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Neste ano de 2013, mais precisamente no mês de julho, aconteceu o 36º Encontro Nacional dos Estudantes de Biblioteconomia, Documentação, Ciência e Gestão da Informação, ou simplesmente ENEBD, um encontro de estudantes que tem como uma de suas finalidades incentivar graduandos e pós-graduandos a apresentarem trabalhos de acordo com a temática pré-estabelecida pela comissão organizadora do evento.

Saímos do Rio de Janeiro e fomos para o estado de Pernambuco, e logo na chegada, nos deparamos com uma vasta diferença de culturas. Na ocasião, com a disciplina Extensão Cultural, ministrada pelo professor Antonio José Barbosa de Oliveira, pensamos em fazer uma resenha colaborativa utilizando como base a nossa experiência vivenciada no evento e principalmente os conceitos do sociólogo Denys Cuche levantados na disciplina.

Acreditamos que a resenha é pertinente, pois foi uma possibilidade de aprender e verificar na prática que o processo cultural que nos envolve incide diferenças, estranhamentos, similaridades e principalmente aprendizados que ficam e marcam toda uma vida.

Em nossa passagem pelo Recife, sede do evento, entramos em contato com diversas culturas de diferentes estados brasileiros. Decidimos ser “etnólogos por sete dias” (duração do evento) e relatar algumas diferenças existentes entre a cultura pernambucana e a carioca.

Boas, citado por Cuche, explica que por se tratar de um princípio metodológico, faz-se necessário que o etnólogo tenha contato direto com os estudados, passando a observar todos os seus atos, assim como, aprendê-los. Este contato deve acontecer gradualmente, exigindo do etnólogo paciência e um estudo minucioso, passo a passo, que pode durar anos. Só assim será possível de se chegar ao fundo de um sistema cultural, que é algo muito complexo. Ainda a um etnólogo é necessário, além de compreender a cultura em questão, aprender a língua em uso, fazer anotações das situações cotidianas e se ater ao “espontâneo”, ou seja, não coagir o “objeto de estudo”.

Somos um país de dimensões continentais e algumas diferenças são totalmente visíveis.  Uma dessas diferenças é os neologismos apresentados que iremos demonstrar mais para frente. Para o autor, isso requer um princípio ético, pois toda cultura deve ser respeitada e exaltada, pois ela é única. Só é possível explicar um costume particular de determinada cultura se o etnólogo se propõe a contextualizar os seus costumes e explicar o vínculo que liga o indivíduo à sua cultura.

Nossa pretensão aqui não é compreender o sistema cultural do povo pernambucano, pois não somos habilitados para isso e nem tivemos tempo suficiente para um estudo minucioso. Propomos, por meio da observação participante, somente averiguar algumas diferenças culturais.

Logo quando chegamos ao Colégio Contato, local onde seria o alojamento dos estudantes, ficou claro que as delegações, grupos de pessoas que representavam as faculdades de origem, estavam misturadas. Alguns em barracas e outros em salas de aula. Alguns sinalizavam a qual delegação pertenciam, no caso os que estavam dentro das salas de aula utilizando placas com os nomes dos estados de onde vinham. Em outros casos, ficava visível identificar o estado, ora pela animação das pessoas, sotaques ou por aspectos que identificavam as suas barracas como, por exemplo, bandeiras de times, coisas típicas de determinadas regiões etc.

Cuche aponta que essa identidade não é de apenas um indivíduo. Ela corresponde a um grupo como um todo e permite situá-lo no conjunto social. A identidade social é ao mesmo tempo inclusão e exclusão: ela identifica o grupo (são membros do grupo os que são idênticos sobre certo ponto de vista) e o distingue dos outros grupos (cujos membros são diferentes dos primeiros sob o mesmo ponto de vista). Baseada em uma diferença cultural, essa identidade categoriza cada grupo, o que torna possível a distinção notada entre eles. Segue abaixo algumas diferenças culturais ou “estranhamentos” que encontramos entre as pessoas do Rio de Janeiro e Pernambuco, segundo o conceito de Cuche:

1 – Assim que chegamos ao aeroporto de Guararapes, ou Gilberto Freyre, no Recife, pegamos três conduções: uma que nos levava para a estação de metrô. Do metrô descemos em uma estação de ônibus e então pegamos outro ônibus para nos deixar no local de destino. A constatação: pagamos apenas R$ 1,10, para fazer todo o percurso. Nos dias de domingo, a passagem cai pela metade do preço original aos outros dias da semana. O metrô e o ônibus que nos deixou no local de destino fazem parte da “integração” que é utilizada no estado de Pernambuco. No Rio de Janeiro, fazer alguns percursos sem pagar é possível, mas desde que a pessoa possua o cartão Riocard. Lá a integração é possível a qualquer um, no nosso caso, não tínhamos cartão por motivos óbvios;

2 – A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) apresenta alguns aspectos que a diferencia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É notável constatar que sim, o campus da UFPE apresenta muitos detalhes que precisam ser melhorados, como por exemplo, na maioria dos dias em que lá estivemos choveu, logo, grande parte do campus ficava totalmente cheio de lama. Entretanto, eles apresentam um Centro de Convenções, local de abertura do evento, totalmente adequado, amplo e capaz de receber um grande público;

3 – A biblioteca permite a entrada dos usuários com mochilas e bebidas, podendo ao mesmo ter acesso às prateleiras dos livros com os seus respectivos itens. Também é disponibilizado sinal de internet sem fio. As da UFRJ não permitem a entrada com mochilas e em muitos casos, não deixam o usuário se aproximar das prateleiras e não são disponibilizados sinal de internet. Contudo, algumas (poucas) bibliotecas da UFRJ permitem o acesso livre à internet. No caso da Biblioteca Central da UFPE, do Centro de Artes e Comunicação (CAC), em Recife, não é disponibilizado computadores com acesos livre à internet, somente as base de dados da CAPES e o catálogo online da universidade;

