do livro e da biblioteca, sendo a segunda premissa a mais importante, por compreendermos que se torna mais fácil promover incentivo à leitura quando temos um pólo gerador, um espaço representativo, onde se pode ir, onde se pode experimentar e viver várias formas de leituras. O movimento Abre Biblioteca, sonha com a pós-abertura, quando poderemos continuar com a campanha difundindo a importância do uso das bibliotecas e da leitura.

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