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Por Ginni Chen – Tradução de André Valério, bibliotecário

Nadine Gordimer, vencedora do Prêmio Nobel de literatura e ativista contra o apartheid, recentemente falecida, uma vez afirmou que “os fatos* são sempre menos do que um acontecimento real.”  Gordimer escreveu ficção, mas essa ficção, certamente, não era falsa.  Era uma ficção repleta de assuntos de ordem moral e racial sobre o apartheid, assuntos que foram experimentalmente verdadeiros para milhares de sul africanos.  Como Gordimer descreve, “nada fatual que eu escreva ou diga será tão confiável quanto minha ficção”.

Veterano do Vietnam e romancista, Tim O’Brien ecoa um sentimento similar: “É para isso que a ficção serve. É para nos levar à verdade, quando a verdade não é suficiente para a verdade.”  Se você perguntasse como seria lutar na guerra do Vietnam, os fatos não seriam suficientes como uma resposta. Você teria alguns dados, tais como, o número da divisão, a atribuição de um pelotão, onde eles marcharam, sob quais ordens, quem ficou ferido, quem morreu e nada mais.  Todas aquelas informações são verdadeiras, mas não são verdadeiras o suficiente.

Fatos são limitados, tanto em escopo quanto em espécie.  Em termos de escopo, a verdade é limitada a um incidente, um momento, um lugar e a pessoas específicas.  Dessa maneira, fatos podem ser exclusivos e episódicos. Os fatos dizem: esse evento particular não aconteceu a você.  Você pode ter tido eventos similares ocorridos, mas que pertencem a algum lugar.

Além do mais, alguns tipos de fatos simplesmente não existem.  Quais são os fatos sobre o medo? Solidão? Tristeza? Um coração partido? Degradação? Quais são os fatos sobre perder seus entes queridos? Odiar seus superiores? Fatos sobre como é ser um soldado, uma mãe ou uma garota adolescente?

A ficção não tem nenhuma dessas limitações.  Ela pode falar de forma universal, dizendo: “isso mais ou menos aconteceu ou está acontecendo com um monte de pessoas.” Ela é inclusiva em vez de exclusiva.  Ela diz, “essa história não aconteceu com ninguém e, ainda assim, ela ocorreu com todo mundo”.

A ficção pode mostrar-lhe todos os tipos de verdades que fatos não podem.  Ela pode levá-lo a sentir empatia por algumas vivências de uma forma que os fatos não podem fazer.  “Caro leitor, essa é a experiência de ir para uma guerra. É assim que se sente ao se apaixonar por alguém. Essa é a experiência de ser casado por mais de vinte anos.”

Não quero afirmar com isso que não existam grandes livros não ficcionais por aí.  Absolutamente há, e esses livros realizam um trabalho maravilhoso em trazer fatos históricos à vida e invocar respostas emocionais.  Eles instilarão em você uma maravilhosa empatia por um dado histórico e por aqueles em torno dele.  No entanto, sua empatia estará sempre ligada a eventos e pessoas específicos na história.  Para entender um tempo, lugar e pessoas mais universalmente, para compreender o que foi verdade para todo mundo, mas que ainda não aconteceu a ninguém, tente ler alguma ficção. Vai valer a pena!

Amor e livros de bolso,

Senhora literária

* Fato – segundo o Merriam Webster’s Collegiate Dictionary, fato é descrito como uma ocorrência real ou um fragmento de informação apresentado como possuindo uma realidade objetiva. Logo, pode-se optar pela tradução de fato como dado sobre um acontecimento real.

Tradução do original “Why Read Fiction?

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2 Comentários

  1. Leandro
    4 de setembro de 2014 a 19:46 —

    Muito bom o texto!!!!!!!!!!

  2. Danubia Marques
    6 de setembro de 2014 a 11:40 —

    A ficção é capaz de nos levar a outras realidades e até mesmo nos mostrar realidades que nossa visão de mundo não consegue alcançar. A ficção prova, também, como é grande a capacidade de imaginação e criação do ser humano. Ótima contribuição e parabéns pela tradução!!!

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