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Alemanha nazista.

Homossexuais são obrigados a usar um uniforme com a identificação de um triângulo rosa e ficam confinados em campos de concentração específicos esperando o momento de seu extermínio nas câmaras de gás. Uma violência física e simbólica, reconhecida atualmente como um crime contra a humanidade.

Brasil – 2019

O país é o que mais mata LGBTs no mundo onde a cada 23h uma pessoa do segmento é assassinada, conforme relatório apresentado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) em 2019. Ou seja, o campo de concentração ainda existe (o país), e a câmara de gás se materializa na violência das ruas e em outros espaços.

Brasil – 2020

O secretário Especial de Cultura, Roberto Alvin, cai por conta de material promocional de sua gestão claramente praticando apologia ao ideal nazista ao parafrasear Joseph Goebells, então ministro da comunicação de Hitler, e famoso pela frase: “uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade” (um arauto das FakeNews modernas?).

Mesmo com a criminalização da LGBTfobia, em 2019, não foi elemento motivador para impedir o aumento de casos de transfobia, e numa vertente hipócrita que lhe é peculiar, é o país que mais busca sexo com pessoas trans na internet, ou seja, o mesmo que faz piadinha e agride é o que consome e pratica sexo com o alvo de seu ódio (só Freud para explicar).

Sempre quando uma onda conservadora avança e têm em uma pessoa, com um discurso populista de direita, o seu “messias”, as minorias políticas e sociais são os principais alvos alicerçados em uma ideologia pautada na idéia de família compulsória e mais uma vez mulheres, negros, indígenas, LGBTs, comunidades tradicionais, população carcerária, religiões de matriz africana tem novamente seus direitos questionados e vilipendiados.

Só para ilustrar isso, o primeiro caso registrado de homofobia no país ocorreu em meu estado, o Maranhão, onde o índio Tibira fora acusado de pederastia e como pena foi amarrado na boca de um canhão e executado. Tibira possuía em seu corpo vários marcadores sociais que muitos odeiam: indígena, gay e nordestino.

E a biblioteconomia com tudo isso? O que tem a ver?

Tudo a ver.

Ou assumimos de vez um compromisso real e, portanto, um projeto ético-político, com a sociedade em toda sua pluralidade e diversidade ou continuaremos, como fala o querido Ricardo Queiroz, com bibliotecas para ninguém e produtos e serviços alinhados as demandas dos usuários (ou cidadãos, leitores, interagentes como queiram chamar) apenas nos manuais, mas que na prática, encontram-se totalmente desalinhados às necessidades informacionais (olha o Coadic aí) da sociedade e indo contra o que prega nosso juramento no tocante a dignidade humana, e também o nosso código de ética.

Em relação à questão LGBT, existe um silenciamento e uma invisibilidade dessa discussão na biblioteconomia, as monografias, teses e dissertações que versam sobre o tema são contadas nos dedos (aqui vale mencionar os trabalhos do Luis Vanin, Raimundo Nonato, Guilherme Riguetto, Fábio Pinho entre outros) e algumas dezenas de trabalhos que aparecem esporadicamente sem, necessariamente, fortalecer o debate na área.

O que se pretende aqui não é que área seja monotemática (até porque ela já insiste nisso, quando endossa o fetiche vazio da tecnologia), mas que sujeitos-pesquisadores (pois sabemos que a biblioteconomia tem uma parcela significativa de LGBTs) se reconheçam e possam produzir conhecimento, produtos e serviços orientados a essa população.

A primeira vez em que se falou sobre gênero como categoria de análise em um evento da área foi no Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, e Documentação (CBBD) no ano de 1997, na cidade de São Luís, com texto da Profª Drª Maria Mary Ferreira, que abre um hiato, desde então, e talvez impulsionado pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU, do qual a FEBAB é signatária, cujo slogan “ninguém fica pra trás”.

O quinto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável trata da igualdade de gênero, e o CBBD, de forma inédita, em 2017, tem uma mesa específica e um workshop para tratar e discutir o gênero, sexualidade e diversidade composta por três bibliotecários assumidamente gays (dentre este que vos transcreve e mais os queridos Marcos Soares e Gláucio Barreto ) e uma ativista trans local (Helena Vieira) da cidade de Fortaleza, cidade sede do evento.

