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Se com um simples clique é possível ter acesso ao acervo de bibliotecas em todas as partes do mundo, qual seria hoje a função de uma biblioteca pública? Como esses espaços tradicionais de leitura podem seguir relevantes na era da Internet e das pesquisas instantâneas? Como eles podem atrair e motivar jovens para o universo do conhecimento? Neste atual momento de ressignificação das bibliotecas brasileiras, a inspiração para um possível caminho vem da Colômbia.

O modelo da “biblioteca-parque” é considerado inovador por aliar ambientes de estudos e pesquisa com a convivência, o lazer e a festa, ampliando o acesso às artes e atividades formativas na área de cinema, fotografia, música e literatura. A arquitetura também acompanha tendências da atualidade, compondo o cenário perfeito para aliar novas experiências de aprendizado com o uso da tecnologia.

Recode

No entanto, na prática, esses espaços são ainda uma exceção no País. A maioria das bibliotecas brasileiras ainda são pouco atrativas para a atual geração, hiperconectada, globalizada e antenada com as novas tecnologias. Há pouca inovação nos serviços oferecidos.

É o que aponta um levantamento recente realizado pelo CDI (Comitê para Democratização da Informática) com 50 bibliotecas no Brasil, selecionadas por edital público para o projeto Recode em Bibliotecas. Organização social fundada há 21 anos e voltada ao empoderamento digital, o CDI traz para o projeto sua experiência nas áreas de cidadania, tecnologia e formação de redes.

De acordo com o levantamento que antecedeu o lançamento do projeto, a maioria das bibliotecas oferece apenas serviços básicos, como empréstimos de livros, e conta com pouco suporte de tecnologia. O estudo deixa claro que a contribuição desses espaços para a difusão do conhecimento e a promoção da educação cidadã ainda está muito aquém do seu potencial.

Acesso à informação

Na década de 90, a emergência da sociedade de informação e a revolução digital levaram a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em 1994 a difundir uma nova versão de seu manifesto sobre o conceito de bibliotecas. O manifesto aponta como uma de suas missões facilitar o desenvolvimento da informação e da habilidade do uso do computador.

Mais de 20 anos depois, no entanto, o acesso à informação nas bibliotecas ainda é feito por meio de processos lentos e burocráticos. Cerca de 70% disponibilizam a busca de material do acervo através de fichas manuais ou consulta com atendimento no balcão, o que torna o processo trabalhoso, exigindo a disponibilidade de recursos humanos. “Modernizar é uma necessidade fundamental e precisa constituir metas em políticas públicas para as bibliotecas”, indica o resultado do levantamento do CDI.

As bibliotecas também podem ser referência em serviços para a comunidade que a cerca. “Atividades como lançamento de novos títulos e feira de troca de livros são comuns nestes espaços, porém, é necessário pensar quais outros serviços é possível oferecer”, aponta o documento do CDI. “A comunidade poderia usufruir e propor novas ações. Pensar as bibliotecas como espaços maker e explorar ainda mais as possibilidades de uso do espaço e de ampliação dos serviços é fundamental para aumentar o acesso e promover ações de empoderamento social”.

Para a diretora do CDI, Elaine Pinheiro, as bibliotecas precisam de uma transformação em vista das demandas do mundo de hoje. “Entendemos que a biblioteca pode ser resignificada. O jovem deve usá-la como um espaço para experimentar”, diz. “A tecnologia possibilita que as pessoas deem vida às suas ideias. E o movimento maker possibilita aprender sem o medo de errar e transforma o jeito de educar, de usar a biblioteca”.

O estudo feito pelo CDI revelou que, das 50 bibliotecas ouvidas, 46 prestam serviço de empréstimo de livros, mas somente 13 promovem treinamento para pesquisa. Apenas 27, que representam pouco mais da metade, oferecem internet Wifi. Cursos e formações ficam restritos a 19 instituições. Espaço para lançamento de livros estão disponíveis em 14 bibliotecas. Espaço para feira de troca de livros, em oito. Mural de anúncios, em quatro. Apoio para elaboração de currículo, em três. Espaço de encontro de colecionadores, em três. Ambiente para RPG (Real Playing Game), somente em uma.

