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No início desse semestre, os alunos de Spokane, segunda cidade mais populosa do estado de Washington, nos Estados Unidos, se depararam com bibliotecas vazias. Não é que as coleções tenham desaparecido das estantes, mas os bibliotecários já não são mais vistos por lá.

Justificando a necessidade de sanar as contas da cidade, todos os postos de bibliotecário das suas 54 escolas primárias e secundárias foram extintos. Restaram aos bibliotecários que lá atuavam serem realocados para outras funções, como as de professor ou assistente administrativo.

Há mais de mil quilômetros dali, no estado de Michigan, o número de bibliotecários escolares diminuiu 73% entre 2000 e 2016, segundo dados da Chalkbeat.[1] Infelizmente, não se trata de casos isolados. Em todo os Estados Unidos, o cargo de bibliotecário está, simplesmente, desaparecendo da estrutura orgânica das escolas.

Só para se ter uma ideia da dimensão da crise, entre 2000 e 2015, mais de dez mil vagas foram suprimidas no país, segundo dados do próprio Centro Nacional de Estatísticas da Educação.[2] Isso significa uma refração de 20% de vagas de bibliotecário nas escolas norteamericanas em 16 anos.

Há três fatos que qualificam e agravam esses dados. O primeiro é que esse declínio é inversamente proporcional ao número de alunos matriculados. Na cidade de Denver, capital do Colorado (EUA), por exemplo, as matrículas de estudantes aumentaram 25% em dez anos, mas o número de bibliotecários diminuiu 60% neste mesmo período.[3] Ou seja, a relação de empatia a ser cultivada entre o bibliotecário e o aluno, objetivando garantir o letramento informacional, é institucionalmente mitigada ou pior, refutada pelo Estado. Nessa onda de cortes, o bibliotecário foi sendo apequenado a ponto de ser substituído.

O segundo fato constatado é que à medida que o bibliotecário vai sendo apagado do cotidiano das bibliotecas americanas, outros profissionais estão sendo contratados. De fato, no mesmo período em que as fileiras dos bibliotecários norteamericanos diminuíram cerca de 20%, as escolas em todo o país registraram um aumento de 11% número de conselheiros educacionais, de 19% nos assessores pedagógicos e de 28% nos administradores escolares.

Ou seja, embora reconheça a importância da presença da biblioteca nas dependências da escola, o Estado norteamericano nega que o seu bom funcionamento envolva a participação do bibliotecário. Trata-se, sem dúvida, de uma fissura na relação biblioteca/bibliotecário, construída a duras penas.

O terceiro aspecto é que os bibliotecários estão desaparecendo muito mais rapidamente nas comunidades escolares vulneráveis. De fato, os distritos que não perderam um bibliotecário desde 2005 são 75% brancos, enquanto os 20 distritos que perderam mais bibliotecários tinham, em média, 78% das populações estudantis minoritárias. Falando de outro modo, são as escolas frequentadas por negros e latinos que mais perdem bibliotecários.

A pergunta a ser feita é: esse sangramento pode ser estancado, mantendo os bibliotecários nas bibliotecas escolares? Sinceramente não sei. O que me parece relevante é a necessidade de refletirmos a respeito da crise que não está constrita aos Estados Unidos. Reconhecer o colapso, sem evocar, simplesmente, a parcela de culpa do governo me parece um bom começo.

Em seguida, precisamos compreender que a luta em prol das bibliotecas escolares e, em tese, do bibliotecário que ali trabalha, envolve tomar para si um conjunto de ferramentas. Recentemente, Keith Curry Lance, pesquisador na área de bibliotecas e estatísticas, afirmou que embora não se tenha detalhes específicos, em muitos casos esses empregos estão desaparecendo porque em muitos estados, “a biblioteconomia escolar está evoluindo para muitas outras coisas”.[5]

O que ele está dizendo deve nos levar a refletir: “Sim, estamos deixando de participar da gestão das bibliotecas escolares. Isso se deve ao fato de que elas estão se transformando em equipamentos culturais com características distintas da que estamos acostumados a trabalhar. Mas, que mudanças seriam essas?”

Devemos, ainda, nos questionar: “Até que ponto esse deslocamento de responsabilidade nos causa sofrimento, ou nos conformaremos a produzir e a colar números de chamadas nas lombadas dos livros? Enfim, estamos tecnicamente impossibilitados de trabalhar junto à comunidade escolar devido à falta de certas habilidades?” São muitas as perguntas. E as respostas?