Das deliberações do evento saiu à proposição da criação de um Grupo de Trabalho (GT) para colaborar em ações com foco na sexualidade e diversidade em bibliotecas como os que a American Library Association (ALA) nos EUA e a associação da categoria no Chile possuem. Desde então tive oportunidade de viajar para outros estados como o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná para falar sobre sexualidade e diversidade com foco nas bibliotecas.

O Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU) de 2020 já divulgou em seus eixos temáticos um que trata sobre tradição e um sub-eixo focado no uso e disseminação de informação pelas bibliotecas universitárias (BU) relacionados à raça, gênero e sexualidade, enquanto isso o Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB) está preocupado com a era da ciência de dados.

Ao divulgar uma ação, no Facebook, de um grupo de Drag Queens nos EUA onde contavam histórias em bibliotecas escolares, mas especificamente no grupo “Bibliotecários do Brasil”, os comentários oscilavam entre alguns parabenizando a ação e outros, a grande maioria, com críticas que revelavam um preconceito disfarçado em teorias referentes à formação psíquica das crianças, como se aquele lugar (a biblioteca escolar) e aquelas pessoas (as drags) fossem totalmente díspares em estarem no mesmo local. Puro preconceito. Antes de mais nada as Drags são artistas e ali exercitam uma performatividade pautada no que se entende como expressão de gênero.

Por isso que histórias de vida como as de Alexia Carvalho (primeira bibliotecária transgênero com registro em Conselho Regional com nome social) e a de Atena Beauvoir (escritora e intelectual trans e aluna do curso técnico de biblioteconomia no Rio Grande do Sul) são importantes em desvelar como esses corpos dissidentes (na perspectiva de Judith Butler) confrontam a norma nesse espaço conservador com orientações patriarcais, hetero e cisnormativos como, ainda são, as bibliotecas e a biblioteconomia.

Como um contramovimento, em 2019 eu, a Nathália Romeiro e o Bruno Almeida organizamos a publicação “Do invisível ao visível: saberes e fazeres das questões LGBTQIA+ na Ciência da Informação” pelo Selo Nyota (que tem demonstrado um protagonismo no lançamento de publicações de segmentos e pautas marginalizadas na biblioteconomia) com textos de autores que fazem parte da população LGBT e com temáticas também voltadas a este público, configurando-se na primeira obra coletiva totalmente LGBT da ciência da informação.

Vale também destacar a iniciativa das bibliotecárias Bruna Morgan e Dandara Baçã com a criação da página Biblioteca TLGBQIA no Facebook com conteúdo relacionado à política, arte e formação. Outra iniciativa que lavou minha alma foi que a Biblioteca Comunitária LGBTQI+, em Fortaleza, homenageou a primeira travesti doutora do país, Luma Andrade, dando o seu nome para a biblioteca, até onde sei (e espero estar enganado) é a primeira biblioteca que leva o nome de uma travesti no país.

É um avanço, mas ainda não é o suficiente.

Como diriam os amigos Rafael Cavalcante e Cátia Lindemann, ao se escolher a biblioteconomia como área de atuação, antes de tudo um grande questionamento deveria ser feito: “você gosta de pessoas?” e pessoas aqui pensadas em toda a sua pluralidade e diversidade. Reflitamos sobre esse questionamento.

Grande parte de nossas bibliotecas, independente de sua tipologia, realizam ações culturais referentes a datas comemorativas e marcos históricos, no entanto, quase não vemos (ou se ocorrem não são divulgadas) atividades alusivas ao dia da visibilidade lésbica, trans ou, no mês do orgulho LGBT (junho), alguém arrisca uma resposta?

As cinco leis de Ranganathan (que decoramos e sempre as temos na ponta da língua para recitar quando necessário), principalmente a que diz “a cada leitor o seu livro”, esperamos que o caráter humanista fosse realmente incorporado para quem faz, e pensa, a biblioteconomia e possamos também, um dia, falar: “a cada LGBT o seu livro”, pois como diria o grande Guimarães Rosa “a nossa natureza não cabe em nenhuma certeza”.

Ah, e antes de finalizar, este que vos escreve é bibliotecário, gay e VIADO. Fiquei em dúvida se colocava aspas na palavra enviadescer no título, mas depois de refletir e beber nas fontes de Paul B. Preciado e Pablo Vidarte, respectivamente em “O Manifesto Contrassexual” e “Ética bixa”, decidi romper com a normalidade imposta pela linguagem e entender que a revolução vai ser negra, feminista, periférica e LGBT.

Por isso se faz necessário enviadescer a biblioteconomia.

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