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Quando recebi o convite para participar do Bibliocamp deste ano,  resolvi falar não sobre documentação audiovisual, minha luta de sempre, mas sobre guerrilha.

Guerrilha? Como assim? Metralhadoras e assaltos a bancos? Não, nada disso. Guerrilha é apenas uma ideia que acompanha há algum tempo, meio a sério, meio de brincadeira, minha prática profissional na Universidade de São Paulo.

Gente que trabalha em ambientes autoritários e excessivamente hierarquizados, se não quiser entrar na briga pelo exercício do poder em cargos de chefia, corre o risco de passar o tempo todo cumprindo ordens. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é uma frase que se ouve muito na USP. Para os que têm mais ideias, senso crítico e espírito rebelde do que esse juízo, resta partir para a guerrilha. O que chamo de guerrilha pode incluir tanto aquelas ações conspiratórias que a gente faz mais ou menos nas sombras quando é impossível se expor, quanto o confronto aberto com o poder por meio da organização dos trabalhadores. A guerrilha pode se dar não apenas na esfera da luta política propriamente dita, mas na “cozinha” das nossas bibliotecas. Chamar estudantes para fazer um barulhinho e estimular uma direção indiferente a dar atenção às questões da biblioteca; recorrer ao sindicato para resolver um problema que os canais supostamente competentes decidiram ignorar; atormentar um mau administrador até que ele peça para sair; armar pequenos complôs para implantar um novo serviço contra a vontade de quem manda. Quem nunca usou recursos semelhantes, que dispare a primeira rajada.

Os adeptos dessas práticas talvez nem adotem o nome “guerrilha”, tão radical e exagerado, mas penso que é exatamente isso o que devemos fazer. Precisamos não apenas de uma palavra expressiva para nomear nossas práticas de resistência e de enfrentamento, mas de um conceito com carga política forte que aglutine as ações dos “sem juízo” – de agora em diante denominados “guerrilheiros”. Mais um termo para ser incorporado aos nossos vocabulários controlados e com mais urgência ainda aos descontrolados.

Em inglês o conceito já existe há algum tempo, e só descobri isso enquanto preparava minha apresentação para o Bibliocamp, pensando em que diabos iria falar sobre isso. Guerrilla libraries são bibliotecas montadas nem sempre por bibliotecários, em locais onde haja pessoas precisando delas, como bares, praias e ocupações. Gerrilla librarian já é até verbete da Wikipedia e nome de um blog bem simpático de uma colega americana com cara de atriz de filme independente.

No Brasil o Oswaldo Francisco de Almeida Junior escreveu sobre biblioteconomia guerrilheira, explicando que a biblioteca guerrilheira “é aquela que abre espaço para as informações que atendem aos interesses e necessidades de sua comunidade”, que “defende, evidencia, deixa claro que o povo faz cultura a todo momento”. É uma biblioteca que trabalha nas beiradas, nas periferias das mídias hegemônicas, trabalha com suportes informacionais diferenciados, com pouca tecnologia”.

Moreno Barros também usou o termo “guerrilha” associado à biblioteconomia em seu artigo de 2013 sobre a morte de Aaron Schwartz, e com esses dois exemplos já podemos dizer que temos literatura brasileira sobre o assunto. Talvez até existam mais textos, basta procurar direito.

E lá no Bibliocamp, o que foi que encontrei, vocês adivinham? Claro, um bando de alegres guerrilheiros de todos os tipos e tendências. Nem todos são bibliotecários, mas transitam basicamente no mesmo universo. São pessoas que trabalham com a cultura da periferia da metrópole; que montam bibliotecas não para emprestar, mas para doar livros; que fazem movimentos para abrir bibliotecas ou para impedir que fechem; que enfrentam processos por acreditarem na liberdade de expressão ou no princípio da livre circulação da informação. Gente que tem a capacidade de atrair e reunir no mesmo espaço guerrilheiros de todo o país, assim despretensiosamente, como quem não quer nada.

Neste momento em que monstros de todos os tipos parecem se erguer das sombras e rosnar sua fúria nas ruas, no congresso nacional e sobretudo na mídia, mais do que nunca a ideia de guerrilha faz todo o sentido. Não somos poderosos, mas podemos surpreender, atormentar, criar para o inimigo todo o tipo de dificuldades. No mínimo, esses biblio-guerrilheiros têm um exemplo de generosidade, rebeldia e resistência a oferecer para a molecada que está saindo agora das universidades sem muitas esperanças na profissão.

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