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RIO – A professora Simone Weitzel, diretora e docente da escola de biblioteconomia da UNIRIO, nos conta um pouco de seu experiência e pesquisa em Repositórios Institucionais.

Emilia Sandrinelli: Qual a relação entre os repositórios institucionais e o movimento pelo acesso livre?

Simone Weitzel: É totalmente integrado. Uma coisa não existiria sem a outra. Porque isso? Porque o movimento do acesso livre, na sua base, foi desenvolvido em função dos repositórios, porque os periódicos vêm de uma trajetória baseada no acesso pago, você tem que pagar para manter a assinatura. Os repositórios vêm para sustentar o movimento de acesso livre da seguinte maneira: o pesquisador que escreve o artigo, submeteria normalmente para um periódico, como ele faz até hoje, normalmente ele faz isso pensando em reconhecimento, visibilidade, em comunicar sua pesquisa. Para isso ele busca as revistas científicas que são top de linha e normalmente elas que têm as assinaturas mais caras no mundo. Então, o pesquisador, sabendo disso, quer visibilidade e ele está submetendo o seu artigo para uma revista que cobra pelo acesso, ele tem um dever de fazer também um depósito num repositório da sua própria instituição. Essa é a estratégia que Stevan Harnad chama de verde, em uma analogia ao sinal verde para você disseminar a informação tanto nos moldes que a comunicação cientifica formal estabelece, quanto para essa via verde, essa alternativa permite que outras pessoas que não consigam pagar para ter acesso possam fazer isso por meio de acesso ao repositório. Mas isso tem implicação porque quando você submete um artigo científico a uma revista dessa envergadura, uma revista internacional indexada em base de dados, enfim, todos aqueles requisitos que garantem a visibilidade, a confiabilidade, eles exigem em troca que você assine um termo dizendo que você não vai divulgar, a não ser por aquele veículo, é uma seção de direitos. Esse é o copyright, você cerce os direitos de reprodução da sua criação. Os direitos morais dizem “esse artigo é seu, mas a reprodução não”. Então como fazer isso? Você assinou a seção, como Stevan Harnad diz: “você vende sua alma” quando assina um documento desses. Então, o que o pesquisador pode fazer? Ele assina sobre aquele artigo que vai passar por revisão de pares, algumas vezes retorna para o autor, ele ajusta e passa. E isso passa a ser propriedade da revista, mas aquele pré-print, aquela primeira versão que saiu do computador dele, antes de submeter à revista, ele não assinou nada. Ele assinou sobre esse produto que é, vamos dizer quase novo. Então você pega o pré-print e deposita no repositório institucional. Essa é a relação do movimento do acesso livre com os repositórios institucionais. Eles viabilizariam nessa via. Já a via dourada, o periódico não cobraria uma assinatura de 5 mil dólares, ele também seria livre, mas a via dourada é como um caminho de sonhos e isso talvez não acontece para algumas revistas. Já temos a consciência de que algumas serão assim e outras não.

E. S.: E o que a utilização dos repositórios institucionais pode acrescentar na rotina da universidade?

S. W.: Eu vejo coisas muito promissoras. Existe um primeiro momento que é muito pesado. Você tem que convencer as pessoas, no sentido de conscientizá-las da importância de um repositório institucional na universidade. Nem todo mundo pensa dessa maneira, elas pensam da seguinte maneira “eu vou ter mais trabalho”. O pesquisador, o docente vai ter mais trabalho porque ele mesmo terá que depositar, o bibliotecário vai ter mais trabalho porque ele vai ter que gerenciar isso, o pessoal da tecnologia da informação vai ter mais uma coisa para fazer e eles já têm muito, porque já tem o sistema acadêmico da universidade. Isso tudo é muito complexo. As pessoas não querem colaborar, não porque elas não querem, mas porque elas já estão sobrecarregadas. Esse caminho é duro, quem lidera isso tem que ser uma pessoa determinada persistente e articuladora para poder ter um diálogo com todos esses seguimentos e conscientizá-los para que se consiga pensar num repositório. Que benefícios um repositório pode trazer para uma universidade? Uma vez vencendo tudo isso e as questões técnicas que são outra pedreira, os benefícios são inúmeros. A universidade vai ter visibilidade, organização da sua produção cientifica, memória institucional. São muitos benefícios e isso até pode tornar a universidade internacional, as pessoas conseguem em um só lugar conhecer a nossa produção, porque fazemos muito e as pessoas não conhecem e, ao mesmo tempo, tornar-nos mais fortes em termos de ciência porque passaremos a ser mais citados. E sabemos que a citação  contribui para o crescimento cientifico, a ciência se movimenta dessa maneira.

