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A questão da fundamentação teórica da Biblioteconomia é uma problemática que se encontra presente há muito tempo no cenário de pesquisa de diversos autores em vários períodos diferentes, ainda sendo, na perspectiva contemporânea, um tema em pleno desenvolvimento na área. Vale ressaltar que a Biblioteconomia é uma disciplina milenar e que sua história, bem como seus pressupostos teóricos, poderia ser estudada por períodos específicos e contextualizados – sendo o propósito deste ensaio apresentar de maneira geral algumas possíveis teorias com o objetivo de procurar fundamentos epistemológicos para a Biblioteconomia.

Muito já se foi escrito sobre o aspecto tecnicista do bibliotecário e sua falta de interesse por questões teóricas. Isso se intercala entre o paradigma custodial e o pós-custodial – sendo que no primeiro, o aspecto tecnicista mais se evidencia devido a sua maior ênfase na guarda dos documentos.

Analisando por outra ótica essa afirmação, são encontrados alguns problemas: o discurso do bibliotecário apenas voltado às questões técnicas não é compatível com a própria história da Biblioteconomia, e nem com o perfil de vários bibliotecários que estavam sobre a égide do paradigma custodial, que tinham uma erudição e um conhecimento humanístico elevadíssimo.

Deixamos de lado então os estereótipos e as divisões simbólicas entre os bibliotecários voltados só para as técnicas versus os bibliotecários preocupados com questões teóricas. Em seu artigo, publicado em 1984, chamado “Bibliotecas e sociedade: evolução da interpretação de função e papeis da biblioteca”, Susana Mueller fez uma fantástica revisão de literatura entre os anos de 1880 até 1975; baseando-se neste artigo, serão apresentados a seguir alguns conteúdos pertinentes ao tema do presente texto.

A criação da pós-graduação em Biblioteconomia na Universidade de Chicago, no fim da década de 1920, foi um grande marco para a questão da fundamentação teórica – a partir daí já se poderia falar em uma Filosofia da Biblioteconomia. A Escola de Chicago contribuiu com uma abordagem nova – enxergou a área no escopo das ciências sociais. Pierce Butler, um dos grandes nomes da Escola de Chicago, em seu livro “Introdução à Ciência da Biblioteconomia”, publicado em 1933, explanou esse caráter social da disciplina, contribuindo com uma série de conceitos.

J. Periam Danton, que foi aluno de Butler, também difundiu as ideias da Escola e procurou demonstrar em seus escritos a importância de uma filosofia para a Biblioteconomia. Para Danton, o princípio fundamental da Biblioteconomia se encontra na sua responsabilidade social. Seguindo ainda a linha teórica da Escola, Lowell Martin também procurou evidenciar o caráter social da biblioteca através dos seus atributos de transmissão da cultura humana. Muller afirma da seguinte forma a importância da Escola de Chicago: “A emergência da escola foi muito importante para o desenvolvimento da Biblioteconomia, pois sob sua influência os problemas bibliotecários começaram a ser tratados de forma mais científica. Esperava-se que tais estudos levassem um dia à formulação de uma teoria da Biblioteconomia, e ao melhor entendimento de sua função social”.

Falando-se dos fundamentos teóricos para a Biblioteconomia, não se poderia deixar de fora o bibliotecário indiano Shiyali Ramamrita Ranganathan, autor do clássico livro “As Cinco Leis da Biblioteconomia”, que teve sua primeira edição publicada em 1931. Só a análise desta obra, assim como de todos os entrelaços filosóficos por detrás das cinco leis de Ranganathan, já seria uma tarefa monumental. Em seu artigo “Fundamentos Teóricos da Classificação”, publicado em 2006, Carlos Alberto Ávila ilustra em uma parte do seu texto outra contribuição de Ranganathan – a classificação facetada, que foi desenvolvida na década de 1930, a partir da classificação utilizada no acervo da Biblioteca da Universidade de Madras, na Índia; a busca por princípios e fundamentos percorre toda obra do bibliotecário indiano.

