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RIO – Executivo experiente, Roberto Bahiense é um daqueles sujeitos que encanta pelo trato pessoal. Tendo transitado por empresas importantes, como Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, atualmente está como diretor de relações institucionais do Grupo Gol, empresa que desenvolve o projeto da Nuvem de Livros. É sobre esse assunto que conversamos com ele na sede da empresa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Chico de Paula: Como surgiu a ideia da Nuvem de Livros?

Roberto Bahiense: Na verdade, nós somos um grupo que já existe há vinte anos aqui no Rio de Janeiro: o Grupo Gol. Nós nascemos depois do carro e antes do avião. Quer dizer, a companhia aérea não participa do nosso conjunto de atividades. E nós somos um conglomerado de empresas. Temos uma ação marcada pela capilaridade, que atua em vários segmentos, mas sempre criando, desenvolvendo e provendo conteúdos de entretenimento, educacionais e jornalísticos. A Nuvem de Livros, que é uma das nossas plataformas digitais, foi concebida há cerca de quatro anos a partir de uma profunda reflexão que fizemos sobre a sociedade brasileira, no conjunto das suas contradições. Nós somos hoje a sétima maior economia do mundo, mas convivemos com bolsões de pobreza, com extratos marcados pela exclusão social. E a partir de uma análise profunda da realidade brasileira, repito, nos ocorreu, diante da inexorabilidade do livro digital, dar um passo determinado em direção ao futuro, no sentido de apresentar ao conjunto da sociedade civil brasileira uma plataforma que pudesse atender a demandas emergenciais. A primeira delas é que, de acordo com os últimos dados do Censo do MEC [Ministério da Educação], há hoje no país 200 mil escolas, públicas e privadas, e dessas, 65% não tem biblioteca. O que é lamentável é que, no conjunto dessas preocupações, você não ter bibliotecas públicas que atendam as comunidades e os municípios que compõem o país. Nós estamos falando de 15 milhões de crianças e jovens que não têm uma sala de leitura na escola onde estão matriculados. Como é que é possível o adensamento de determinados conteúdos ou algumas ações exploratórias, se você não tem uma biblioteca próxima? Há uma Lei [Lei nº 12.244 de 2010, que dispõe sobre a universalização de bibliotecas escolares], que foi promulgada no final do segundo mandato do presidente Lula, que determina o seguinte: daqui a sete anos, 2020, todas as escolas, públicas e privadas, terão que ter, forçosamente, uma biblioteca, na relação de um livro por aluno matriculado. Isso quer dizer que, se a Lei pegar – nós somos um país onde as leis pegam e não pegam – daqui a sete anos, uma escola, numa região de exclusão social, na periferia de uma grande metrópole, como o Rio de Janeiro, ela terá que ter, caso tenha 1472 alunos matriculados, 1472 livros. Alguns importantes segmentos da população aplaudiram essa iniciativa não se dando conta de que é uma oferta simplória, porque daqui a sete anos o professor vai chegar à sala de aula, querendo discutir a questão indigenista e indicar um determinado conteúdo, Quarup, por exemplo, do Antônio Callado, e vai encontrar um único livro na escola. Então, a Nuvem se posiciona, de imediato, como uma antecipação do futuro. Ela permite a qualquer rede, pública ou privada de ensino, acesso ilimitado à uma biblioteca que hoje se compõe de sete mil obras. A Nuvem ganhou tal transcendência que o nome já deveria ser reformulado, pois ela deixou de ser Nuvem de Livros – o que, pressupostamente, permite que as pessoas imaginem que vão encontrar livros – para ser nuvem do conhecimento. Ela tem um caráter contemporâneo e, além de livros e obras que compõem todos os gêneros da produção literária, tem, também, uma série de conteúdos multimídia. Ela não foi feita nos moldes das plataformas de distribuição e comercialização do livro digital. Ela foi desenvolvida a partir de um modelo de curadorias. Nós temos, hoje, quatro curadorias: uma de literatura, uma de acessibilidade, uma de saúde e uma de educação. Cabe a essas curadorias, nos esforços das suas áreas do saber, identificar quais são os conteúdos vocacionados para a Nuvem, que possam agregar valor à plataforma e que, no exercício de um rigor, essas curadorias exercitem, impedir que qualquer conteúdo possa conspurcar a oferta da Nuvem. O nosso curador de Literatura é um reputado autor brasileiro: Antônio Torres. Ele é dono de uma obra vasta e premiada, reconhecida, traduzida para dezessete idiomas. O Torres já foi justificadamente merecedor do prêmio Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras, o Jabuti [mais importante prêmio literário do Brasil]. Ganhou a