E.S.: Essa questão da citação é um ponto que pode sensibilizar bastante os pesquisadores…

S. W.: Bastante. Sem dúvida. A conversa tem que ser por ai. De novo citando Stevan Harnad, pois, é ele quem produz muito sobre isso e ele é mais que um pesquisador, ele é um militante, que diz que a chance de um trabalho que está em um repositório ser citado, diferente de um que está só em uma revista, é 300%, ele está muito mais exposto, ele vai ser visto no Google e em vários provedores de serviços que integram diferente repositórios e revistas.

E. S.: Você poderia citar universidades que já utilizam repositórios institucionais com sucesso?

S. W.: Tem a LUME que é quase um modelo de luta, eu já ouvi várias vezes a palestra da professora que tocou o projeto e ela passou mais ou menos o que eu estou passando, só que ela foi exitosa e eu ainda não. A UnB que tem um repositório muito interessante. A USP. E ai a gente tem que ver o que são repositórios, porque o que acontece? Houve uma apropriação do termo de forma indevida. Na sua acepção do termo repositório é o que eu falei no início da entrevista.  Eu vou depositar porque eu submeti um artigo para uma revista que vai cobrar uma assinatura de 5 mil dólares, ou até menos, então eu coloco também no repositório. Mas como as pessoas estão adotando o software que é muito bom para outras coisas, ai você também tem repositórios de teses e dissertações. As pessoas têm feito isso, mas na sua acepção clássica, teríamos bem poucos: o LUME e a UnB. Porque a USP é de teses e dissertações. Agora o IBICT abriu dois editais em 2009, que aumentou sensivelmente o número de universidade que tiveram o apoio não só financeiro, não que tenham recebido dinheiro, eles receberam o equipamento com tudo instalado e também a assessoria do IBICT para promover esse desenvolvimento de repositórios, a BDTD e as revistas no portal de periódicos são desenvolvidos com o software SEER. E essa é uma das dificuldades: instalações. Isso seria feito pelo pessoal de TI que já está ocupado nas universidades e não teria como fazer tantas coisas. Então eles acharam que isso iria minimizar e realmente minimizou, tivemos vários casos de sucesso, mas do que eu vi a maioria são de teses e dissertações.

E. S.: Os repositórios geralmente não têm a revisão pelos pares, que é algo que acontece nos grandes periódicos científicos. Isso pode atrapalhar a credibilidade desses repositórios e consequentemente a adesão a eles?

