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Por Guilherme Freitas de O Globo

Premiado com dois Oscars e indicado a mais quatro em 2010, o filme “Preciosa” chamou atenção pela dureza com que narrava a história de Claireece Precious Jones, jovem negra, pobre e analfabeta, vítima de maus tratos da mãe e abuso sexual do pai, de quem teve dois filhos. Mas também surpreendeu por extrair beleza dessa trama, ao mostrar a luta da protagonista para retomar o controle de sua vida exercitando a imaginação e a escrita. Com o sucesso do filme, o grande público descobriu que essa mistura de crueza e lirismo já estava no romance que o inspirou, publicado em 1996 pela americana Sapphire.

Esse estilo está de volta no romance “O garoto”, que Sapphire lança este mês no Brasil pela editora Record (por onde também publicou “Preciosa”). Em sua primeira visita ao país, a escritora e artista performática de 65 anos, cujo nome real é Ramona Lofton, será uma das principais convidadas da Festa Literária de Cachoeira (Flica), que acontece entre os dias 14 e 18 na cidade do Recôncavo Baiano.

Segundo romance de Sapphire, “O garoto” é protagonizado pelo filho mais novo de Precious, Abdul. Logo nas primeiras páginas, os fãs do primeiro livro e do filme descobrem o destino de Precious: embora tenha conseguido se libertar da família e educar os filhos, ela morre em decorrência da Aids, que havia contraído do pai. “O garoto” começa com Abdul, aos 9 anos, sendo acordado para ir ao enterro da mãe. Depois disso, internado em um orfanato católico, ele também sofre abusos, torna-se um jovem agressivo e violento, mas reencontra o equilíbrio descobrindo seu talento para a dança.

— A história de Abdul foi um veículo para mostrar a forma disfuncional como os Estados Unidos tratam certos segmentos da sociedade, em particular jovens afro-americanos, que, ironicamente, acabam sendo classificados como disfuncionais. Escrevi “Preciosa” para mostrar como aqueles pobres negros podem ser preciosos se lhes for dada uma oportunidade para viver. Isso está presente em “O garoto” também — diz Sapphire, por e-mail.

Preocupada com essas “oportunidades de vida”, a escritora tem participado ativamente dos protestos que tomaram os Estados Unidos nos últimos meses contra assassinatos de jovens negros por policiais. São casos como as mortes de Eric Garner, estrangulado ao reagir a uma abordagem policial em Nova York, em julho de 2014; Michael Brown, baleado em Ferguson (Missouri), em agosto de 2014; e Walter Scott, morto numa blitz de rotina na Carolina do Sul, em abril de 2015. Sapphire apoia o movimento popular que surgiu a partir desses protestos, batizado de “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”):

— É preciso acabar com a prática ofensiva de matar negros por razão nenhuma, ou, como dizemos sarcasticamente, “por andar e dirigir sendo negro”. Mas vejo alguma mudança. Mesmo que a morte de Garner não tenha provocado o indiciamento de seu assassino, ela despertou consciências mundo afora sobre práticas policiais que atingem milhões de negros. E o assassino de Scott foi condenado e ainda está atrás das grades.

Para Sapphire, essas e outras mortes são fruto do racismo histórico nos Estados Unidos e dos interesses econômicos ligados a ele:

— Wall Street tem esse nome porque ali já houve um muro. E o poderoso muro de Wall Street foi construído, assim como muita coisa nos Estados Unidos, pelo trabalho escravo. Ainda somos um país de vasta injustiça, desigualdade e brutalidade no que diz respeito à raça. Muito já mudou, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Há uma estrutura econômica sustentando o racismo, e isso beneficia muitos brancos de classe alta no país. Mas, como dizia (o líder abolicionista afro-americano do século XIX) Fredrick Douglass, “o poder não concede nada sem luta”. Então, lutamos.

Em “O garoto”, a luta de Abdul envolve a superação dos abusos de que é vítima a partir da morte de Precious. Com a mesma linguagem crua de seu primeiro romance, Sapphire descreve o assédio de um padre sobre o menino recém-chegado ao orfanato. Na adolescência, Abdul passa também a cometer abusos. Com isso, a autora quis mostrar o mecanismo cíclico desse tipo de violência. Interrompê-lo exige “políticas públicas centradas nos jovens” e também um delicado processo de conscientização das vítimas, diz Sapphire:

— Sobre esse assunto, quero falar diretamente aos jovens. Eis três atitudes que você pode tomar para interromper o ciclo de abuso. Primeiro, pare o abuso que estiver sofrendo: avise às autoridades, a um médico, a um professor. Segundo, pare o abuso que estiver cometendo: afaste-se, procure ajuda, faça o necessário para não causar dor aos outros. Terceiro, busque a cura na terapia, na arte, nos esportes, e continue na escola. Cresça para se tornar alguém que não fecha os olhos para o abuso sexual e faça o possível para acabar com ele em sua família e no mundo.

Se a crueza de “Preciosa” está presente em “O garoto”, o novo livro também exibe o lirismo da prosa de Sapphire, que, antes de estrear no romance, já era uma poeta eperformer conhecida nos circuitos alternativos americanos. Nas duas obras, a arte aparece como uma abertura para a redenção dos personagens, ou ao menos a sublimação do sofrimento. Precious reconstrói a vida depois de aprender a escrever. Abdul se reencontra nas aulas de dança.

— Para Precious, privada de sua voz e tornada invisível para a sociedade, a linguagem era uma forma de construir uma nova realidade e, literalmente, reescrever a própria história. Em “O garoto”, quis mostrar como a dor quebra a conexão de uma pessoa com seu corpo e, por extensão, com o mundo. Mas também que essa conexão pode ser reconstruída. A dança permite que Abdul enfrente a realidade. Remove-o de um passado doloroso e de um futuro assustador, conectando-o com o presente e consigo mesmo. E desafia a autoridade do trauma, devolvendo a Abdul uma parte do poder que lhe foi roubado.

Sapphire, que levou 13 anos até concordar com uma adaptação de “Preciosa” para o cinema, já recusou propostas para transformar “O garoto” em filme, porque nenhuma “tinha credibilidade”. Ela diz ter aprendido muito com a pesquisa para o romance, lançado nos Estados Unidos em 2011. Moradora do Harlem, um dos cenários da trama, ela redescobriu o bairro em longas caminhadas. Levantou material sobre a tradição esquecida dos dançarinos negros americanos. E encontrou, em livros e entrevistas, um olhar generoso sobre a condição de jovens vítimas que se tornam parte de ciclos de abuso.

— Minha descoberta mais espantosa foi a esperança que existe entre psicólogos para crianças como Abdul. Muitos jovens naturalmente “autocorrigem” maus comportamentos e/ou fazem bom uso de intervenções terapêuticas. Em outras palavras, crianças como Abdul podem se sair bem se receberem ajuda.

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