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RIO – Como a maioria dos bibliotecários, Almeida Júnior caiu de paraquedas na Biblioteconomia: “Fui fazer Biblioteconomia por acaso. Não sabia exatamente o que era”. Recentemente no Rio onde participou do Encontro Nacional de Educação em Ciência da Informação (ENECIN), o professor aposentado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina falou com a equipe da Revista Biblioo. Entre outras coisas falou sobre as discussões acerca da necessidade da aproximação das áreas que trabalham com informação, a exemplo da Biblioteconomia, da Arquivologia e da Museologia.

Emilia Sandrinelli: Professor, o senhor poderia contar um pouco da sua trajetória na área? Desde como se interessou pela pesquisa da Ciência da Informação até chegar à Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN)?
Almeida Júnior: Fui fazer Biblioteconomia por acaso. Não sabia exatamente o que era. Imaginava que o fato de gostar de ler faria que eu fosse um bom bibliotecário. Imaginei que seria esse o meu trabalho e depois descobri que não era nada disso. Depois de um ano de curso, comecei de fato a me interessar e achei que esse era o meu caminho. Então eu entrei na Biblioteconomia achando que seria a área, mesmo sem conhecer, iria desenvolver atividades nela até onde podia. Essa foi minha ideia. Durante o curso sempre trabalhei com cultura. Fiz teatro amador durante muitos anos. Até hoje escrevo um pouco. Tenho poesias, contos e crônicas publicados. Sempre tive uma relação muito forte com a cultura. Imaginei que o trabalho que desenvolveria seria na área cultural e, por acaso, a vida me levou para outros lados. Fui para a biblioteca universitária, trabalhei em biblioteca especializada, montei centro de documentação e informação, tive uma empresa na área, mas em biblioteca pública e ação cultural acabei trabalhando pouquíssimo. O que imaginei fazer na área acabei não fazendo. Descobri que o trabalho que mais gostava na área era com o público, então me identifiquei com o serviço de referência e informação. Fui para esse caminho até o ano de 1986, quando fiz um concurso para professor na Universidade de São Paulo (USP), ainda sem mestrado, e, por acaso, consegui uma vaga de professor. A disputa foi grande com muita gente querendo. Eu já sabia que o meu caminho na área, além de trabalhar com o público, seria na docência. Já tinha essa percepção e trabalhei como professor em cursos de segundo grau. Existia na época, dentro do curso de secretariado, uma disciplina que era Biblioteconomia e Arquivologia, e, quando fiquei desempregado, ministrei essa disciplina e amei. Comecei a trabalhar como professor e fiz o mestrado e o doutorado. Nas pesquisas, sempre trabalhei com informação e sociedade e, hoje, dentro de informação e sociedade, eu entendo assim, trabalho com mediação. Esse é mais ou menos o meu trajeto.

E. S.: Como você enxerga a situação do ensino da Biblioteconomia atualmente?
O.F.A.J.: Acho que precisamos sempre discutir. Currículo, por exemplo, é algo que não pode ser estático, ele tem que ser alterado, tem que ser discutido e repensado constantemente, não só vinculado às exigências e demandas do mercado. O mercado é um dos pontos que devemos buscar na hora de definirmos o tipo de currículo. Na verdade a coisa funciona assim. Quando você vai montar um currículo para formação, a primeira coisa que se faz é determinar: quem é o profissional que eu quero formar? O que é essa área? É isso que temos de definir inicialmente. Depois você começa a construir o que é preciso para formar esse profissional. A última coisa que se faz é a matriz curricular, mas as pessoas dão tanta importância para a matriz que ela passa a ser, às vezes, superior ao projeto político pedagógico. A formação tem que estar sempre buscando, sempre alterando, sempre entendendo a área. Às vezes as pessoas me perguntam assim quando entram no primeiro ano: “O que faz um bibliotecário? Mas me diz rapidinho, porque as pessoas estão me perguntando, o tal do Biblioquê?”. Espero, no final do semestre da disciplina que eu leciono, Fundamentos I, que as pessoas entendam isso: para mim, o bibliotecário é aquele que medeia a relação entre necessidade informacional e as informações que satisfazem essa informação e que estão espalhadas no universo informacional. O que estudamos no momento é para propiciar isso, essa mediação. O profissional bibliotecário é aquele que medeia essa relação, a necessidade informacional. E medeia é a palavra correta. As pessoas às vezes ficam meio preocupadas com media. Não, é medeia. Então é a pessoa que faz isso: medeia a necessidade informacional e as informações que satisfazem essa necessidade. Mas a necessidade de informação vem do usuário. Você precisa conhecer o usuário, precisa de estudos de usuários, estudos de comunidades e necessidade. Você precisa conhecer. Então para isso temos uma série de atividades. As informações que satisfazem essas necessidades estão organizadas dentro de um espaço, elas precisam ser organizadas. Aquilo que o usuário precisar nós vamos recolher, preparar, armazenar. Temos todo um trabalho para que esse momento principal aconteça.

E. S.: Durante o Encontro Nacional de Educação em Ciência da Informação (ENECIN), falou-se muito sobre a criação de um currículo base que faria a integração entre Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia. Qual a sua opinião sobre isso?
O.F.A.J.: Eu acho que não é bem essa a ideia. A ideia é que temos pontos que são comuns e que podemos ligar. Na verdade, já existem cursos que trabalham assim, com pontos em comum e que são trabalhados de maneira em comum também. Não queremos integrar nada. Não é nenhuma proposta de integração. Ao contrário, é uma aproximação. Cada área tem suas especificidades e elas tem que ser consideradas. Mas temos algumas coisas em comum que precisam aflorar de alguma forma. Aflorando, nós precisamos trabalhar em conjunto. Essa é a nossa ideia, de nos aproximarmos, de conversar sobre o que é pertinente, comum, individual ou específico de cada uma. É mais ou menos essa a ideia.

