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Por Ana Paula Lisboa de O Globo

Uma das coisas mais bonitas que ouvi desde que comecei a ocupar esse lugar de escrevente foi: “Ana, depois de ler sua coluna eu fico feliz”. Desta vez não pretendo que seja assim. Espero que, ao terminar a leitura do texto desta quarta, ninguém esteja feliz.

O possível impeachment da presidenta Dilma tomou todos os meios de comunicação nos últimos meses e “não há outro assunto”, como bem relatou minha companheira de coluna Maria Ribeiro. Maria explicou melhor do que eu poderia que existe, sim, um país dividido, mas não politicamente.

Minha teoria sobre o porquê de a maioria absoluta dos manifestantes — de esquerda e de direita — ter curso superior é bem simples. “Os outros” têm uma coisa muito mais importante a fazer que bater panelas ou balançar bandeiras vermelhas: lutar pela vida. Aqui falo da vida no seu sentido mais primitivo: aquela coisa a que supostamente todo mundo tem direito.

Só faz dois anos que me dei conta da morte. A mulher mais velha da minha família, Tia Maria, está firme e forte com seus 98 anos. E o fato de eu vir de um lugar com muitos nascimentos e poucos enterros não me preparou.

Imagine meu susto ao ler os dados divulgados na campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, e descobrir que “o Brasil é o país onde mais se mata no mundo, superando muitos países em situação de guerra. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas. Destas, 30.000 são jovens entre 15 e 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticada por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados”.

Há algumas semanas, eu estava balançando alegremente minha bandeira vermelha na janela, gritando nas ruas. Podia ter esquecido as estatísticas por um momento, mas é difícil esquecer que vários dos que estão na Comissão do Impeachment são os que pregam contra a descriminalização do aborto, “pelo direito à vida”, e os mesmos que fazem coro de que bandido bom é bandido morto.

Até que novos corpos caíram: Cidade de Deus, Manguinhos, Mangueira, Jacarezinho, Acari.

E mais agudas que as estatísticas são as vozes. Já ouviu a voz de uma mãe embargada contando sobre o assassinato do filho? Mães não deveriam enterrar seus filhos. As mães pretas, menos ainda.

“As notícias que chegam direto do campo de extermínio dão conta de pelo menos mais três mortos”, postou um amigo. As mídias sociais têm cumprido o papel da visibilidade, da outra versão da história contada nos jornais do meio-dia. É que tráfico de drogas é punido com pena de morte no Brasil, sabia? Favelados não vão para rua gritar se vai ou não ter golpe porque estamos sendo golpeados desde sempre, sabia?

Cinco pessoas foram mortas numa operação policial na favela de Acari no último dia 4. Segundo a Polícia Federal, a intenção era cumprir um mandado de prisão — que não foi cumprido. Só que, ainda assim, a operação foi tida como “bem-sucedida”. Bem perto dali, na Pavuna, há apenas seis meses cinco jovens foram mortos, fuzilados dentro de um carro, você se lembra? Eu me lembro de dormir mal naquela noite e de acender uma vela pelas almas dos jovens. Porque, mesmo sem ter religião, eu acho que deve ser difícil morrer — tanto quanto viver —, ainda mais quando se é jovem.

A polícia é treinada para combater o inimigo, para matá-lo. Preparada para a guerra, a conquista de territórios e a repressão. Mas é importante ressaltar que toda essa preparação não é posta em prática em qualquer lugar, com qualquer “cidadão”. Na favela, diferentemente de outras áreas da cidade, a polícia tem aval para matar, sabia? Mas quem deu esse aval? A certeza da impunidade, o sistema de Segurança Pública e, principalmente, nós. Nós, sociedade, que, segundo a Sociologia, é aquele conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade.

Seja quem for que governe este país a partir do mês de maio precisa trazer para a pauta a reforma da polícia. E cabe a nós, sociedade, cobrar por uma política de segurança pautada não na guerra às drogas, mas na proteção da cidadania: a minha, a sua e a do policial.

Até lá, é preciso desnaturalizar as mortes, a violência, a violação de direitos, romper o silêncio e a indiferença seletiva.

No ano passado, eu estava nos Estados Unidos na época da onda de manifestações, quando mais um jovem negro foi assassinado pela polícia de lá. Vi o noticiário orgulhosa das pessoas nas ruas e acompanhava outros brasileiros também orgulhosos da comunidade negra americana. Mas, quando uma comunidade de Madureira resolveu queimar ônibus do BRT em protesto contra a morte de uma criança, vi os mesmos “Je suis Baltimore” chamarem os manifestantes de vândalos.

Quando meu irmão foi assassinado pela polícia em 12 de fevereiro de 2014 (mesma data em que eu faria 19 anos), queimaram ônibus na Rua Barão do Bom Retiro, no Engenho Novo. Ninguém da minha família participou: estávamos todos sentados numa escada, revezando choro e silêncio, impedindo que a polícia mexesse no local, enquanto esperávamos o IML e a perícia chegarem. Não fomos nós, mas uma comunidade indignada com a covardia.

Eu espero você não esteja feliz. Mas que, como eu e tantas outras famílias, transforme a infelicidade não em ódio ou rancor, mas em luta.

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