comenda das letras do governo francês e tem uma obra que é considerada por muitos como uma obra que poderá dar a ele um papel de sucessor de Jorge Amado, porque ele se dedicou muito a uma região da Bahia, que é o Junco. Torres nos ajudou a definir as regras que a Nuvem deveria contemplar. Primeiro, a Nuvem tem que ter forçosamente – e tem – clássicos da Literatura em língua portuguesa, produzidos em Portugal, nas colônias e no Brasil; clássicos da Literatura mundial; os novíssimos e os contemporâneos brasileiros. Ela tem que ter obras de referências: bons dicionários, boas enciclopédias; bons atlas, atualizados. Tem que ter conteúdos multimídias. Para vocês terem uma ideia, a Nuvem tem expressivos conteúdos da grade do Canal Futura: Globo Ciência, Globo Ecologia… Alguns programas de análise e crítica literária. Nós temos conteúdo da TV Cronópios, que é um portal de São Paulo, que analisa, com muita propriedade, a produção literária do país. Nós temos conteúdo do Canal Brasil, que trata de negritude… Temos várias entrevistas em áudio que foram produzidas e veiculadas durante três anos na Rádio Eldorado, pela jornalista Mona Dorf. Temos conteúdos sobre saúde que foram veiculados em canais específicos dos Estados Unidos e que foram customizados para a realidade brasileira pelo nosso curador de saúde, o doutor Walmir Coutinho, que é da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. Estamos, agora, trazendo conteúdos em LIBRAS, a Língua Brasileira de Sinais. Estamos adotando o formato Daisy, através de um trabalho que a nossa curadora de acessibilidade, que é a Ethel Rosenfeld, uma respeitada educadora e ativista muito conhecida, está desenvolvendo. E os nossos curadores de Educação são aqueles que conseguiram trazer para a Nuvem todos os artigos da Fundação Roberto Marinho. Todos os telecursos, as teleaulas dos programas da Fundação Roberto Marinho estão disponibilizados na Nuvem. A segunda questão que nos preocupava, envolvendo um segundo público, os conhecidos como a nova classe média brasileira. Na esteira das conquistas sociais dos ltimos anos de governo, um contingente de 60 milhões de indivíduos deu um salto qualitativo. Primeiro, cumprindo o rito da inclusão na sociedade de consumo. Esses indivíduos querem, de forma obstinada, dar aos seus filhos, pósconsumo de uma série de itens que eles desejavam, dar o que a sociedade não lhes deu no passado, que é acesso ao conhecimento. Essa é uma historia que acompanha um grande número de brasileiros, fruto desses processos de migração interna: saíram de regiões pobres, vieram para os grandes centros, venceram, se afirmaram e querem agora dar aos seus filhos aquilo que a sociedade não lhes deu. Nós estamos falando de 60 milhões de indivíduos. E, por fim, nos preocupavam os alunos matriculados em campi virtuais. Alguém que está no agreste de Pernambuco matriculado em um campus de uma grande universidade, por exemplo, em São Paulo, e que não tem próximo a ele uma biblioteca para que seja possível adensar o conhecimento. Nós estamos falando de algo como 80 milhões de pessoas para quem uma biblioteca como a Nuvem de Livros se destina potencialmente. Nós dominamos a tecnologia de forma que pudéssemos criar algumas funções e inovações. Isso se deu porque quando começamos a prospectar o mercado editorial, visando sensibilizar os editores a aderirem à Nuvem, percebemos que, apesar da inexorabilidade do livro digital, havia uma certa hesitação, uma barreira de indiferença. Generalizou-se no imaginário coletivo do editor do Brasil, de forma muito justificada, o temor diante dessa possível migração do conteúdo em suporte físico para o suporte digital, porque começou a se imaginar que se isso não ocorresse de uma forma muito consequente, responsável, se o conteúdo não estivesse muito bem encapsulado, poderia ocorrer no mercado do livro o que aconteceu, triste e lamentavelmente, com o mercado fonográfico com o iTunes que transformou a indústria fonográfica em terra arrasada. Depois a questão da remuneração: um grande agente literário, um dos mais respeitados do mundo, há três anos, em uma edição da feira do livro de Frankfurt, que é uma feira essencialmente comercial, em um ambiente público, para representantes de todo o mundo, admitiu, publicamente, que os autores representados por ele, afamados, com grandes vendas acumuladas, estariam dispostos, sim, a migrar para o suporte digital, desde que – imaginando-se que a cadeia tradicional produtiva do livro seria quebrada nesse movimento – a remuneração se daria em torno de 50%. Sabe-se que a remuneração para o autor vai de 8 a 14% sobre o preço de capa do livro no mercado do livro físico. Isso preocupou muito os editores, porque a margem de contribuição das editoras no Brasil, ela vem sendo monumentalmente contingenciada. Por fim, havia um temor em relação à tecnologia. Se você fizer um corte na realidade brasileira, as editoras têm os seus conteúdos fundo de catálogo em Word, alguma coisa em quark, versão desatualizada, e mais frequentemente em pdf. E o mercado começou a falar muito em outras soluções como e-Pub, e-Pub3, Indesign… As editoras novamente perguntaram: “mas eu vou ter que internalizar tecnologia? Vou ter que terceirizar tecnologia?”