S. W.: A gente tem que ter um pouco de cuidado, pois existem alguns mitos que não são verdadeiros. Como essa história que eu te contei de você depositar o pré-print no repositório, ou se o editor permitir, depositar o pós-print. O que seria o pós-print? Seria exatamente o texto como aparece na revista. Isso é uma denominação que o movimento do acesso livre inventou. Você imagina como foi difícil esse movimento se estabelecer sem a reação dos editores comerciais. Eles reagiram fortemente falando muitas coisas, umas delas foi essa de que as coisas que estão nos repositórios são menores porque não teve a revisão de pares. Revisão de pares é financiada pelos periódicos que pagam aos pesquisadores para fazer. Realmente existem revistas especialmente norte-americanas e européias que funcionam dessa maneira: a revista para o pesquisador fazer aquela leitura e avaliar. Esse modelo não é verdadeiro para alguns países como o Brasil. Nós não recebemos nada, nós recebemos somente mérito de ser avaliador em um periódico importante. Então o que acontece? Pensando nessa questão clássica do repositório de que ele é a via verde, nós só vamos depositar coisas que deveriam ter passado por revisão de pares. No caso brasileiro isso não tem qualquer implicação, porque o pesquisador que publica na nossa área, por exemplo, ele vai escrever um artigo submeter à Ciência da Informação que é um periódico da via dourada, mas ele também vai depositar no repositório da sua instituição. Porque ele vai fazer isso? Para potencializar a visibilidade do seu próprio artigo e para contribuir com todas essas coisas que eu disse no inicio: organização da produção da universidade, memória institucional. Então isso é um mito. E você tem a situação do pré-print que acontece mais na Europa e em países como os Estados Unidos e a Rússia, mas o autor pode colocar o link da revista “olha a versão final está nessa revista”, embora, para acessar a pessoa tenha que pagar. Uma outra alternativa, é que o movimento avançou muito, eles criaram projetos, que começaram na Inglaterra como o Romeu. Tem o Romeu e a Julieta, a Julieta é outra história. O Romeu visa investigar todos os periódicos do Reino Unido, depois se expandiu para a Europa, depois para o mundo inteiro e perguntar “você permite publicar o pré-print? Ou o pós-print? Ou as duas coisas?” Alguns responderam e outros não. E eles listaram as revistas para orientar o pesquisador quando ele for publicar. Esse projeto cresceu tanto que ele ganhou o apoio de outros países. A Espanha está fazendo o seu Romeu, que eles chamaram de Dulcinéia e vai ficar integrada ao Romeu. Portugal está fazendo a Blimunda. No Brasil tem a personagem da Guimaraes Rosa, a Diadorim. Todos estão trabalhando colaborativamente e ser um só é, dessa maneira, orientar pesquisadores do mundo inteiro o que ele pode depositar, ao invés de ficar aquele estresse. Isso facilitou demais e causou um impacto nos editores. As revistas são identificadas por cores, então vamos supor que o verde pode o pré-print e o azul pode os dois. E o editor vai dizer “quero essa cor para mim também”, então acaba causando esse efeito favorável para o movimento do acesso livre. Está mais fácil fazer esse depósito em repositórios institucionais. Então, nesse sentido da sua pergunta, não é bem isso. A ideia é que, a maior parte do que está em um repositório, seja algo certificado. Lógico que você pode colocar literatura cinzenta, por exemplo, teses e dissertações, mas elas passaram por uma avaliação que é a banca. Os relatórios de pesquisa, muitos deles passaram por avaliações quando você foi buscar financiamento. Em um certo sentido, sempre tem um instância avaliativa, ela não foi abolida.

E. S.: E como é que fica a questão da propriedade intelectual e do copyright?

S. W.: Isso é uma questão ainda sensível porque a lei dos direitos autorais no mundo inteiro não está preparada para o mundo digital. No Brasil, especialmente, porque ela é de 1998, e ela valoriza aspectos mais da arte do que científicos, e isso traz um prejuízo para nós se pensarmos em termos de disseminar o conhecimento. De tal forma que hoje se tem uma percepção de que o conhecimento cientifico é patrimônio da humanidade, nesse sentido ele deve retornar para a sociedade, então ele não é nosso porque a sociedade financiou as pesquisas. Inclusive isso é uma orientação de que você coloque no repositório aquilo que foi financiado pelo governo, porque é uma prestação de contas com a sociedade. Mas ainda temos algumas questões sensíveis, a primeira delas é compreender que a propriedade intelectual tem esses dois aspectos, o moral que diz “você é o autor” e o copyright que é o direito de reprodução. As pessoas confundem um pouco isso e acham que o copyright é a mesma coisa que os direitos morais, melhor dizendo, patrimoniais, que tem a ver com quem vai financiar o que você escreveu. Você não vai perder seu direito moral de autor, você cerce aqueles para explorar o que você criou, isso é uma compreensão importante. O movimento de acesso livre avançou também e um grupo de pessoas acabou desenvolvendo o Creative Commons, que é muito criticado pois, dizem que é um jeitinho que deram e não resolveram o problema que é estrutural, teria que mudar a lei em termo de tratados cooperativos no mundo inteiro, porque a propriedade intelectual tem esses tratados internacionais que regem todos os outros. E é isso que precisava ser feito, o Creative Commons é como um paliativo, mas é uma história de sucesso. O autor vai ao site do Creative Commons e informa como ele quer que seja divulgada aquela criação que ele está fazendo. Pode ser somente de forma original, como ele criou, ou você pode fazer modificações, mas não é retalhar o texto, é fazer citações, traduzir, no caso do texto científico isso é muito comum, traduzir para publicar em uma revista. Isso facilitaria esse fluxo de informação mais direto e, por consequência, traria mais benefícios para a sociedade porque o desenvolvimento científico seria mais veloz. No repositório, ele não se responsabiliza por isso, existe um formulário que quem deposita que vai informar. O repositório não fica com essa parte, mas ele faz valer o que o depositante deseja.  

