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Avenida Rio Branco, um rio de pessoas

Relato de Chico de Paula

Sobressaltou em mim um sentimento de pura nostalgia de um tempo que não vivi. Há 45 anos uma multidão como aquela tomava o Centro do Rio, coração cultural do país. Era a passeata dos 100 mil. Lutavam contra a repressão que assolava o Brasil havia quatro anos. Seus feitos ficaram marcados na história.

O relógio marcava pouco mais de 17h quando cheguei ao Largo da Carioca acompanhado de dois amigos. Após encontrar com minha companheira, seguimos pela Rua Uruguaiana, em direção a Avenida Presidente Vargas. Antes de alcançarmos a principal via da cidade, vimos uma multidão já se formando.

Daqui a pouco alcançamos a Avenida Rio Branco de onde o imenso rio de pessoas deslizava suavemente até desembocar na Cinelândia: era o ápice da festa. Sim, festa! Tudo ali era alegria e me emocionei. Nunca em meus mais belos sonhos pensei em fazer parte de coisa parecida.

Todos ali pareciam estar imbuídos de sentimentos comuns. Um misto de rebeldia com esperança: “Cara, eu estava desacreditado com o Brasil. Eu estava muito triste com as coisas que vinham acontecendo. Ninguém fazia nada. Eu me impressionei com esses movimentos, que são bastante importantes”, disse o fotografo Vitor.

Recordei que o impulso inicial de tudo aquilo havia sido um aumento no preço das passagens dos ônibus. Ao mesmo tempo, com tudo que vira até ali, me ocorreu que essa história de passagem não passava de uma desculpa, sendo minha sensação compartilhada por muitos outros que estavam ali. “O aumento das passagens foi só um detalhezinho”, disse o ator Mateus, enrolado em uma longa bandeira do Brasil.

Se as reivindicações eram variadas, os desejos eram incontáveis: “Eu quero um futuro melhor pro meu filho”, disse a jovem mãe Priscila, repetindo a frese do cartaz que carregava.

Nas escadarias do Teatro Municipal, bandeiras eram hasteadas e os gritos de ordem ecoavam pela praça: “Vem, vem, vem pra rua contra o aumento, vem!”.

Vi e ouvi tantas coisas importantes, que qualquer espaço seria limitado para narrar. Vi o choro e o sorriso, ouvi os gritos… e os gritos, senti o que poucos tiveram prazer de sentir nessa vida: uma imensa felicidade.

Nós somos a mídia

Relato de Rodolfo Targino (Che)

Estive presente na manifestação contra o aumento das passagens de ônibus na cidade do Rio de Janeiro, no dia 17 de junho, junto com a equipe da Revista Biblioo. Acompanhamos a multidão e presenciamos cenas emocionantes que envolvem sentimentos humanistas e coletivos que estão acima dos casos isolados de vandalismo.

Como sai de Niterói, peguei as barcas. Quando cheguei ao centro da cidade e cruzei a lateral da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), visualizei um grupo de policiais ocupando as escadarias e fazendo um cordão de isolamento com grades de ferro.

Como a manifestação estava cruzando a Avenida Rio Branco, fiquei pensando que poderia ter um conflito caso os manifestantes chegassem ali em frente.

Fiquei surpreso porque não visualizei nenhum aparato policial interditando as escadarias da Câmara dos Vereadores, do Teatro Municipal e da Biblioteca Nacional. Por que a preocupação das forças policiais em proteger de forma mais efetiva somente as escadarias da ALERJ?

Depois de encontrar minha companheira, adentrei a manifestação pela Avenida Rio Branco. Fiz contato com o restante da equipe Biblioo que naquele momento estavam acompanhando a manifestação desde a Candelária.

Ao contrário do que foi noticiado pela grande mídia, os protestos não se resumiram somente aos atos de desordem e depredação. Em frente à Biblioteca Nacional, presenciei um jovem enrolado na bandeira do Brasil, distribuindo flores aos policiais que estavam passando no local, sendo aplaudido pela multidão e tendo as flores aceitas pelos PMs.

Logo em seguida, fui ao encontro dos meus companheiros da Biblioo que estavam chegando em frente à escadaria do Teatro Municipal. No momento que os encontrei, o sentimento de companheirismo era nítido nos nossos abraços e declarações sobre a manifestação.

Ao nosso fundo era estendida uma enorme bandeira do Brasil que ocupava as escadarias do Teatro Municipal. Os cantos entoados pela multidão reavivava o sentimento de indignação que ecoava em cada voz ali presente.

Fomos em direção a Câmara dos Vereadores e presenciamos um grupo de jovens exibindo vários cartazes com dizeres que reivindicavam: melhores condições de vida, uma cidade mais justa e menos desigual, entre outros.

As escadarias da Biblioteca Nacional serviam de palco para os fotógrafos que lutavam pela melhor foto de capa para seus respectivos jornais e também para os manifestantes que queriam olhar a multidão por outro foco.

Paramos um pouco e sentamos na calçada em frete a Biblioteca Nacional. Depois de alguns minutos começou uma correria e gritos dizendo que estaria tendo um confronto entre manifestantes e policiais em frente à ALERJ. Decidimos ir até lá. Durante o trajeto escutávamos explosões e visualizamos muita correria a ponto de procuramos abrigo no Palácio Gustavo Capanema.