Vamos explorar outras duas grandes teorias que visam fornecer os fundamentos conceituais para a Biblioteconomia, que são a Epistemologia Social – EP e a Filosofia da Informação – FI. O termo “Epistemologia Social” surgiu pela primeira vez no artigo publicado em 1952, “Foundations of a theory of bibliography”, escrito pelos bibliotecários e pesquisadores Margaret Egan e Jesse Shera.

Nesse primeiro artigo é realizada uma grande análise da comunicação gráfica – bibliografia – na sociedade. Isso culmina na necessidade de se procurar entender os processos de produção do conhecimento em uma sociedade cada vez mais complexa, emergindo desse contexto uma nova disciplina – EP. A abordagem coletivista em relação à produção do conhecimento é o grande diferencial da EP, pois como afirma Shera em seu artigo “Epistemologia Social, Semântica Geral e Biblioteconomia”, de 1977, as tentativas de se compreender esta produção pelas outras disciplinas como a psicologia, filosofia e epistemologia sempre foram do ponto de vista individual, procurando entender os processos intelectuais dos indivíduos e nunca da sociedade como um todo.

Shera também demonstra a grande afinidade entre a EP e a Biblioteconomia e, assim sendo, o objetivo seria o de maximizar a utilidade social dos registros gráficos na sociedade. O bibliotecário, nesse contexto, precisa entender os processos cognitivos de produção do conhecimento da sociedade; o grande objetivo da Biblioteconomia para Shera é a gerência do conhecimento.

A EP possui grandes relações com as teorias sistêmicas da Sociologia e as teorias da comunicação; já a FI é fruto das novas demandas filosóficas surgidas na chamada Sociedade da Informação, sendo seu maior expoente o filosofo italiano contemporâneo Luciano Floridi, que em 2002 publicou seu artigo “What is the philosophy of information?”. Nesse seu artigo Floridi busca apresentar as questões relacionadas à pesquisa computacional e informacional e suas relações com a filosofia, demonstrando que são assuntos em destaque na contemporaneidade e que estão modificando problemas antigos da filosofia e também trazendo soluções.

Em outros dois artigos chamados “On defining library and information science as applied philosophy of information”, de 2002, e “ Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI) como Filosofia da Informação Aplicada: uma reavaliação”, publicado em 2004 e traduzido para o português em 2010, Floridi mostra as razões pelas quais acredita que a sua filosofia da informação pode fornecer as bases conceituais para a Biblioteconomia e apresenta uma série de críticas a Epistemologia Social de Shera.

O conflito entre essas duas teorias e todas as suas nuances é grande e está em constante discussão, mas vale salientar que existe uma grande diferença cronológica entre os autores: Shera, falecido em 1982, não pôde alcançar a Filosofia da Informação de Floridi – para apresentar sua defesa em relação às críticas realizadas a sua obra. Outro adendo importante é que o filosofo Floridi sofreu muitas críticas simplesmente por não ser oriundo direto da Ciência da Informação, mas ainda assim, sua filosofia da informação encontra aceitação por pesquisadores da área.

Enfim, o presente texto procurou apenas sinalizar alguns possíveis caminhos a se pensar, não tendo nenhuma pretensão de explorar profundamente os aspectos de todas essas teorias. Toda essa indagação sobre a fundamentação teórica no seu âmago recai acerca da cientificidade da Biblioteconomia; o seu caráter científico alicerçado a uma série de teorias e práticas já se encontra mais do que provado.

Porém, no âmbito da pós-modernidade, novos paradigmas remodelaram as regras do jogo em diversas áreas do saber humano, e a própria ciência moderna enfrenta uma crise em relação aos seus procedimentos, assim como seu discurso de objetividade e racionalidade; dessa forma “a crise da ciência é, assim, também a crise da epistemologia”, como afirma Boaventura de Sousa Santos em seu livro “Introdução a uma ciência pós-moderna”.

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