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Quando garoto, achava bacana ler, nas notas de dinheiro, a frase “Deus seja louvado”, porém, anos depois, ao entender o significado da palavra laicismo, passei a olhar com desdém… “[…] Vale ressaltar que um Estado Secular não implica a eliminação da religião. Pelo contrário, o Estado Laico deve garantir a liberdade religiosa e, deste modo, respeitar os traços religiosos que já se tornaram parte da cultura e da tradição do povo. A fé é um direito natural inalienável ao ser humano e não se relaciona com a noção de Estado”, atesta Roseli Fischmann em seu Estado Laico.

Para saber mais:

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66119

http://www.nepp-dh.ufrj.br/ole/posicionamentos3.html

http://www.nepp-dh.ufrj.br/ole/posicionamentos2.html

http://www.youtube.com/watch?v=qsK-eKAy9Xs

Nossos políticos resolveram, no atributo de suas funções, usar as folhas de nossa Carta Magna como papel de toalete, e, através da Lei nº 5.998 de 01 de Julho de 2011, obrigaram as bibliotecas do Estado do Rio de Janeiro a manter exemplares da bíblia sagrada disponível para os usuários…

Para saber mais:

http://www.legisweb.com.br/legislacao/?legislacao=578436

http://www.youtube.com/watch?v=vnSqwvQ7KnQ

Só o verbo “obrigar” me causa arrepios e pesadelos. Imagine ligá-la a bibliotecários que concordam com a nova imposição e ao esquecimento providencial de que o Estado deveria ser laico. Voilá! Ganhei uma enxaqueca para o mês inteiro. A democracia se faz assim: “O povo não deve temer o seu governo, o governo deve temer o seu povo” (V for vendetta).

Para saber mais:

http://www.youtube.com/watch?v=xNYeEF3FI4I

http://www.flickr.com/photos/suedehead79/3257609226/

Além de não apoiar a decisão, achá-la absurda e discriminatória, consigo ver dois pequenos probleminhas. O primeiro diz respeito à variedade de edições existentes. Temos a Nova Tradução para a Linguagem de Hoje, a João Ferreira de Almeida, a Ave Maria, revista e corrigida, a Bíblia dos Espíritas etc. Isso pode parecer pouca coisa, mas não é bem assim. Há diferenças. Vamos tomar o exemplo abaixo, do livro de Isaías:

Isaías 14:29 – “Não te alegres, ó terra dos filisteus, de que tenha sido quebrada a vara que te feria, porque da estirpe da serpente nascerá uma áspide, e seu fruto será um dragão voador”. (versão Ave Maria)

Isaías 14:29 – “Não te alegres, tu, toda a Filístia, por estar quebrada a vara que te feria; porque da raiz da cobra sairá um basilisco, e o seu fruto será uma serpente ardente, voadora”. (versão João Ferreira de Almeida)

Isaías 14:29 – “Vocês, filisteus, todos vocês, não se alegrem porque a vara que os feria está quebrada! Da raiz da cobra brotará uma víbora, e o seu fruto será uma serpente veloz”. (versão Nova Versão Internacional)

Isaiah 14:29 – “Rejoice not thou, whole Palestina, because the rod of him that smote thee is broken: for out of the serpent’s root shall come forth a cockatrice, and his fruit {shall be} a fiery flying serpent”. {cockatrice: or, adder} (sic) (Versão King James)

Cada um menciona um animal diferente. Mudaram as letras e as palavras.

1 Coríntios 4:6 – “E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito”.

E sabendo que os livros dos 3 Isaías[1] são livros proféticos, temos que levar em consideração o…

Apocalipse 22:19 – “Se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro”.

Para saber mais:

http://www.bibliaonline.com.br/

Então, que versão será usada? Eu não me incomodo com livros religiosos em bibliotecas. Acho que realmente deveriam estar lá. O problema é não haver uma Lei que obrigue as bibliotecas a disponibilizarem outros livros religiosos, tais como o Bagavad-Gita (Hindu), o Livro dos Mortos (antigo egito), os Upanishads (Hindu), Alcorão (Islã), o Zend Avesta (Zaratrusta), o Shri Guru Granth Sahib (Sikhismo), o Kebra Nagast (Rasta), o Mitzvá (Judaísmo), o Yoga Sutras (Yoga), o Tao Te ching (Taoísmo) e etc. Ou você achou que a bíblia era o único livro dito sagrado?

