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“Sacrifique a imortalidade do eu e descubra a imortalidade de tudo o que existe”. (Ken Wilber, escritor e pensador norte-americano)

Leia a epígrafe acima. Agora, preste muita atenção na história que vou contar: duas pessoas são incumbidas de registrar a “biografia” da comunidade em que vivem. Cada uma, a seu modo, deve narrar os acontecimentos que foram importantes para a formação da localidade e da rotina de seus habitantes. Um dos responsáveis pela tarefa é um jovem pesquisador, cheio de disposição e de técnicas. Ele gasta muitas horas do seu dia revendo arquivos, papéis, documentos, coletando discursos e cotejando-os. O jovem quer ser o mais fiel e objetivo possível. Baseado no que aprendeu com seus mestres acadêmicos, ele quer traçar uma história de todos, com larga representação e alcance. O rapaz está convicto de sua capacidade imparcial de organizar falas, experiências e dados. “Só há um caminho, e esse caminho leva diretamente aos vestígios, aos fatos e as coisas como são”.

O segundo encarregado para realizar a tarefa é o oposto do jovem: Trata-se de um senhor perto dos oitenta anos, reconhecido como o morador mais antigo da comunidade. Durante todos esses anos, esse senhor conversou com as pessoas, vivenciou experiências, ouviu e repassou lendas e mitos, além de acreditar na força da história oral. No decorrer de sua existência, o respeitado sábio fez um diário, anotando o que acontecia no local, produzindo opiniões, afirmativas, conservando depoimentos e sublinhando o que julgava mais importante. Em quase oito décadas de vida, o ancião conquistou várias fontes e assinalou seus textos conforme suas expectativas, valores e anseios. O jovem pesquisador e o idoso morador decidiram não trabalhar em conjunto, já que discordavam em crenças e modos de trabalho.

A travessia foi feita de modo individual, e as conclusões foram entregues na data limite. Em uma bela manhã de sábado, os moradores da comunidade decidiram fazer uma grande festa com ares de reunião para escutar a história do lugar. Afinal de contas, aquela seria a história de cada um deles e de seus antepassados, filhos e netos. Sentada em um dos primeiros bancos, observando toda aquela feliz algazarra, eu estava ansiosa para saber qual era a verdadeira narrativa do lugar onde nasci e do meu povo; eu estava sedenta pelos detalhes que trariam à tona a minha história. Depois de alguns minutos, as autoridades locais pediram silêncio e trouxeram os dois responsáveis pela transcrição dos acontecimentos.

O lugar estava tenso para saber o que seria incluído e o que seria excluído. “Será que vão citar o clássico contrato que fiz com meu inimigo Antônio?”, pensava o mercador judeu Shylock. Já os filhos do burocrata russo Ivan Ilitch achavam de extrema importância a citação da morte do pai, um alpinista do serviço público. Os amigos do sorumbático Bento Santiago, conhecido no lugarejo como Dom Casmurro, também reivindicaram que sua trajetória de dúvidas e ilusões perdidas ao lado da mulher Capitu fosse devidamente citada. Todos possuíam uma opinião sobre o que era e o que não era importante para a comunidade, mas aceitaram os dois homens escolhidos como autoridades competentes para deliberar sobre o assunto.

No palanque armado, o jovem pesquisador carregava consigo pilhas de caixas contendo papéis, artefatos e outros documentos. Seguro de si, ele bradou em alto e bom tom:

– Queridos amigos e amigas, tenho o prazer de compartilhar com vocês o resultado de meu ardoroso trabalho. Não foi fácil coletar e organizar todo esse material. Acreditem, eu fiz o impossível para cumprir a tarefa para o qual fui designado! Mas hoje eu trago à vista a verdadeira e real história da nossa comunidade. Uma narrativa baseada na pesquisa aguçada, no rigor científico, nos métodos de coleta, organização e arquivamento de dados. Tudo o que está aqui escrito é somente o real, sem interferência de arroubos de espírito, paixões, opiniões ou tentativas de agradar terceiros. Nenhuma letra desses papéis foi inventada. Procurei ser criteriosamente fiel à realidade. A linguagem utilizada para escrever esses acontecimentos é coerente, direta e técnica. Nisso vocês podem confiar.

Assim que o jovem terminou seu discurso, o respeitado sábio apressou-se em dizer:

– Prezados amigos, vocês me conhecem há quase cem anos! Fui amigo dos avós de vocês, e depois dos pais. Agora sou íntimo da grande maioria de vocês e, futuramente, serei próximo de seus filhos e netos. Ainda terei forças para isso, se Deus quiser. Não prestem atenção às palavras juvenis desse mancebo. Essa papelada que ele traz é fruto da distância, de letras mortas, escritas e documentadas por gente que servia aos antigos administradores. Gente que vivia trancafiada em seus escritórios impecáveis e não levantava para ver a rua; pessoas que não sujavam a sola dos sapatos andando de casa em casa, ouvindo o que cada um de vocês tem para contar. O que esses papéis têm a dizer que os meus ouvidos não tenham escutado e minha boca não possa reproduzir? Em oito décadas – vejam bem, oito décadas! -, tomei nota dos principais acontecimentos dessa comunidade. Em mais da metade deles, eu estive presente. Conheço a grande maioria de vocês pelo nome e sobrenome, e posso repetir sem errar. Entendam que a verdadeira história desse lugar está escrita em meus diários, em meus livros e cadernos de apontamento. Os relatos de cada família, seus desabafos e sonhos, estão todos minuciosamente descritos. Confiem em mim!