Após a dispersão da correria seguimos em frente, cruzamos a Avenida Antônio Carlos e o máximo que conseguimos chegar foi até o Tribunal de Justiça, devido a grande aglomeração de pessoas. Nesse local acompanhamos as explosões e correria. Mas a manifestação não se reduziu somente a isso.

Nos momentos de tensão ao redor da ALERJ, visualizei pessoas orientando a manifestação e acalmando os princípios de correria e tumultos. Quando o Corpo de Bombeiros chegou para controlar os focos de incêndio, presenciei a multidão aplaudindo e abrindo passagem para os bombeiros.

Ao contrário do que disse o governador Sérgio Cabral, que a manifestação era movida por interesses partidários. De fato visualizei grupos com bandeiras de partidos políticos, mas eles estavam isolados da multidão, e, em alguns momentos, eram reprimidos por palavras de ordem: “sem partido, sem partido”. O que demonstrou que a maioria dos jovens estavam ali motivados por causas justas em prol de um país e não por bandeiras partidárias.

Quando já estávamos quase indo embora, no meio da Avenida Antônio Carlos, cruzamos com um grupo de jovens de coletes brancos e com uma bandeira da cruz vermelha com o seguinte dizer: “S.O.S Posto Médico”. Alertei a equipe Biblio que se tratava de médicos voluntários que estavam atendendo os manifestantes feridos. Abordamos esses jovens e pedimos para fazer uma pequena entrevista com eles.

No grupo de quatro jovens, a única mulher aceitou conversar com a Revista Biblioo com a condição de não ser identificada pelo fato de trabalhar em um local conservador. Os outros três jovens posaram para foto sem nenhuma restrição.

A médica nos revelou que atendeu um manifestante com ferimento na perna. Ressaltou que não está fazendo nada de diferente do que jurou quando se formou como médica. Ela resolveu ajudar as pessoas através do atendimento médico porque pela primeira vez percebe que é um movimento que vale a pena lutar.

Convido a todos os bibliotecários, bibliotecárias, demais profissionais e amigos a saírem do conforto de suas poltronas e das TVs de plasma. Venha a ver a manifestação como ela é, deixe de lado a cobertura tendenciosa da grande mídia. Os exemplos vivenciados supracitados não aparecem na televisão e muito menos no Jornal Nacional.

O Brasil não está mais deitado eternamente em berço esplêndido.

Caminhando e Cantando

Relato de Emilia Sandrinelli

Segunda-feita, 17 de junho, às 17h, o costumeiro engarrafamento de pessoas do Centro da cidade tinha seu fluxo invertido: ao invés de inúmeros executivos tentando alcançar seus meios de ir para casa, as pessoas surgiam aos montes, brotando das estações de metrô, saindo dos ônibus, ocupando as calçadas. Qualquer desavisado passando pelo local perceberia que algo grande estava para acontecer: os grupos grandes de pessoas ocupavam as calçadas já com seus cartazes e bandeiras na mão e, tão logo, a hora foi avançando, a multidão antes dispersa entre Cinelândia, Carioca e Presidente Vargas foi se acumulando ao longo da última formando uma massa única de pessoas, cartazes, gritos e ideias.

Indo e vindo dentro desse mundo de gente, dá para ir percebendo o tom geral do movimento: pessoas pacíficas, caminhando, gritando os brados de suas reivindicações, fazendo a cidadã ouvir a revolta contra toda a impunidade e o desrespeito que podem se esconder em 20 centavos. O objetivo do movimento é claro: estavam todos ali contra o aumento das passagens. Mas isso não escondia a diversidade que o movimento juntou, em termos de classe, idade, ideologias, partidos, profissões. Era possível encontrar de tudo um pouco.

Então a manifestação foi se deslocando lentamente pela Avenida Rio Branco. Fluxo intenso de carros e ônibus, normal nos outros dias, foi completamente substituído pelas pessoas que preencheram ruas e calçadas de uma ponta a outra da avenida. Havia música, cores e alegria, poderia até ser carnaval, só que era melhor!

Ao desaguar na Cinelândia, não só a praça foi tomada de gente, mas também foram ocupadas as escadas da Câmara Municipal, do Teatro Municipal e da Biblioteca Nacional. Naquele espaço encontravam-se manifestantes, imprensa e policiais sem qualquer sinal de violência ou vandalismo. Era a ocupação dos espaços que são nossos, enfeitados com os cartazes do manifesto e as bandeiras do nosso país.

Da praça, muitos manifestantes se deslocaram para a Alerj, que acabou sendo palco para o único episódio de violência de toda a manifestação. Se os manifestante envolvidos eram infiltrados ou não, não muda o fato de que essa não é a conduta do movimento, que se constitui de passeatas pacíficas desde os primeiros debates para sua concepção. Tanto que no dia seguinte de manhã, uma grande parcela dos manifestantes estava de volta aos mesmos lugares para limpar as marcas deixadas.

As manifestações ainda não acabaram e continuam crescendo: ainda há tempo para você juntar sua voz à nossa. Venha para rua. E venha tranquilo.

Clique aqui para acessar o Flickr da Revista Biblioo e veja mais fotos da manifestação.

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