. Esses fatores acabaram por justificar um pouco essa hesitação que a gente percebeu no primeiro momento. A Nuvem começou a se desenvolver de forma a dar respostas a essas questões de ordem. A primeira questão a ser desenvolvida era a questão da segurança. Nós trabalhamos com vários DRMs globais tentativamente, que são modelos de gerenciamento, de segurança dos conteúdos, mas quase todos que testamos se mostraram vulneráveis. Nós conseguimos quebrar os elementos de segurança dessas plataformas. Então, optamos por uma solução que a princípio era arriscada, mas depois se revelou muito segura, que foi de constituir um DRM proprietário. Nós investimos talento, dinheiro e muito esforço para desenvolver soluções que, garantidamente, pudessem oferecer aos editores a segurança tão desejada. A questão da remuneração, ela se deu de uma maneira muito diferenciada, porque a Nuvem trouxe um dinheiro novo para o mercado editorial. A Nuvem de Livros é a única plataforma de livro digital, no Brasil, que remunera editores e autores pelo aluguel da leitura do conteúdo em suporte digital. Ninguém fez isso. A Nuvem, subjetivamente, trouxe um outro benefício para o mercado que é o seu compromisso com a qualidade. Como queremos oferecer uma biblioteca  substantiva, adensada, respeitada, nós não temos conteúdos que possam comprometer a nossa proposta. Outras plataformas, se você for falar de Google, Amazon, Kobo, têm livros para vender, mas livros quaisquer. Você vai encontrar obras extraordinárias, obras muito competentes, obras boas, obras razoáveis e obras muito ruins, porque eles têm de tudo. Já a Nuvem, não. O exercício da curadoria, muito rigoroso, faz com que a Nuvem tenha o melhor da produção literária. Porque é isso que a gente quer oferecer para a sociedade brasileira. Havia uma terceira questão, que é a questão da tecnologia. Através de um canal que é um FTP, recebemos todos os conteúdos, da mesma forma que as editoras trabalham normalmente na relação com as gráficas. Nós recebemos os conteúdos em pdf. Uma editora, ao aderir à Nuvem, submete o seu catálogo aos nossos curadores. Eles se debruçam sobre esse catálogo, analisam a conveniência e a adequação com a nossa plataforma. Os conteúdos chegam ao nosso pessoal de operação e a conversão se dá muito rapidamente. Mais: adicionamos e oferecemos ao mercado o seguinte: como estávamos, até o ano passado, próximos de uma determinação legal em relação ao novo padrão ortográfico – a previsão passou para 2015 – oferecemos às editoras uma solução que viabilizasse parte de fundo do catálogo de obras que estavam fora do padrão, adicionando à nossa plataforma um software que permite a conversão do velho para o novo padrão ortográfico. Se uma editora tiver uma obra que nos interesse e que esteja fora do padrão, esse software faz a conversão rapidamente. Para que ela possa atingir 80 milhões de indivíduos que representam quase um terço da população do país, nós nos associamos com alguns parceiros de distribuição. Hoje, se você adquirir em qualquer região do país um notebook ou um netbook da Itautec, da configuração mais tímida à mais robusta, a Nuvem de livros já está embarcada. Ou seja, a Itautec entendeu que precisava anabolizar os seus produtos visando estabelecer diferenças exclusivas. Ela oferece o seu hardware, permitindo ao usuário que adquira, após um período mínimo de degustação, formalizar a sua adesão à Nuvem de Livros. Da mesma forma, a Vivo, que é a empresa líder em telecom no país, que tem uma base de 70 milhões de usuários, oferece a toda a sua base o acesso à Nuvem de Livros. Como a Nuvem de Livros é uma plataforma que permite o acesso através de qualquer device – você pode acessá-la através de um desktop, num ambiente escolar, num ambiente familiar, numa lanhouse; através de um computador pessoal, um note ou netbook; através de um tablet IOS, Android; através de um smartphone. Vivo identificou a plataforma para a sua programação de 2013 e 2014, tendo educação e saúde como metas para oferta de conteúdos. A partir da experiência brasileira, a Nuvem vai se transformar em um player global, porque vai ser lançada na Argentina, no Peru e na Espanha proximamente.

