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Por Paulo Virgílio da Rádio Nacional

Em meados dos anos 30 do século passado, o rádio, que havia chegado ao Brasil na década anterior, pelas mãos do educador Edgard Roquette Pinto, passa a despertar o interesse dos grandes jornais , a mídia dominante e quase exclusiva da época. O país vivia a efervescência política da Era Vargas, que resultaria, pouco depois, na ditadura do Estado Novo, e nesse contexto, surgem em 1935, na então capital da República, as rádios Jornal do Brasil, do tradicional matutino pertencente ao conde Ernesto Pereira Carneiro, e a Rádio Tupi, emissora pioneira do magnata da imprensa Assis Chateaubriand. E, no ano seguinte, a Rádio Nacional, empreendimento do vespertino A Noite, o mais influente da época no Rio de Janeiro.

Inaugurada em 12 de setembro de 1936, a Rádio Nacional surgiu como emissora privada, mas acabou estatizada em 1940, juntamente com o jornal que a fundou, em crise financeira desde a ousada construção de sua sede, o Edifício A Noite, primeiro arranha-céu da América do Sul. E foi a partir daí que criou o padrão brasileiro de um rádio popular com alta qualidade técnica e artística, conquistando ouvintes de todo o país e tornando-se, nos anos 40 e 50, a principal emissora latino-americana.

Em seus 80 anos de existência, a rádio foi inovadora em sua época áurea, ao apresentar uma variada grade de programação, capaz de atrair vários segmentos da audiência. Programas de auditório, de humor, radioteatro, de esporte e de radiojornalismo – no qual o Repórter Esso, lançado em 1941, foi o pioneiro dos informativos das rádios brasileiras – eram os destaques desse mix.

Nenhuma outra emissora da era da música ao vivo no rádio chegou a contar, como a Nacional, com três orquestras, maestros e arranjadores de renome, como Radamés Gnattalli, e um elenco de músicos e cantores que incluía nomes como Emilinha Borba, Marlene e Cauby Peixoto, os mais populares do país nos anos 1940/50.

Matriz de um modelo de programação que nas décadas seguintes seria copiado pelas emissoras de televisão, a Nacional consagrou apresentadores como César de Alencar, Paulo Gracindo, Almirante e Paulo Roberto, humoristas como Brandão Filho e radioatores como Mario Lago e Daisy Lúcidi, ainda hoje integrante dos quadros da emissora.

Confira o especial dos 80 anos da Rádio Nacional

Tema de livros e teses de mestrado em comunicação, a história da emissora também já foi contada em um musical para o teatro – Rádio Nacional, as ondas que conquistaram o Brasil – de Fátima Valença, com supervisão de Bibi Ferreira, e ganhador do Prêmio Shell de melhor direção musical em 2006. Autora, juntamente com o radialista Luiz Carlos Saroldi (1931-2010), do livroRádio Nacional: o Brasil em sintonia, a professora Sonia Virginia Moreira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) ressaltou a boa gestão como um dos fatores do sucesso da emissora, que em sua época dourada, foi, ao mesmo tempo, pública e comercial.

“O mais importante não era simplesmente essa dupla forma de subsistência, mas como esses investimentos eram traduzidos no âmbito da Nacional, uma rádio que lançava novas ideias, pessoas e dava oportunidade a conhecedores da música popular e do teatro divulgarem seus trabalhos”, destacou. Além de bons gestores, como o diretor Gilberto de Andrade, a Nacional se beneficiou na época com a implantação das antenas de ondas curtas, o que permitiu à emissora falar para o país inteiro e também para o mundo.

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Auditório da Rádio Nacional nos anos 50 – Acervo/Rádio Nacional do Rio de Janeiro

Nos anos 1960, quando a comunicação brasileira vivia a transição entre a era do rádio e o domínio da TV, a Rádio Nacional sofreu um grande baque, de natureza política. Comprometida com a defesa da democracia, nos dias que antecederam o golpe de 1964, a emissora foi invadida  por militares e teve 36 artistas e jornalistas demitidos.

Foi uma ruptura que gerou um verdadeiro divisor de águas na história da Rádio Nacional. Com a anistia, em 1979, alguns sobreviventes do expurgo retornaram à emissora, como o radialista Gerdal dos Santos, ainda hoje apresentando programas na casa.

Com a criação da Radiobrás, em 1976, a emissora passou a integrar uma rede de comunicação pública capitaneada pela Rádio Nacional de Brasília. Essa rede se amplia, com a criação em 2005 da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que incorporou a TV Brasil e as rádios MEC(AM e FM).

Um ano antes, a emissora teve seu famoso auditório restaurado e reinaugurado com a presença de estrelas de sua época de ouro, como os cantores Emilinha Borba, Marlene e Cauby Peixoto, e de autoridades, entre elas o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A partir daí, voltou a apresentar programas ao vivo, direto do auditório.

Em 2012, a Rádio Nacional deixou o Edifício A Noite, seu endereço durante 76 anos, transferindo-se para as instalações da TV Brasil, na Avenida Gomes Freire, na Lapa, onde funcionou a antiga TV Educativa, também na região central do Rio.

O motivo da mudança foi a necessidade de reformas no prédio, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas as obras até hoje não aconteceram, e o edifício, projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire em estilo Art-déco e localizado na agora revitalizada Praça Mauá, será colocado à venda pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU).

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