Para saber mais:

http://en.wikipedia.org/wiki/Religious_text (em inglês)

A proposta é claramente uma esnobada à laicidade do Estado! Defender qualquer favorecimento a uma determinada religião e obrigar que uma biblioteca tenha o livro da religião A é dizer que a religião A está correta e a B está incorreta. Qualquer obrigatoriedade deve ser ambígua ou relacionada a vários. A obrigatoriedade de um livro cristão em uma biblioteca judaica é, no mínimo, absurda. Obrigar que as bibliotecas estaduais e municipais tenham pelo menos um livro religioso de cada cultura é impraticável; e obrigar que tenha apenas de uma religião é absurdo, pois obriga a todos a concordar com uma visão arbitrária e contrária a uma clausula pétrea de nossa Constituição.

Para saber mais:

http://www.youtube.com/watch?v=eU3aWNQWjno&feature=related

Em segundo lugar, quem dá valor ao livro sagrado do cristianismo, já tem a sua, com versão adequada à igreja que freqüenta e essa lei acabará “não pegando” por causa do jeitinho brasileiro: falta de verba, fiscalização e de todos os inúmeros afazeres e problemas que os bibliotecários já são obrigados a enfrentar no dia a dia…

E você o que acha disso tudo? Compartilhe conosco!

Um político pensa na próxima eleição. Um estadista, na próxima geração.” (James Clarke). Já eu, acabarei como um velho chato, de tanto ser exigente e reclamão…


[1] Sim, TRÊS! Embora a teologia tradicional judaico-cristã defenda a existência de um único autor, respaldada por Eclesiástico 48:24-25, existem fortes evidências de que o livro foi obra de mais de um autor. Para saber mais:

http://marcosbittencourt.com.br/arquivos/um_dois_ou_tres_isaias.pdf

http://www.skoob.com.br/livro/37642-deus-e-o-estado

http://www.nepp-dh.ufrj.br/ole/textos.html

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4 Comentários

  1. Alan Muniz
    5 de agosto de 2011 a 19:55 — Responder

    Teoricamente eu achei válida essa argumentação apresentada, mas sendo realista vale lembrar o que o próprio autor disse:

    “Em segundo lugar, quem dá valor ao livro sagrado do cristianismo, já tem a sua, com versão adequada à igreja que freqüenta e essa lei acabará “não pegando” por causa do jeitinho brasileiro: falta de verba, fiscalização e de todos os inúmeros afazeres e problemas que os bibliotecários já são obrigados a enfrentar no dia a dia…”

    Então, quem quiser olhar uma bíblia e não comprá-la, poderá ter acesso. Além disso, o bibliotecário pode muito bem deixar essa obra no seu acervo, de acordo com a lei, mas deixá-la em um local sem destaque.

    Acho que deveríamos ter livros de religiões e filosofias nas bibliotecas públicas porque querendo ou não, isso faz parte da identidade cultural e da história do nosso mundo.

  2. 17 de janeiro de 2013 a 23:17 — Responder

    Ser contra a lei porque ela não vai "pegar"… Se levarmos em consideração o "jeitinho brasileiro", poderíamos então, seguindo a linha de raciocínio do autor, suspender um bocado de leis. Isso mais parece desculpa.
    Falta de verba? Mas é assim tão difícil conseguir bíblias de graça?
    Não será cumprida por falta de fiscalização? Vou fingir que não li isso.
    Conseguir uma bíblia pesa tanto nos "afazeres e problemas" que o bibliotecário tem? Ele não é pago para isso?
    Muitas versões? Mas o bibliotecário não tem autonomia para escolher? (sim!)
    Só para constar, sou contra lei

  3. Agulha3al
    22 de janeiro de 2013 a 14:18 — Responder

    A Questão central do Texto não é a bíblia em si! É a obrigatoriedade de um exemplar em cada biblioteca, O não respeito do Estado as inúmeras religiões em voga. Essa lei não deveria existir.

  4. 23 de janeiro de 2013 a 11:34 — Responder

    É por causa da obrigatoriedade que sou contra, e precisamente por esse ser o cerne do problema que considero as questões levantadas pelo autor (e copiadas no comentário anterior) bem irrelevantes.

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