C. P.: Roberto, uma das maiores preocupações da empresa é uma preocupação muito mais social do que necessariamente uma preocupação de mercado. Seria isso?

R. B.: Evidentemente que as duas preocupações trabalham juntas. Nós somos uma empresa. Nós temos várias plataformas transformadoras, porque ao lado da Nuvem você tem duas outras plataformas que têm, igualmente, propostas muito interessantes. Eu me refiro ao “O Jornaleiro”, que é a primeira banca de jornais e revistas online do Brasil. Nós já temos cerca de 350 títulos. Então, você pode, através de um tablet IOS, ou Android, acessar revistas e jornais de qualquer gênero. Temos outra plataforma, que é A Livraria que vai ser disponibilizada, inicialmente, em IOS permitindo download do livro. No caso da Nuvem, você pode acessar os conteúdos ilimitadamente, com um preço extremamente convidativo. Você pode acessar livros, assistir filmes ou entrevistas, acessar cursos, ouvir audiobook e, quando você fechar o seu device, tudo isso volta para as nuvens. A nossa preocupação em relação à Nuvem é a de contextualizá-la na realidade brasileira, o que lhe confere uma tintura ideológica. A Nuvem não é um depositário de livros quaisquer. Ela é uma biblioteca que nos dá muito orgulho, porque alguns indicadores revelam que a nossa preocupação tem se materializado de forma muito consistente. Por exemplo, a Granta, que é uma publicação inglesa, lançou sua primeira versão brasileira, identificando os novos valores da literatura brasileira. Dois dos vinte que foram indicados já constam na Nuvem de Livros. Isso mostra um compromisso com contemporaneidade. Ela traz algumas quebras de paradigma. Por exemplo: você pode acessar na Nuvem, conteúdos de uma das três maiores divulgadoras de informação do mundo que é a France-Presse. A France-Presse tem dois mil jornalistas espalhados em 120 países e nós nos conveniamos com ela. O que significa isto: em tempo real, os usuários licenciados da Nuvem, podem acessar notícias das editorias de arte, cultura e meio ambiente. Hoje, se tiver ocorrido um fato relevante no mundo das artes, da cultura ou do meio ambiente, essas notícias são disponibilizadas na Nuvem em tempo real, acompanhadas de foto e 75% delas com um vídeo. Vamos traçar um perfil da vida privada brasileira, em áudio, permitindo que um aluno, em sala de aula, para adensar um trabalho escolar, possa, por exemplo, capturar na Nuvem trechos importantes sobre a constituinte, Estado Novo, o último discurso do ex-presidente João Goulart, a renúncia do Jânio, etc etc etc. A Nuvem de Livros ganhou uma dimensão muito interessante e tem provocado muito interesse, conquistando a confiança imediata dos educadores, exatamente por essa característica: a de ser uma biblioteca que, muito rapidamente, se insere no ambiente escolar como uma ferramenta pedagógica. Ela tem, intrinsecamente, uma rede social que permite ao professor individualizar a relação  com o aluno, que pode receber uma recomendação para acessar determinado conteúdo no plano do reforço escolar. Ela é muito diferente, muito inovadora, completa e não tem nada assemelhado no país. Custou-nos muita determinação fazê-la. Erramos em alguns momentos. Logo depois que lançamos a Nuvem, ainda em regime de soft opening, recebemos uma manifestação de um potencial usuário que nos dizia o seguinte: “Eu tenho um smartphone, que é um supercomputador, responsável por 35% dos acessos de banda larga do Brasil. E quero ter a Nuvem nele”. Tivemos que parar tudo para entender isso, para reconfigurar a Nuvem. Isso está intimamente ligado ao dia-a-dia… Você, matriculado num curso virtual, querendo completar seus estudos, indo para casa de ônibus, pode acessar do seu smartphone e assistir uma aula, um filme, ler um livro, ouvir um audiobook, pegar um audiocurso… A Nuvem tem essa versatilidade, tem essa brasilidade. Ela não é uma plataforma global que chega ao país, imaginando que a gente vai averbar um modelo que deu certo em não sei aonde. Ela foi adaptada para um país como o nosso. Ela está indo para outros países de língua hispânica, inicialmente para a América latina, onde a realidade não difere muito da nossa. Esse sucateamento escolar se dá mais ou menos num plano parecido com o do Brasil. É por aí que a gente está caminhando.

