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Estamos a pouco mais de dois meses para o carnaval e nesse momento o processo de criação dos artistas dessa monumental festa está a pleno vapor. O carnavalesco é a pessoa que tem a desafiadora função de criar ou recriar tudo ou parte de tudo que vemos na Avenida no dia do desfile. Esse profissional precisa estar atento a todos os detalhes.

Por esses dias, fui pego de assalto por conta da divulgação do trabalho de um novo e talentoso carnavalesco chamado Leandro Vieira (artista plástico formado pela UERJ), que assume pela primeira vez essa função sozinho em uma escola de samba. Ele já foi assistente de figurino de outros carnavalescos nos últimos anos. Carnavalesco é um dos cargos mais importantes dentro dessa dinâmica carnavalesca.

Assim que ele começou a divulgar parte dos figurinos que veremos na avenida em 2015 no desfile do Grêmio Recreativo Escola de Samba Caprichosos de Pilares, algo me chamou bastante atenção. A imagem de algumas fantasias divulgadas por ele nas redes sociais não estavam ali sozinhas. O Leandro teve a sobriedade e modéstia de revelar de onde vieram suas inspirações para criá-las. E vejam: isso não é muito comum de se ver nesse meio.

Essa ação não faz dele um copiador. Muito pelo contrário! E foi exatamente isso, em minha opinião, que fez toda diferença na hora de vislumbrar a beleza do trabalho desse artista. Não faz muito tempo, li um texto de Fernando Petersen sobre “Os Influenciadores na Comunicação”, onde ele dizia que: “Sempre vai ter alguém, em algum canal, em algum meio, em algum veículo, que irá influenciar muitas pessoas.” De um tempo pra cá, não só como um mero espectador, mas também como um apaixonado e estudioso dessa arte e tudo que envolve a criação no carnaval, não vejo problema algum em falar e expor para o público de onde vem nossas inspirações. O que nos influencia. E é de fato que sofremos influências dos nossos pais, dos professores, da televisão etc. Por isso, escolher boas referências é fundamental para o sucesso de um bom profissional principalmente se ele for um pesquisador. Acho que essa é sem dúvida a melhor forma de se construir a própria identidade. E é isso que ele vem fazendo brilhantemente.

Sua estreia na Avenida acontecerá com um enredo irreverente, como sempre foi a marcada da escola de samba (a título de curiosidade, Ismael Silva, em entrevista concedida ao jornalista Sérgio Cabral, que está no livro “As Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, 2004, a expressão “escola de samba” foi inventada por ele próprio. Lembrando-se de uma escola normal próxima ao local onde se dava a reunião dos sambistas, disse que se os mestres se reúnem nas escolas para dar aula para seus alunos, os sambistas se reuniam para dar aula de samba. Existem outras versões para origem desse termo. Mas essa é a que mais me agrada), na Caprichosos de Pilares, escola do bairro da Zona Norte do Rio, que falará sobre o comércio popular, com o enredo “Na minha mão é + barato!”. E aí entra a grande viagem do carnavalesco que tem que traduzir a ideia do enredo em fantasias e alegorias. O comércio ambulante será um dos destaques desse desfile, assim como garrafeiro, funileiro e jornaleiro. O negro – escravo, alforriado, ou recém-liberto – que vendia bananas para sobreviver.

Seguem dois exemplos da pesquisa e referências do trabalho do Leandro que veremos aqui, nas palavras dele, como ele expressa as influências desses artistas em seu trabalho e suas inspirações para elaboração dos figurinos do desfile.

figura 1

Figura 01: “Um dos meus maiores prazeres em desenvolver projetos associados ao carnaval reside na atuação do desenvolvimento da pesquisa conceitual e estética que direciona o discurso e a plástica do desfile respectivamente. Na imagem, lado a lado, o rascunho original de um dos figurinos incluídos no projeto de fantasias da Caprichosos de Pilares, e o material iconográfico que serviu de referência e inspiração para o desenvolvimento do mesmo – no caso específico, um detalhe de uma aquarela de Jean Baptiste Debret. #operapopular”  – Leandro Vieira.

figura 2

Figura 02: “Como a coluna Histórias Cariocas da Revista VEJA Rio antecipou, antigos registros fotográficos do início do século XX inspiram parte da criação dos figurinos desenvolvidos para a Caprichosos de Pilares. Na foto, a esquerda, o vendedor de sombrinhas registrado pelas lentes do fotógrafo Marc Ferrez. A direita, a fantasia que inclui o personagem ao contexto carnavalesco do setor que aborda o Rio Antigo. #figurinoleandrovieira #figurinosdepilares #capricharnacaprichosos #caprichososdepilares #figurinos2015#carnaval2015” – Leandro Vieira

Não poderia deixar de exaltar a beleza do trabalho de um artista que revela e busca suas melhores influências para desenvolver seu trabalho com nomes como o de Jean Baptiste Debret que foi um dos mais renomados artistas de sua época. Nascido em Paris, França, em 1768, Debret foi pintor, desenhista, gravador, professor, decorador, cenógrafo. Debret frequentou a Academia de Belas Artes e integrou a Missão Artística Francesa, que veio ao Brasil em 1816. Instalou-se no Rio de Janeiro e a partir de 1817 ministra aulas de pintura em seu ateliê.

Outro grande nome citado por Leandro é o também renomado fotógrafo Marc Ferrez, nascido na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1843. Em 1865 o fotógrafo inaugurou a Casa Marc Ferrez & Cia., exercendo a profissão de fotógrafo. Ele é o único fotógrafo brasileiro agraciado com o título de “Photografo da Marinha Imperial” (esse título de qualificação de “Photographo da Caza Imperial” é atribuída aos seus profissionais prediletos e foi criado pelo imperador Dom Pedro II, em 1851).

Portanto, o que Leandro Vieira fez é o que está bem claro no Dicionário de Língua Portuguesa que diz: “Referência é a ação ou efeito de referir. O que se pretende referir; aquilo que se conta ou se relata. Menção rápida de; ato de mencionar; alusão. Relação entre certas coisas. Aquilo que se utiliza como modelo; ação de demonstrar, através de um signo linguístico, o que pertence ao âmbito extralinguístico, concreto ou imaginário; análise da mediação entre signo e referente”. O que ele está buscando com isso é dar qualidade estética para seus projetos artísticos. Por isso, no momento da pesquisa, é importante buscar boas fontes e ter, se possível, as melhores referências para dar credibilidade ao seu trabalho. E como ele mesmo disse: “Acredito que a originalidade de um trabalho esteja no olhar e na pesquisa… tenho por hábito este caminho…”.

A pesquisa é uma das principais atividades do Bibliotecário. Atuando como Gestores da Informação, devemos ficar atentos a tudo isso!

 

figura 3

Título: As escolas de samba do Rio de Janeiro

Autor: Sérgio Cabral

Editora: Lumiar

Ano: 2004

 

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