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Em abril de 1994, o músico norte-americano Kurt Cobain foi encontrado morto em sua casa, localizada em Seattle, nos Estados Unidos. Ao lado do corpo do artista, jaziam uma espingarda, kit de heroína, poças de sangue e um bilhete suicida. Antes desse episódio sinistro, o vocalista, guitarrista e líder da banda Nirvana, nome mais conhecido do cenário grunge internacional, tinha tentado cometer suicídio diversas outras vezes. No entanto, suspeitas misteriosas foram levantadas pelo investigador Tom Grant, contratado por Courtney Love, esposa de Cobain, para localizar o marido depois que ele deixou a reabilitação.

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Documentário Kurt & Courtney / Foto: Reprodução

A trama cheia de reviravoltas é a aposta do documentário Kurt & Courtney (1998), dirigido por Nick Broomfield. São quase duas horas acompanhando a câmera nervosa de Nick pela vida e morte de Kurt. O espectador conhece Aberdeen, cidade bocejante onde o líder do Nirvana viveu, seu péssimo relacionamento com a família – amargurado com o divórcio dos pais -, suas expulsões de casa e o dormitório na casa de amigos e debaixo da ponte (inspiração para a música “Something in the way”, do aclamado álbum Nevermind). Aparecem também personagens anônimas ao grande público, como a tia Mary, que o incentivou ainda na infância a experimentar o mundo da música, além de amigos da adolescência, uma ex-namorada com quem Kurt viveu e que o sustentava (ela acredita que a música “About a Girl” tenha sido escrita para ela), colegas e outros desconhecidos. O filme também mostra as pinturas deformadas e uterinas de Kurt e seu vício em drogas.

Saindo da biografia de Kurt Cobain e entrando na esfera de Courtney Love, Nick Broomfield vai atrás de todas as fontes que possam afirmar o quanto a vocalista do Hole é devassa, gananciosa, viciada e meretriz, na arte e na vida. Broomfield entrevista o pai de Courtney, que declara a todo instante o quanto a filha é imoral, depoimento esse semelhante ao de conhecidos, relacionados e conhecidos de relacionados. O intuito é provar que Courtney Love é responsável pela morte do marido, seja o induzindo ao suicídio ou contratando assassinos para fazer o serviço, como é o caso de um sujeito conhecido por El Duce, vocalista da extinta banda The Mentors, um conjunto de grunhidos sem sentido, linguagem sexista e com apologia ao estupro. O tal do El Duce, encontrado morto em 1997 em uma linha férrea, aparece no documentário alegando que Courtney o procurou, oferecendo dinheiro para que ele matasse Kurt. Antes desse personagem, a edição foi calculada de forma que o espectador conhecesse a Courtney renegada pelo pai, por ser drogada e prostituta; a Courtney golpista, que namorava músicos por interesse; a Courtney possessiva, ambiciosa e controladora, que ameaçava constantemente o diretor do documentário e sua equipe e, por fim, como cereja do bolo, a péssima mulher e mãe, já que a cantora não esteve presente ao lado de Kurt em seus últimos dias de vida e usou drogas quando estava grávida da filha única do casal, Frances Bean Cobain.

O que torna o documentário entediante é o amontado de acusações especulativas, acompanhadas do “endeusamento” de Kurt. Não há uma narrativa biográfica, sem fuligens ou mitos. Pelo contrário, há versões tendenciosas, depoimentos direcionados e a tentativa de provar que a teoria da conspiração é um fato e não uma alucinação, mesmo que para isso a qualidade e o detalhamento investigativo sejam sacrificados. Nick Broomfield esquece que Kurt Cobain foi um homem com problemas familiares, um histórico profundo de depressão que catapultou sua vida direto para o abismo das drogas. Courtney é exemplo de apoio e carinho? Definitivamente não. Mas o que fica claro é que não se pode esperar nada de Kurt & Courtney, além de uma coletânea de fofocas e um folhetim grotesco no famigerado estilo “quem matou?”. Ninguém melhor para apontar acertos e erros dos pais do que Frances Bean; aos 23 anos, ela já vem fazendo isso, seja afirmando que “o pai abandonou a família do jeito mais horrível possível”, seja não convidando a mãe para o seu próprio casamento. Ações falam mais do que especulações.

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