C. P.: Um dos aspectos que o senhor citou que me parece super importante é em relação à lei das bibliotecas escolares. Nós particularmente como bibliotecários, essa lei nos trouxe benefícios, mas trouxe também preocupações. Uma das preocupações é o seguinte: nós temos um universo de bibliotecários ao todo entre 30 e 40 mil bibliotecários, sendo que o número de estabelecimentos é em torno de 200 mil. Como o senhor citou, então mesmo que nós formássemos bibliotecários à toque de caixa, o número de bibliotecários não seria suficiente para cobrir toda essa Lei…

R. B.: Para que a Lei seja cumprida haverá a necessidade de convocar 122 mil bibliotecários. Creio que a realidade do país, não chega, lamentavelmente, a um terço desse número. É muito difícil você imaginar… A Nuvem só pode ser implementada porque temos uma estrutura de bibliotecários que trabalha conosco de forma muito disciplinada, agregando valor à Nuvem. Sobretudo em um aspecto que tem sido negligenciado por todas as outras plataformas de livros digital: os metadados. A Nuvem apostou muito em metadados, exatamente para criar uma relação amigável com o usuário, uma relação friendly. Um idoso, alguém que não tenha nenhuma experiência no trato desses devices poderá acessar a Nuvem e entender o seu mecanismo de usabilidade e navegabilidade bem rapidamente. Para as crianças, contudo, não há necessidade de insistir nisso, porque muito rapidamente, por um processo intuitivo, elas entendem como isso se dá. É possível localizar um conteúdo da Nuvem de diversas maneiras: por palavra-chave, título, subtítulo, editora, selo editorial, nome de autor, sobrenome de autor, tema, subtema. Foram os nossos executivos formados pela faculdade de Biblioteconomia que nos ajudaram a fazer isso, rigorosamente. A sensação é que a Nuvem de Livros poderá ajudar em muito o trabalho de vocês na medida em que ela poderá ajudar a atenuar essa deficiência e a explorar todos os recursos possíveis na relação com os alunos, sobretudo no ambiente escolar público.