E. S.: A ideia de como é na área da saúde, por exemplo, o início é comum para vários cursos…
O.F.A.J.: Cada curso vai determinar isso. Por exemplo: a Universidade Estadual Paulista (UNESP) tem Biblioteconomia e Arquivologia. Tem disciplinas que são comuns no primeiro e segundo semestre. Às vezes no terceiro e quarto, essas disciplinas são dadas, se existe interesse em comum pelas duas áreas essas disciplinas vão trabalhar em conjunto. Isso na Universidade de Brasília (UnB), a ideia básica, no início da UnB, em que lembro o Antônio Miranda falando, é de que houvesse um trabalho próximo. Existe uma ideia hoje na USP (Universidade de São Paulo), do Luis Milanesi, de formar uma base comum. Seria um profissional que não sei como chamaria, mas o curso se chamaria Informação e Cultura e depois de três anos o aluno faria mais dois anos em Biblioteconomia, Arquivologia ou Museologia. Existem muitas propostas que estão por aí.

E. S.: Qual o papel de eventos da área como o ENECIN, o Encontro de Escolas de Biblioteconomia do Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU)? O que eles desempenham para o avanço do ensino de Biblioteconomia?
O.F.A.J.: Acredito que são espaços de discussões, porque nós somos muito atualizados. O professor, principalmente, porque ele entra em sala de aula e ministra uma disciplina e ele tem alguns momentos de conversas, ou o colégio invisível, isso temos constantemente no cafezinho. Mas existem professores, por exemplo, que são contratados e aparecem nas escolas com menos frequência. Eles não tem contato. Nós não sabemos as diferenças de outras escolas porque nós mal conseguimos dar conta de todo trabalho que nos é solicitado pela instituição na qual trabalhamos. Toda vez que tem um evento onde congrega professores e temas que são de interesses comuns, eles sempre trazem coisas boas e são fundamentais. Para mim não vejo de outra forma. Você sente nos professores a necessidade de discutir com outros os problemas que vão enfrentar.

E. S.: Quais são os focos de atuação da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação ( ABECIN) nos últimos tempos?
O.F.A.J.: A ABECIN ficou um tempo mais ou menos parada e estamos retornando agora. Muita coisa não estava sendo desenvolvida. Nós fizemos um programa de fôlego. Não vamos conseguir realizar tudo em três anos de gestão, é evidente, porque temos a perspectiva de trabalhar a longo prazo. Agora em novembro vamos retornar com o prêmio de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que é um projeto antigo, mas que vamos retomar. Em novembro ou dezembro vamos publicar e-books, vai ter TCC publicado como e-books. No ano que vem vamos começar com uma revista de Educação em Ciência da Informação; uma revista específica para a área de Educação. Nós vamos criar um repositório de boas práticas na área. Temos muitas coisas e propostas que estão sendo implantadas e efetivadas.

E. S.: Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco do seu site, o INFO HOME (https://www.ofaj.com.br/). Como surgiu essa iniciativa? Como é a receptividade?
O.F.A.J.: Em 2002 nós tivemos uma greve na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Eu era professor nessa época na UEL. Sou aposentado lá, mas tenho um vínculo com essa Universidade até hoje. Nós entramos em uma greve que durou seis meses. Foi a maior greve que se conhece na área de Educação no Brasil, e chegou uma hora que não sabíamos mais o que fazer e nem os alunos. A greve foi de setembro de 2001 até março de 2002. Os alunos que estavam se formando ficaram desesperados porque havia a perspectiva de perder o ano. Era uma loucura. Eu ministrava uma disciplina no quarto ano para esses alunos e, como sempre participei das atividades de greve. Sempre sabia o que estava acontecendo. As pessoas me ligavam para saber o que estava acontecendo, o que tinha sido discutido na assembleia. Assim tive a ideia de criar um blog para informar os meus alunos sobre isso. Aproveitei que estava em greve mesmo e coloquei alguns textos para a leitura dos alunos. Comecei a trabalhar com esse blog simples. Alguns amigos que ficaram sabendo pediram para abrir e, quando comecei a abrir, percebi que havia uma procura. Acabei transformando o blog em um site, começou a crescer, coloquei umas coisas novas. Tem uma série de ideias novas que não consegui implantar porque sou sozinho na administração do site, mas no ano que vem ele vai mudar; vai ter um novo layout que já está pronto. Vamos transformar a parte de colunas em revista. Uma revista voltada para quem atua na área. Não é uma revista acadêmica e voltada para o profissional, porque ele é muito esquecido. As revistas parecem escrever muito para a área acadêmica e não queremos isso. Temos que escrever também para quem está trabalhando no dia-a-dia. Então tem um espaço, que vai ser a “inforhomezinha”, destinado para crianças, mas que não vai dar para ser implantado agora porque precisamos de pessoas que desenhem; voltado para a criança poder conhecer o que é Biblioteconomia, o que é leitura, o que é mídia, o que é informação, o que é documento, o que é filme, essas coisas. A ideia foi essa. Começou a crescer e eu não consegui mais controlar e não tem mais fim. Temos 12 ou 13 mil pessoas acessando por mês. É um número razoável para área; é bem grande, eu acho.

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