Pois bem, como bem ressaltou Lance, não há dados claros a respeito dessa relação entre biblioteca escolar e bibliotecário. O Centro Nacional de Estatísticas da Educação norteamericano oferece um panorama atual do número de postos de bibliotecário escolar, e nada mais.

No Brasil, o quadro é ainda mais precário: podemos consultar na Raio X das Escolas, ferramenta lançada hoje pelo G1, as escolas publicas e privadas que possuem ou não bibliotecas, sem considerar, entretanto, seu acervo, produtos e serviços ofertados, bem como a presença ou a ausência do bibliotecário.[6]

Precisamos de dados para que a luta seja justa e passível de ser vencida. Não por acaso, o período áureo das bibliotecas escolares nos Estados Unidos se deu a partir da década de 1960, particularmente em razão das pesquisas publicadas pelo periódico The Library Quarterly, que evidenciavam a influência positiva da biblioteca escolar no processo de aprendizagem.

Pois bem, fora dos números e das tabelas, o que temos é discurso laudatório que sucumbe à fúria da tesoura do Estado. Seja em Brasília seja em Washington, o desafio é duplo:

  1. Comprovar, num panorama fortemente marcado pelas tecnologias digitais, que a biblioteca escolar preservou e até ampliou o seu papel. Embora duvide que a maior parte dos políticos e especialistas em educação ousaria dizer algo contrário a esse respeito, é necessário apontar caminhos claros para eles, apontando, particularmente, metas e parâmetros. Trata-se de um dever, não de favor. De fato, sem a comprovação prévia dos benefícios desse equipamento, o dinheiro não chega. É assim que o mundo funciona desde que a primeira moeda foi cunhada. No Brasil, essa distinção entre o aplauso e o investimento é notória: a profusão de lei ordinárias evocando os benefícios quase sobrenaturais das bibliotecas escolares vem sempre acompanhada de uma indigência absurda de políticas públicas.
  2. Provar em alto e bom tom o “valor de mercado” do bibliotecário neste equipamento. O tempo me confirmou que muita gente pertencente ao intitulado “povo do livro” não patrocina a ideia de que o bibliotecário seja uma figura imprescindível ao bom funcionamento da biblioteca escolar. Até vi alguns mais atrevidos virarem o nariz para a classe toda, alegando que o bacharel em biblioteconomia tem pouco ou nada a contribuir com a comunidade escolar, devendo, ao máximo, aceitá-lo enquanto catalogador de livros; os mais comedidos apontam que o problema está na formação deste profissional, muito tecnicista e pouco humanista.

O tom parece duro, e de fato o é. Contudo, se recebermos com empatia esse discurso advindo de fora dos muros da biblioteconomia, pode-se trabalhar, com respeito e honestidade, em prol da melhoria de nossa relação com a comunidade escolar, garantindo, assim, que as atividades por nós realizadas resultem no efetivo desenvolvimento das habilidades de pesquisa, na alfabetização digital e no pensamento crítico dos alunos e professores. Sem essa sensibilidade focada na comprovação de que podemos fazer a diferença, independentemente do poder da lei ou do costume, nosso discurso se resvalará, naturalmente, no corporativismo tolo e caduco. E aí não há quem possa nos salvar do poder da tesoura dos economistas, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos.

[1] LEVIN, Koby. Amid a literacy crisis, Michigan’s school librarians have all but disappeared. Disponível em: https://www.chalkbeat.org/posts/detroit/2019/08/08/michigan-school-librarian-shortage/>. Acesso em: 5 out. 2019.

[2] https://nces.ed.gov/surveys/libraries/index.asp

[3] GUION, David. School librarians revisited: grounds for hope? Disponível em: <https://www.allpurposeguru.com/2019/03/school-librarians-revisited-grounds-for-hope/.> Acesso em: 5 out. 2019.

[4] GUION, David. School librarians revisited: grounds for hope? Disponível em: <https://www.allpurposeguru.com/2019/03/school-librarians-revisited-grounds-for-hope/.> Acesso em: 5 out. 2019.

[5] LEVIN, Koby. Amid a literacy crisis, Michigan’s school librarians have all but disappeared. Disponível em: https://www.chalkbeat.org/posts/detroit/2019/08/08/michigan-school-librarian-shortage/>. Acesso em: 5 out. 2019.

[6] https://especiais.g1.globo.com/educacao/raio-x-das-escolas-do-brasil/

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