Nesse momento, a comunidade entrou em polvorosa. Homens, mulheres, crianças e animais de estimação queriam desesperadamente saber em quem acreditar; qual daqueles dois homens teria narrado suas histórias sem desviar o curso, sem criar delírios e fantasias? Enquanto a disputa fervilhava entre os presentes, migrei meus pensamentos para algumas experiências textuais e visuais que recebi nos últimos meses. Em uma das aulas que frequento, descobri o artigo “Manoel de Barros e Mia Couto como instrumentais poéticos para pensar o ofício do historiador”, assinado por duas professoras e pesquisadoras da área. Para falar a verdade, eu não sou formada em História, mas tenho grande afinidade com esse campo de estudo, porque gosto de pesquisar, entender, descobrir e conhecer narrativas, pessoas, sentimentos e lugares. De uma forma geral, acabei encontrado conceitos que me ajudaram a absorver um pouco mais dos meus próprios desejos e do métier do jornalista-historiador – um híbrido possível.

Comecei a lembrar das discussões em sala de aula e fiz um paralelo com pontos interessantes levantados no artigo. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi o fato de que nada é o que parece ser. Alguns bons romances já levantaram essa questão. Não posso deixar de pensar em Franz Kafka e as fortes impressões de obras como “Carta ao Pai”, “A Metamorfose”, “O Processo” e “O Castelo”, por exemplo, quando fica evidente a ruptura proposta por Kafka no que diz respeito à separação entre racional e irracional. Na ficção do “judeu de Praga”, a realidade é um mosaico de rotinas; uma ponte estreita e quebradiça cujo fim é um abismo profundo e perigoso. Também sinto rastros da narrativa histórica nos textos do brasileiro Machado de Assis, com discussões sociais veladas pela ironia fina. Os personagens machadianos são reflexos de uma época perdida em relações de enfrentamento, ilusões de grandeza e interesses camuflados. É interessante notar que as observações de Machado de Assis atravessam séculos e persistem até hoje.

Impossível esquecer o contato que tive com Manoel de Barros, o poeta brasileiro da simplicidade e da criatividade viva, e com o escritor moçambicano Mia Couto. Os dois literatos falam, cada qual a seu modo, da existência de um mundo que explode para criar, e cria para explodir. A invenção, o real, o imaginário, a linguagem e o infinito universo das metáforas estão conectados à galáxia das ideias e das ações. No entanto, estamos tão obcecados em edificar verdades, dar dimensões aos fatos, coisas e pessoas, que esquecemos da força criadora que nos move e impulsiona. Nossa história é prisioneira da necessidade de ser comprovada, testada, submetida ao real. Mas de que real falamos? Será que tudo não passa de um efeito, já que o discurso histórico é construído por sentidos, interesses, subjetividades, rastros? Como lembra o texto das professoras que andei lendo, “a verdade histórica é construída discursivamente”.

Manoel de Barros parece saber bem disso sem precisar massagear o ego com teses parnasianas – aliás, tenho um palpite: talvez o criativo Manoel não suportasse muitos dedos de prosa com Olavo Bilac e seus parnasianos. Homens com ideias fixas de perfeição e exatidão; verdadeiras linhas retas sem bifurcações. E Manoel é um descaminho livre; desterritorializado, intenso. “É preciso transver o mundo”, diz ele em poema, nos gestos e palavras oportunamente guardados no documentário “Só dez por cento é mentira – A desbiografia oficial de Manoel de Barros”, direção e roteiro de Pedro Cézar, ano de 2008. Naquele longa-metragem, eu conheci um senhor que poderia ser meu avô, que vive simples, cercado pela natureza e pelas saborosas lembranças e invenções da infância.

Pela primeira vez na minha vida, eu ouvi alguém dizer: “Tudo o que não invento é falso”. E essa criação de mundos e de possibilidades recordam a humanidade e toda sua potência. É um panorama de “mãos vazias e imaginação cheia”, como diria o poeta, que me faz lembrar de outro senhor; um velho de aparência cansada e cinza, representado pelo conto “Uma mesa é uma mesa”, de Peter Bichsel. Nessa narrativa, um homem tenta mudar, reinventar sua rotina, mas acaba caindo na autodestruição imposta pela sociedade, suas normas, regras e universo de palavras ditas.

Nesse “mar cósmico” de pensamentos e reflexões, gostei de encontrar o escritor Mia Couto e sua vertigem pela escrita. Segundo o autor, a ignorância das palavras que irão despontar da sua mente, transcorrer as veias e desaguar nos dedos o faz escrever com a paixão das possibilidades, da “seleção das missangas” para figurar no jogo da linguagem. Os instintos e emoções fazem parte da nossa essência e da nossa escrita. Eles estão presentes em nossas falas, comportamentos e pegadas. Dessa forma, estou tentada a acreditar que a história relata os acontecimentos seguindo uma versão, um ponto de vista. O historiador faz uma escolha, opta por caminhos.

Continuo pensando sobre esse assunto. Creio que ele passará por muitas reflexões e inventividades no transcorrer da minha trajetória. Quanto aos dois homens com a incumbência de escrever a história da nossa comunidade? Bem, eles continuam discutindo em cima do palanque, formando públicos e angariando entusiastas. Esqueci de mencionar os nomes. O mais jovem se chama Real e o mais velho Ficcional. Algumas vezes eles trocam de nomes, invertem ideias. Mas vou deixar esse assunto para os próximos capítulos porque entre realidade e ficção, eu escolho as duas. Lembrando um historiador chamado Hayden White: “História e mito se fundem, fato e fantasia se misturam”. Ou ainda, retomando a epígrafe que iniciou esse texto, sacrificar a imortalidade individual é olhar e reconhecer outros universos, estar atento às conexões e lampejos de criação em tudo o que existe. Nada é definitivo. Nada é fechado. Dito de outra forma, segundo a poética compartilhada pelo mitólogo, pesquisador e teórico Joseph Campbell: “O homem não é senão o sonho de uma sombra”.

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