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Mário de Andrade é sinônimo de brasilidade. Uma daquelas personalidades que moldam o seu tempo, desconstroem as velhas estruturas e não se cansam de buscar o novo. Um dos principais idealizadores da Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade fez de sua vida uma constante busca pela alma brasileira, nas manifestações populares, nas tradições, na literatura, na musicologia, no folclore. Sua literatura tentava abarcar as múltiplas faces do Brasil, suas riquezas nas danças, nos causos, nas lendas, nas cantorias. Ser moderno para Mário de Andrade era mostrar o Brasil desconhecido para os brasileiros. Esse homem se sabia plural, conforme diz em sua poesia: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. É de iniciativa de Mário, por exemplo, a criação de um grupo de pesquisas folclóricas, ligado ao departamento de cultura de São Paulo, que percorreu o nordeste e o norte do país para gravar diversas manifestações populares. Ou seja, Mário é a própria voz da modernidade brasileira. Mas essa voz olha pro futuro, sem esquecer da tradição.

Um Brasil de muitas faces e múltiplas vozes

O que será que esse homem verde-amarelo lia? Que autores privilegiava? Que temas preferia ler na ficção? Essa resposta pode ser respondida com o lançamento do livro Mário de Andrade: seus contos preferidos, que reúne 23 contos de autores variados. A coletânea organizada por Luiz Ruffato é o resultado de uma enquete muito antiga, feita pela Revista Acadêmica, ainda em 1938, cuja questão era: “Quais os dez melhores contos brasileiros?”. Alguns autores fizeram suas listas, tais como Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes… Mário de Andrade, no entanto, não obedecendo ao limite, afirmou que sua lista deveria ter pelo menos duas dúzias de contos. O modernista traça um panorama que, a seu ver, mostraria a singularidade da tradição do gênero conto no Brasil. Inicia com Álvares de Azevedo, um dos pioneiros do conto no país, passando depois por Machado de Assis, Artur Azevedo, Monteiro Lobato, João do Rio, Lima Barreto, Alcântara Machado e outros contistas que a tradição não preservou. Mas todos os textos têm características ímpares e representam muito bem esse gênero de narratividade curta, cujo foco recai sobre a cena, o episódio; gênero de narrativa sintética, mas nem por isso, limitada.

E o que contam esses contos? Qual o discurso que eles apresentam? Mário tentou traçar, pelos contos, um país dividido entre o campo e a cidade, o rural e o urbano. É claro que Mário opta por apresentar contos cujo discurso penetra na tradição popular, apresentando um Brasil múltiplo, de personagens variados, de estilos também diversos. É importante, por exemplo, perceber que, apesar de Monteiro Lobato ter sido um dos grandes críticos (destrutivos) do grupo que tentava trazer a modernidade às artes brasileiras, figura merecidamente na lista seu conto “A vingança da peroba”, conto que mais parece um causo, numa linguagem bem coloquial. Isso prova que Mário sabia reconhecer em Lobato traços da modernidade que seu grupo queria propor ao país.

“Dize-me com quem andas e eu te direi quem és”.

Esse provérbio popular pode ser adaptado para: “Dize-me o que lês e eu te direi quem és”. Ler os contos preferidos do Mário de Andrade permite ao leitor perceber exatamente qual era o projeto de brasilidade do autor e musicólogo; é possível perceber sua predileção pela língua portuguesa flexível do povo, oral, sonora, melodiosa. É também possível ver o gosto pela erudição, quando escolhe pelo menos três contos de Machado de Assis (O alienista, O enfermeiro e A causa secreta).

Ao final do livro, a editora apresenta um fac-símile da enquete promovida pela Revista Acadêmica com as respostas de todos os autores entrevistados. Numa rápida olhada é possível perceber já os autores que a tradição privilegiaria como grandes contistas. Certamente, surgirão dessa enquete outras coletâneas, já que nosso tempo se volta para o passado na tentativa de resgatar a alma e o sentimento de brasilidade pela literatura. É uma outra redescoberta do Brasil?

 

Livro: Mário de Andrade: seus contos preferidos

Organização: Luiz Ruffato

Editora: Tinta Negra

Ano da edição: 2011

Páginas: 312

Livro: Mário de Andrade: seus contos preferidos

Organização: Luiz Ruffato

Editora: Tinta Negra

Ano da edição: 2011

Páginas: 312

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