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Eu tenho meu próprio pedaço de terra, que de terra, de fato, não tem muita coisa (além de uma eventual poeira que minhas alergias me obrigam a combater como um paladino da limpeza), afinal é um apartamento. Esse quadradinho de terra bem pequeno, suspenso no ar e cercado por paredes é meu. Tem o meu nome em um papel para provar isso.

Todos os dias eu chego do trabalho, abro a porta do meu pedacinho de terra e largo minhas coisas em algum lugar. Assim que eu estou confortavelmente instalada, o que faço com muita tranquilidade, pois estou no meu próprio pedaço de terra, começo a sonhar com outros pedacinhos de terra que eu gostaria de conhecer. Penso também na (falta de) lógica de todo tempo que eu sacrifico fazendo coisas que preciso a fim de pagar o meu pedaço de terra e, tudo isso, só para que eu tenha tempo e oportunidade de abandoná-lo e partir para outros pedaços de terra.

Todos os dias, provavelmente em uma hora não muito diferente, várias pessoas se encolhem em um pedacinho de terra que não é seu (porque não tem seu nome em um papel), sem portas ou paredes e dormem no chão sonhando com um pedacinho de terra como o meu, talvez até menor.

E ainda perto da mesma hora, várias outras pessoas podem estar pensando sobre os seus respectivos pedaços de terra: vender, alugar, conseguir um maior, lucrar mais com o que tem, mudar a cor das paredes, deixar de herança, se livrar do vizinho barulhento. Ou alguns menos nobres ainda: roubar o pedaço do outro, expulsar outros do pedaço que você nem usa, inutilizar seu pedaço para ganhar o seguro e desse ponto, passando por onde a sua imaginação honesta conseguir chegar e indo sempre mais além.

Eu, as pessoas dormindo no chão e as pessoas refletindo sobre o que fazer temos uma coisa em comum: todos habitamos um planeta repleto de milhares e milhares de pedacinhos de terra. Essa informação, no entanto, parece não mudar muito o modo de agir de ninguém.

Algumas coisas escritas em alguns papéis ainda fazem com que enormes pedaços sejam apenas de alguns poucos nomes, o que basicamente só ocasiona gente sem terra e terra sem gente.

Eu, enquanto isso, continuo dando um duro danado para pagar as parcelas do meu pedaço e sonhando em nunca mais ser aprisionada pelas paredes que o cercam.

Esse texto foi baseado nesse post da fanpage Filósofos Obscenos.

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