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Quem rege o planeta é a melanina. Essa classe de compostos poliméricos derivados da tirosina se restringiria a nos proteger contra a radiação solar. Sua funcionalidade biológica deu espaço para finalidades opressoras e vergonhosas. E cá estamos, nesse reino matizado, em que tirar a sorte grande é nascer branco. Pura constatação, cara pálida: pele branca é dádiva e esperança; pele preta é inconveniência, é limitação.

Sou filho de brancos; pobres, mas branquinhos. Ainda que um tipo chato, em visita lá em casa, insistisse na tese de que meu nariz achatado e largo era prova cabal de trazer certa dose de sangue preto nas veias, o conjunto do corpo me franqueou direitos próprios de um tipo brancóide. A brancura é tão demasiada que na empreitada de recuperar práticas raciais violentas em que participei ou presenciei, o cérebro, insolente, teimou em não trabalhar. Felizmente dobrei-o.

Relembro bem que, ainda menininho, meu “cabelo bom” – fino, liso e ondulado – atraia especial afeto das tias da creche. Bem ao lado, um negrinho sine nomine, cansado dos próprios berros dormia, encolhidinho, sem chance. Imperava, glorioso, na sala 1. O menino sem nome nada tinha além do choro desconsolado.

Mais crescidinho, na vida de bom católico, a pele alabastrina me garantia um lugar de destaque em períodos de festa. Entre centenas de garotos, dona Altamira lançava seus imensos olhos verdes a dois ou três, idênticos a mim no quesito cor. E assim, subia a imensa escadaria, de auréola e asa; no topo, feito bispo, impunha a coroa na cabeça do padroeiro Menino Jesus. Ignoro as dúzias de vezes que coroei Virgens magras e cloróticas. Sob o escabelo dos meus pés, um número infinito de meninos de colorações pouco apreciadas por dona Altamira se reduzia a ovelhas faceiras, sem nomes.

E assim fui aprendendo, rápida e facilmente, com aulas diárias e diluídas, que a matiz do mundo era binária: que Jesus era branco e o diabo era preto; que a virtude era cândida e o pecado escuro; que a beleza era americana e a feiura africana. Guardar no coração apenas Jesus, virtude e beleza. Seus antônimos deviam ser apagados. Pretérito doído.

Hoje, ilhado em casa pela Covid-19, vejo que no mundo real, fora de nossos grupinhos cults, de gente transada, pouco mudou. Isso explica o triste fim de João Pedro e George Floyd. O primeiro, menino aplicado e aspirante a advogado, levou um tiro de fuzil pelas costas. Quanto ao segundo, morreu clamando por um pouco de ar para o seu algoz caucasiano. Quanto a mim, estou vivo, vivíssimo. Graças à Deus Pai que me garantiu uma cútis idêntica à Sua.

O que me resta? Sofrer pelo sonho roubado do João Pedro? Chorar pelo sopro abafado do George? Até quando a melanina vai modular, cinicamente, a balança de Têmis e o cacetete da polícia? Até quando? Creio que diante desses atos de barbárie, intensamente midiatizados, há, apenas, dois movimentos possíveis e antagônicos. O primeiro é dizer, simplesmente: “E daí, o que tenho com isso?” O outro, mais longo e sofrível, é parar e tornar presente em nossas consciências os negros e negras que passaram por nossa vida.

Quais os seus nomes? Como os conheceu? Como os feriu? Sim, suspeito que todos nós, sem exceção, violentamos em maior ou menor grau brasileiros e brasileiras pelo fato de serem negros e negras. Esse mea culpa individual é necessário. Trata-se de uma kénosis, um movimento libertador de descida. Afinal de contas, é necessário que em algum momento o menininho branco vestido de anjo desça do pedestal e compartilhe o destino dos humanos.

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