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RIO – Otávio Júnior, idealizador e coordenador do projeto Ler é dez, Leia Favela, fala, nesta entrevista, das motivações que o levaram a pensar o projeto, as dificuldades da empreitada, além dos sonhos.

Rodolfo Targino: Otávio, como surgiu a ideia de criação do projeto Ler é dez, Leia Favela?

Otávio Junior: O projeto Leia Favela, surgiu a partir de uma inquietação em não ver as crianças lendo no ambiente comunitário. A biblioteca mais próxima da comunidade, ficava a uns três quilômetros. Então, o objetivo do Ler é dez, é aproximar essas crianças do mundo da leitura e dos seus benefícios através de contações de histórias e de oficinas de leitura para incentivá-las a lerem. Assim surge o projeto, a partir dessa inquietação.

R. T.: Em seu livro, O livreiro do Alemão, você retrata que a primeira vez em que teve contato com os livros foi no lixo e hoje você está na Bienal tendo acesso à milhares de livros. Na sua opinião, eventos como esses contribuem para a democratização da leitura?

O. J.: Sim, porém deveria ser mais democrático. Deveriam existir mais transportes nas comunidades para trazer o público comunitário na Bienal para eles terem uma integração com a leitura e também para proporcionar às crianças das comunidades, o acesso à Bienal. Ainda tem muita coisa para ser trabalhada; muitas questões, como por exemplo, aproximar essa galera do objeto livro, dos autores, dos ilustradores, das revistas e do editorial.

R. T.: O Complexo do Alemão passou por intervenções Militares. Recentemente, houve conflitos entre os Militares e a comunidade. Você acha que a política do Governo do Rio de Janeiro, com as Unidades de Polícia Pacificadora pode contribuir para que a comunidade venha a ter acesso aos direitos básicos, para que o acesso à educação e a leitura possam ser mais efetivas dentro das comunidades?

O. J.: Sim, isso tem de ser difundido, essas questões sociais. O trabalho de combate à violência, a meu ver, deve ser democrático; tem que democratizar o acesso à educação e a cultura para formar uma nova geração de pensadores. Essa questão da violência precisa ser trabalhada com cultura e educação. Tem que democratizar o acesso à informação nas comunidades.

R. T.: Seu projeto já tem uma visibilidade. Você conta com algum tipo de parceria do poder público ou até mesmo do setor privado?

O. J.: Então, o projeto “Ler é Dez, Leia Favela”, tem dois mantenedores: o Instituto Kinder do Brasil e a Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica (Afeigraf). São duas Instituições não Governamentais. Nosso projeto é de pessoa física. Nós temos dificuldades na captação de recursos, porém eu sou um apaixonado por livros e por literatura. Faço de tudo para que o livro chegue aos potenciais leitores de comunidades, então eu acabo cedendo meus direitos autorais e as minhas palestras em prol do projeto. Eu quero ver uma comunidade leitora; eu quero que o Complexo do Alemão se torne a maior biblioteca a céu aberto do mundo; eu quero ver as crianças lendo.

R. T.: Nessa trajetória de existência do seu projeto, você tem algum fato ou uma história que te marcou?

O. J.: Na verdade, são muitas histórias. Um fato que até para mim é novo, foi ter essa visibilidade da comunidade. Porque essa visibilidade são as pessoas da comunidade que vêem; elas não assistem a programas da TV Brasil, não lêem os jornais de ponta. Então a visibilidade da comunidade é a melhor que tem. Eu faço palestras nas escolas em torno da comunidade; na associação de moradores e nas ONGs. Na semana passada, caminhava pelas ruas da comunidade e estava tendo uma feira livre. Em cada esquina, eu era parado pelas crianças das escolas. Elas perguntavam quando eu iria retornar à escola com os livros. Elas comentavam que tinham gostado das palestras e estavam lendo mais. Então essa visibilidade é a melhor do mundo: o reconhecimento da comunidade. Fico muito feliz com esse trabalho.

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