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O grupo Gestopatas está em cartaz às quartas e quintas até o dia 14 de Setembro no CCJF com o work-in-progress Pareidolia – depois do fim. O espetáculo tem por cenário um futuro distópico, pós-apocalíptico, onde o resto da vida na Terra é, propriamente, a vida dos restos: objetos descartáveis, inúteis (sobra da vida humana) transformam-se em seres híbridos rudimentares que comportam-se como humanos: lutam, se divertem e acasalam (como diz o “narrador-astronauta” da peça, “o amor, aqui, está nos objetos”). Assim como os humanos, estes seres são, por vezes, profundamente desumanos. A peça apresenta esta vida mutante em seu surgimento e sua progressiva criação de relações sociais.

É importante atentar para a atualidade do tema: em um tempo onde se comenta com grande entusiasmo que passamos por uma revolução tecnológica capaz de alterar não só relações de trabalho, mas a existência como um todo, a semente desta vida híbrida talvez já esteja mais enraizada em nosso presente do que gostaríamos de admitir. O mesmo entusiasmo, porém, que acolhe estas inovações parece também escamotear seu lado sombrio: a obsolescência. O que fazer com todas as coisas descartadas pelo progresso? Com automatização de postos de trabalho (e mesmo a expectativa de um ser humano modificado geneticamente), o que fazer com aquilo que forem descartados pelo mercado, incluindo aí seres humanos?

Cena da peça “Pareidolia – depois do fim”. Foto: divulgação

É de se notar, por exemplo, o momento do espetáculo em que o alumínio conta sua história, desde a origem (“Vim da crosta terrestre”) até a violência com que é tratado pela “dona da casa, uma senhora com esmaltes em tons pastosos – não era ela quem costumava me usar na cozinha”. A cena remete à hierarquia social com a qual lidamos todos os dias e que, muitas vezes, nos passa despercebida – a dona da casa que compra a panela e outra pessoa usa a panela para cozinhar para a dona da casa – mas não só. O alumínio prossegue: “me levou até à janela. Pensei que fosse me matar. Não, ela bateu com força em mim”, fazendo menção aos “batedores de panelas” que apoiaram o golpe que resultou na deposição da presidenta eleita Dilma Rousseff e na tomada da presidência por Michel Temer. Em seguida – não sem uma dose de perversão – o alumínio observa que sobrevive à sua antiga senhora (“Acabou pele. Mas eu não acabei. Eu sigo pra além da senhora…”). Estes são alguns questionamentos que Pareidolia consegue – com humor, apesar de tudo – suscitar e com os quais procura dialogar.

Em cartaz pela quarta vez, Pareidolia se destaca ao levar ao palco a temática do apocalipse de forma não-usual: boa parte da narrativa é conduzida pelo trabalho corporal dos atores. Para Cecilia Ripoll, atriz, diretora, dramaturga e uma das integrantes do grupo, a temática colabora com a vontade de sempre reformular e reencenar o espetáculo. “O nosso imaginário sobre o fim dos tempos oscila e se modifica de acordo com o que vai sendo apresentado pelo tempo presente. Por exemplo: o fato de recentemente terem subido ao poder figuras como Trump, Temer… são figuras que dão novas caras ao apocalipse. Saber que, caso venha um apocalipse, será depois disto, ou saber que isto mesmo já seja em si o próprio apocalipse, traz para nós novas perspectivas sobre o que seria esse pós-fim-do-mundo. Esta é uma noção radical que faz com que o trabalho permaneça em movimento”, destaca Cecilia.

A crítica da diretora fica patente no momento em que o ator Ademir de Souza, em gromelô (técnica vocal onde o ator confere entonação a balbucios e grunhidos, parecendo realmente dizer algo e, no meio, soltando algumas palavras que possam somar-se ao sentido da cena), começa a revelar o que parece ser o (não menos crítico) poema anti-slogan beba coca-cola, de Décio Pignatari e que vai se transformando aos poucos em “ma qui mama qui ma ma qui donald ma qui donald trump”, sugerindo a estreita ligação entres as grandes corporações que promovem um consumo inconsequente e os atuais representantes do fim dos tempos.

Somente em sua quarta encenação, no entanto, o espetáculo ganhou falas: o nome Gestopatas, soma da palavra “gesto”, que pode significar tanto um ato corporal que expressa algo quanto um processo geracional, como na palavra “gestação”, com o prefixo “patia”, proveniente da palavra grega páthos que, em termos gerais, pode significar tanto “paixão” quanto “doença”, deixa evidente que o gestual é marca fundamental do grupo. Sobre esta característica, Cecilia Ripoll comenta: “O Gestopatas vem de um desejo nosso de estudar com mais detalhamento os procedimentos do gesto e o gesto pensado em suas múltiplas possibilidades: não só o gesto pensado em sua forma cotidiana, mas também a palavra como gesto, a luz como gesto. Principalmente quando não se tem a palavra como fator determinante da narrativa, a luz entra como dramaturgia possível”. Desta forma, trabalho corporal e iluminação aliam-se para dar ritmo e criar momentos de tensão ou relaxamento durante as cenas.

Uma característica marcante da peça é o trabalho com máscaras. Foto: divulgação

Outra característica marcante é o trabalho com máscaras. Ao invés das máscaras tradicionais, o grupo faz uso de escorredores de macarrão, galões, garrafas pet e se vale da iluminação para acentuar as expressões dos habitantes híbridos desta terra devastada. Não apenas isto: a integração dos elementos, ao longo dos anos de pesquisa, fez com que o grupo concebesse seres que envolvem a atuação conjunta de mais de um ator, além dos objetos. A fusão de trabalho corporal e máscaras remete a origem do grupo: “Surgimos a partir da trajetória da Companhia do Gesto, que nasceu em 1986, quando Dácio Lima chega da França, tendo estudado na escola de Jacques Lecoq, e torna-se aqui um dos pioneiros desta linguagem gestual”, explica Cecilia. “Eu, Ademir de Souza e Tania Gollnick nos identificamos muito em relação à maneira de criar e à disponibilidade para a pesquisa e criamos o Gestopatas, que chamávamos de ‘braço da Companhia do Gesto’, mas hoje é um corpo inteiro e único, embora mantenha o diálogo com as suas raízes”.

O resultado destes experimentos é um trabalho criativo e ousado, que não abre mão nem da estética ou do teor crítico. Pelo contrário: a destreza de sua manipulação técnica e a concisão verbal parecem tornar o trabalho inteligente e inteligível, na medida em que apresentam um produto artístico de qualidade e evitam uma discussão conceitual (e excludente) de temas tão complexos. Cecilia afirma que os Gestopatas buscam esta integração de forma consciente: “É parte dos nossos esforços enquanto grupo. Não tem nada que me incomode mais do que este discurso que opõe um trabalho refinado a um trabalho popular. É um discurso com o qual volta e meia a gente se depara e que penso ser mentiroso”.

Além de Cecilia Ripoll, os Gestopatas têm em sua atual formação os atores (chamados pelo grupo de “intérpretes criadores”) Ademir de Souza, Jan Macedo, Julia Pastore e Tania Gollnick. O CCJF (Centro Cultural da Justiça Federal) fica na Cinelândia. As apresentações começam às 19h. Duração: 55 minutos. Classificação etária: 12 anos. Ingresso: R$40 / Meia: R$20.

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