E. S.: Você comentou sobre as pesquisas que são financiadas deveriam constar nos repositórios, mas você acha que isso deveria ser uma consciência entre os pesquisadores ou que isso deve ser obrigatório para eles?

S. W.: É uma pena que não seja uma consciência dos pesquisadores. Isso ainda não está incutido na mente das pessoas porque elas nem conhecem os benefícios dos repositórios. No Brasil, especificamente, a gente está um pouco atrasado nessa clareza. Por exemplo, nos Estados Unidos é muito comum que o próprio pesquisador assuma as questões de comunicação cientifica do seu campo, então eles sabem muito dessas coisas de bases de dados, de periódicos científicos, eles entendem esse mecanismo. Ao passo que aqui no Brasil, isso não acontece da mesma maneira. O pesquisador delegou para outros, especialmente os bibliotecários. Enquanto não se tem essa consciência de que o próprio pesquisador deveria tornar publico a pesquisa que ele buscou financiamento, ele acha que colocando uma revista de assinatura ele já está fazendo isso e a ideia não é essa. Nós devemos fazer esse trabalho de conscientização nas universidades e nos institutos de pesquisa que é aonde se produz conhecimento cientifico. Então, aqui eu vejo uma grande importância do bibliotecário. No Brasil é assim, o bibliotecário cuida da produção cientifica e da comunicação científica, então cabe a ele trabalhar junto com esses docentes pesquisadores sobre essa relevância. Certamente teremos dado um passo muito importante quando as agências de fomento no Brasil passarem a colocar nos seus editais que se faça isso: ao final da pesquisa é necessária uma publicação numa revista de grande porte da área e depositar num repositório da instituição. É isso que acontece em outros países, principalmente nos Estados Unidos e Europa, isso já está sendo feito. Enquanto não vem, o deposito compulsório é uma coisa importante para poder cumprir essa obrigação, garantir transparência, porque afinal é dinheiro do cidadão.

 

E. S.: E quais estratégias os repositórios podem utilizar para atrair os pesquisadores?

S. W.: Você mesma já matou a charada, né? São as citações. Esta é uma grande aliada. Mostrar matematicamente como isso ocorre. Isso está em um artigo do Harnad junto com outros pesquisadores que mostram matematicamente que esse potencial da visibilidade é essencialmente mais e mostram até por áreas. A outra coisa é o trabalho do bibliotecário nessa conscientização, inclusive da administração superior, reitor, reitoria e pró-reitorias, especialmente a de pesquisa e, sensibilizá-las da importância de ter isso organizado em um só espaço. Diferente da biblioteca… Na verdade é igual à biblioteca, mas esta de uma outra maneira, de natureza diferente que é o digital. Isso dá essa unidade e eu acho que o argumento é por ai. A memória institucional. Porque acabamos não tendo a dimensão do produto, enquanto tendo um repositório, ele está lá. A cara da produção de uma universidade num só lugar e não dispersa em diversas publicações. Uma grande bandeira que devemos levantar e defender.

 

 

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