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Por Xandra Stefanel, da Rede Brasil Atual

Mostra traz 18 painéis com textos e fotos que contam a trajetória do homem, do político e do engenheiro Paiva
Mostra traz 18 painéis com textos e fotos que contam a trajetória do homem, do político e do engenheiro Paiva

“Meus patrícios, me dirijo especialmente a todos os trabalhadores, a todos os estudantes e a todo o povo de São Paulo, tão infelicitado por este governo facista e golpista que neste momento vem traindo seu mandato e se pondo ao lado das forças da reação. Desejo conclamar todos os trabalhadores de São Paulo, todos os trabalhadores portuários e metalaúrgicos da Baixada Santista, de Santos, da capital e das cidades industriais de São Paulo em especial; todos os universitários que se unam em torno de seus orgãos representativos, obedecendo a palavra de ordem do Comando Geral dos Trabalhadores, do Fórum Sindical de Debates, dos sindicatos, da União Nacional dos Estudantes, das uniões estaduais e dos grêmios estudantis para que todos, em greve geral, deem a sua solidariedade integral a legalidade que ora representa o presidente João Goulart.”

Este discurso foi feito ao vivo na Rádio Nacional na madrugada do dia 1° de abril de 1964 por Rubens Paiva, deputado federal por São Paulo eleito em 1962. Depois do discurso contra o golpe, Paiva foi cassado e teve de se exilar por nove meses. De volta ao Brasil, retomou suas atividades como engenheiro sem abandonar a resistência à ditadura. No dia 20 de janeiro de 1971, sua casa foi invadida, ele foi preso e nunca mais foi visto.

Sua história é tema da exposição Engenheiro Rubens Paiva, Presente!, promovida pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ) e pela Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge). Originalmente idealizada para a inauguração do busto de Rubens em frente ao DOI-Codi, no Rio de Janeiro, a mostra pode ser conferida agora no ambiente virtual.

A exposição, que tem curadoria do jornalista e pesquisador Vladimir Sacchetta, apresenta 18 painéis com textos e fotos que contam a trajetória do homem, do político e do engenheiro Rubens Paiva, que inspirou o então deputado Almino Affonso a elaborar a principal lei dos engenheiros e das engenheiras, do Salário Mínimo Profissional.

Esta é a terceira exposição sobre Paiva organizada por Sacchetta. A maior delas, Não tens epitáfio pois és bandeira. Rubens Paiva, desaparecido desde 1971, ficou em cartaz de março a julho de 2011 no Memorial da Resistência, em São Paulo. “Fiz uma trajetória iconográfica documental da vida do Rubens tanto no plano pessoal e familiar, quanto no profissional como engenheiro e no político, sobre o Rubens engajado nas lutas de seu tempo, desde os anos 1950, quando ele participou da campanha do petróleo, até seu desaparecimento e a busca pela verdade. É preciso decifrar o que aconteceu com ele a partir da prisão, em janeiro de 1971”, afirma o curador.

Para Sacchetta, Rubens Paiva é um caso emblemático: “Ele não era um guerrilheiro, não tinha nenhuma ligação orgânica com qualquer organização de luta armada nem de combate à ditadura pelas vias pacíficas… Ele era um progressista, um ex-deputado cassado que desapareceu. Ele foi preso e assassinado barbaramente. É importante falar sobre isso porque ele é mais uma vítima símbolo da violência da ditadura. É uma história trágica que precisa ser contada, assim como outras centenas. A do Rubens toma uma grande dimensão porque ele era um homem público”.

Saccheta acredita que exposições como esta promovem a reflexão para a construção de uma sociedade com mais justiça social. “A gente tem de olhar para o passado com a perspectiva do presente e do futuro. Aquela violência que atingia os militantes políticos, hoje atinge os pobres e excluídos. Temos de fazer uma grande reflexão para que esta violência não se perpetue. Este é o sentido de resgatarmos esse passado para que hoje esse crime não aconteça mais nas delegacias, atingindo os pobres, os negros, os pardos, os excluídos, todos vítimas dessa PM que mata”, opina o curador.

A exposição pode ser conferida no site da Fisenge.

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