C. P.: Pensando ainda nesse aspecto da lei, a interpretação da Lei poderia ser no sentido das escolas terem biblioteca inclusive virtuais e não necessariamente físicas?

R. B.: Sim, entendemos que sim. Alguns Estados já estão aderindo à Nuvem. Daqui a 15 dias, vamos formalizar a contratação da Nuvem de Livros por um importante Estado do Nordeste brasileiro que, ao lado da aquisição de tablets, deveria disponibilizar uma biblioteca com as características da nossa, de modo a permitir que os alunos pudessem utilizá-la como uma ferramenta pedagógica em sala de aula. Ou seja, esse processo de sensibilização já começou. Estamos encontrando uma receptividade muito grande. E é por aí que o país vai caminhar. O Brasil, daqui a sete anos, não vai conseguir oferecer um livro por aluno matriculado, porque isso não vai atender a demanda que as escolas terão daqui a sete anos. A Nuvem é uma solução para o país, para as limitações e para o descuido que os governos tiveram em relação a essa questão. Ela pode ser um instrumento eficiente para profissionais da área de vocês. Ela não é uma biblioteca qualquer, ela é uma biblioteca inovadora, diferenciada. Vou dar o exemplo: se amanhã, em sala de aula, a professora sugerir a leitura de um determinado conteúdo, os alunos vão ter a solução tecnológica que permitirá em um nanosegundo, em um fragmento de segundo, que dois mil alunos possam acessar o mesmo conteúdo. Isso atomiza o acesso ao livro. O professor dirá: “Quero que vocês acessem Dom Camurro”. Digamos que, por conta de uma casualidade ou de uma circunstância absurda, 3.412 alunos nesse exato momento queiram acessar esse conteúdo, eles terão esses conteúdos nos seus devices, quaisquer que sejam eles. Mesmo que a lei seja cumprida de uma forma plena ou de maneira até mais ampla, além de um livro na relação por aluno, ela jamais vai alcançar essa dinâmica que a Nuvem oferece ao disponibilizar conteúdo para vários usuários ao mesmo tempo.

C. P.: E os investimentos são de que ordem? Você poderia falar em números?

R. B.: São significativos. A Nuvem vem consumindo esforços e desenvolvimento de tecnologias muito particulares há mais de quatro anos.

C. P.: Roberto, parece que você tem uma predileção pela literatura. Isso ajudou nesse projeto?

R. B.: Ajudou

 

C.P.: Você até já escreveu algumas coisas, não é?

R. B.: [Risos] Sim, mas isso não é importante! Eu sou um leitor devotado. Tenho amigos que atuam nessa área. Isso me ajudou a entender mais facilmente as necessidades que a Nuvem tinha que atender forçosamente, mas qualquer outro executivo com uma formação holística ou mais pluralista, certamente daria uma grande contribuição. Para mim é um privilégio estar envolvido em um projeto como esse. A impressão que eu tenho é que daqui a 40, 50 anos, quando os estudiosos do comportamento, os antropólogos, os sociólogos estudarem esse momento na vida privada do país e do mundo, vão entender que nós fomos protagonistas de um novo renascimento. As interrelações pessoais ganharam uma nova dinâmica. A velocidade da informação, a instantaneidade da informação. Para mim, é motivo de orgulho estar envolvido nesse projeto porque a Nuvem de Livros permitirá uma contribuição para que o país melhore, mudando a fisionomia.

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