Como gerar oportunidades para os jovens nesses espaços?

Presente em 50 bibliotecas e 46 municípios do País, o projeto Recode em Bibliotecas já tem resultados concretos de como a tecnologia pode transformar a vida da comunidade. A Estação Literária Profª Maria de Lourdes Évora Camargo, em Guararema (SP), está avançando na interação com a comunidade por meio da tecnologia. Foi lançado o projeto “Fala aí”, um canal de comunicação digital para adolescentes, entre 12 e 18 anos, com o objetivo de promover o protagonismo jovem por meio da exposição, reflexão e diálogo sobre suas realidades, dificuldades, interesses e manifestações artísticas.

“As novas gerações de adolescentes são de nativos digitais e estão familiarizados com todos os novos tipos de tecnologia”, constata a bibliotecária de Guararema, Beatriz Ávila. “Eles são dinâmicos, ágeis e requerem mais de um estímulo para manter a atenção. Os recursos e ferramentas tecnológicas são extremamente atraentes e podem ser utilizados para potencializar o desenvolvimento desses adolescentes para conquistarem seus espaços, entenderem seus direitos, refletirem sobre suas vidas e dialogarem sobre suas dificuldades e realidades”. Para ela, o projeto promove o bom uso das tecnologias, favorece o desenvolvimento de habilidades como: a escrita, a leitura e a fala, e estimula o bom convívio e o envolvimento dos adolescentes com a biblioteca e a comunidade.

Para isso, criaram um site para ser utilizado como canal de comunicação, no qual são publicados vídeos, fotografias, textos e diversos conteúdos relacionados aos interesses dos adolescentes; além de integrar o conteúdo com as redes sociais.

A Biblioteca Municipal Alda Martins Soncini, em Arujá (SP), vê o número de jovens crescer. Segundo a bibliotecária, Dalva Sabino Silva, os jovens utilizam o espaço para fazer ensaios de apresentação de peças de teatro, de musical, e também para cursos. São os jovens que ministram oficinas de informática e de contação de histórias. “O projeto Recode do CDI é muito importante aqui em Arujá. Nele, dois voluntários se destacam, Gabriel, de 16 anos, e Max, de 13 anos. Eles dão aulas de Flash, Noções Básicas de Informática, Photoshop e Illustrator”, relata.

A Biblioteca Pública de Pernambuco recebe por mês, em média, mil pessoas, sendo que 54% têm até 36 anos. Segundo a bibliotecária Andrea Batista, o público até 20 anos é que mais cresce. “Parte deste crescimento vem da reabertura do setor circulante, com empréstimo de livros, e reabertura do setor infanto-juvenil. Também passamos a desenvolver ações culturais na biblioteca com foco no público jovem, como conversa com escritores, exposições, além da disponibilidade de tecnologias como rede wifi grátis, acesso a computadores com possibilidades de pesquisa e inserção no mundo virtual e comunicação nas redes sociais”, enumera.

De acordo com Andrea, o projeto Recode colabora com a política de ressocialização e incentiva a participação dos jovens em atividades culturais da biblioteca. “Usamos a tecnologia como instrumento de socialização, a fim de elevar a autoestima dos adolescentes, aumentando a capacidade técnica para o crescimento profissional”, diz. A sala, composta por dez máquinas modernas oferecidas pelo projeto, está acolhendo jovens e adultos com aulas que vão desde lições básicas de informática ao uso das redes sociais.

O Recode em Bibliotecas tem o patrocínio da Fundação Bill & Melinda Gates, que lidera em todo o mundo a iniciativa Global Libraries. O projeto visa fomentar a criação de um ambiente de inovação nas bibliotecas que seja referência para ampliar o acesso à leitura e ao conhecimento; contribuir para a formação dos bibliotecários e profissionais que atuam na biblioteca para maior integração de tecnologia nas atividades de promoção de conhecimento e da leitura; e cocriar com esses profissionais novas práticas onde o uso da tecnologia estimule o acesso à informação para melhoria na qualidade de vida da comunidade e dos usuários.

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