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Na última quinta, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, pediu para recolher exemplares do romance gráfico “Vingadores, a cruzada das crianças” (Salvat), durante a Bienal Internacional do Livro. A obra traz a imagem de um beijo entre dois personagens masculinos.

De começo não entendi a do Crivella. Afinal de contas, os livros eram vendidos lacrados e a capa não tinha nenhuma imagem de conteúdo erótico. Bobinho eu: sua decisão tinha por fim deixar cada vez mais claro que as regras do jogo tinham mudado, e que o rei do tabuleiro não permitiria que narrativas consideradas impróprias para a sua visão de mundo e do grupo do qual faz parte fossem disseminadas, ainda que envolvidas em plástico preto.

Em outros termos, Crivella está fazendo política, e me parece que o seu eleitor adora esse tipo de marcação cerrada.

Não se pode ignorar que essa decisão da parte do prefeito evidencia um confronto claro e direto entre dois modos de se pensar e de se levar a vida: de um lado, um grupo político-religioso bem montado, decidido a transformar o Brasil numa grande nação evangélica. Dentro de sua lógica cruzadística, o outro, seja ele ateu, viado ou macumbeiro, só tem dois fins: a conversão ou o aniquilamento.

Isso justifica a presença massiva de ex-travestis e ex-pais de santo nos programas televisivos das igrejas neopentecostais. Esses ex-pecadores costumam pintar em tons vivíssimos a vida passada, marcada por um amplo leque de deleites sensoriais capazes de tirar qualquer um do bom caminho.

Talvez isso justificaria o temor do prefeito com a imagem de dois lindos super-heróis se entregando ao prazer de um beijo. Contudo, Crivella é político, e apenas político.

É em razão disso que o proselitismo aguerrido levado a cabo por esses políticos travestidos de pastores não me preocupa. O que me deixa assustado de verdade é o risco de que estes mesmos tipos e grupos terrivelmente evangélicos, após testarem e saborearem a eficácia de suas táticas de silenciamento de livros, peças e filmes, avancem despudoramente para os nossos quartos e quintais.

E não é para se inquietar com esses métodos brutais que violam as margens e fronteiras entre o público e o privado? Afinal de contas, se um beijo gay protegido por plástico preto encorajou o político Crivella a desembainhar a espada da intolerância, o que ele seria capaz de fazer com gente distinta e colorida, que se beija e abraça na rua, que se recusa a pagar o dízimo e a votar no seu cabresto?

Como bem disse o poeta alemão Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”

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