4 – O café da manhã dos pernambucanos, em geral, é feito por uma refeição muito pesada, rica em carboidratos e proteínas (cuscuz, aipim com carne de sol), além de frutas e alguma bebida (suco, leite, café etc.);

5 – A concepção de jantar dos pernambucanos é a mesma que nossa, ou seja, pão e café com leite, mesclado com uma sopa;

6 – Outro ponto a ser abordado é em relação ao tempero deles que é mais forte e ao modo de preparo de alguns alimentos como, por exemplo, eles não fazem frango assado conforme conhecemos. O modo de preparo desse “assado” deles, na verdade é o que conhecemos como frito. Vale ressaltar que esse estranhamento não partiu somente dos estudantes do Rio de Janeiro, o evento também contava com estudantes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e poucos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), mas dos outros estados também. Outra diferença, nesse caso, mais de terminologia, é que o “cozido” para eles é chamado de “guisado”. A base da alimentação dos pernambucanos é o aipim, ou macaxeira, como é conhecido por lá;

7 – Pudemos constatar que muitas pessoas da cidade não sabem pedir “licença”, o que aparenta estarem sempre com pressa para chegar a algum lugar. Chegamos a essa conclusão, pois no restaurante universitário alguns estudantes locais, ou seja, da própria UFPE, “furavam fila” sem respeitar os demais, além de observarmos essa atitude nos pontos de ônibus, conhecidos por lá como “paradas”. Outras diferenças apresentadas nesse aspecto (transporte público): pouca rodagem de vans e kombis; os pernambucanos possuem o costume de identificar os ônibus pelos nomes, quando no Rio de Janeiro o costume é pelos números;

8 – O povo pernambucano possui um sotaque muito forte, o que ocasionou o aprendizado durante o evento por parte dos redatores desse relato;

9 – O forró e o brega são os estilos musicais mais apreciados e destacados na mídia, pois são regionais. É como o funk carioca. O interessante também é que neste mesmo estilo musical existem os chamados “proibidões”, também similares aos do funk carioca. E por falar em funk carioca, os hits que são tocados por aqui também fazem sucesso por lá. Um exemplo em questão é a música “Show das poderosas”, da Anitta que tocou bastante por lá;

10 – O frevo é aclamado na dança pernambucana. Pudemos presenciar uma apresentação de frevo, e é belíssima. A dança pernambucana está em todos os locais de Recife, seja em fotos, pinturas, chaveiros e outros adereços, como o guarda-chuva típico do frevo, que é encontrado em todo canto da cidade;

O povo pernambucano é muito simpático e atencioso e possui uma cultura artesã forte e que é comercializada em todos os lugares. Sobre os cursos de Biblioteconomia, dos estudantes presentes encontramos grades com abordagens distintas. Com isso é importante constatar que a nossa área é enorme e interdisciplinar. Na UFPE os cursos oferecidos são os de Biblioteconomia e o de Gestão da Informação.

Conforme mencionamos que o aipim que conhecemos aqui lá é chamado de macaxeira, e o nosso cozido para eles é chamado de guisado, outras diferenças regionais, neste caso não apenas no caso pernambucano, foram constatadas:

– O que conhecemos aqui no Rio de Janeiro como mosquito, em Pernambuco é conhecido como muriçoca e no Amazonas é conhecido como carapanã, segundo o relato dos estudantes daquele estado?

– Aqui no Rio o que conhecemos como sacolé, em Pernambuco é conhecido como Dudu, no Amazonas como Dindin e no Acre como Vip. Em Pernambuco, “sacolé” é associado à cocaína;

O grupo passou, pode-se assim dizer, por um processo de aculturação que, segundo Cuche seria o processo de transformação de uma cultura em outra e o que Robert Redfield, citado por Cuche, afirma que é o conjunto de fenômenos que resultam de um contato contínuo e direto entre grupos de indivíduos de culturas diferentes e que provocam mudanças nos modelos culturais iniciais de um ou dos dois grupos. Equivale a dizer do processo de aprendizado de novos hábitos, práticas e ideais. O ser aculturado está em desenvolvimento, correspondente a um nível intermediário, o qual se relaciona com a sua antiga cultura e a nova.

Cabe ressaltar que, apesar de todo coletivo tentar, de alguma forma, demonstrar que suas interações com o ambiente é a correta (hierarquia cultural), as diferenças regionais devem ser preservadas e respeitadas, pois isto é um princípio do relativismo cultural. Toda forma de manifestação cultural deve ser valorizada, pois possui um significado para determinado grupo social. Cuche afirma ainda que é necessário um estudo aprofundado, pois “as relações culturais devem então ser estudadas no interior dos diferentes quadros de relações sociais que podem favorecer relações de integração, de competição, de conflito, etc. […]”. E são exatamente essas diferentes relações sociais que tornam o Brasil um país multicultural e único.

Logo, não é a nossa finalidade com este relato apontar aspectos certos ou errados, soberanos ou não soberanos. Buscamos apresentar questões que nos fazem únicos, diferentes entre si, apesar de estarmos dentro de um mesmo país e possuirmos similaridades que nos tornam especiais.  Com isso, Cuche, baseado em Barth diz que “identidade existe sempre em relação a uma outra”, ou seja, não é algo único e está sempre em constante evolução.

Assim, podemos concluir que a experiência vivenciada em Pernambuco nos proporcionou conhecer o “outro” no aspecto real, mesmo que por uma semana, e constatar que no Brasil existem várias expressões culturais, cotidianas que são ricas e únicas, fazendo assim, que tudo o que vimos seja ímpar e peculiar.

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