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Após anos “arruando” e fotografando artes em cidades brasileiras por diversão e realizando preservação e indexação de imagens por profissão, o graffiti urbano se tornou o ponto de encontro entre essas duas práticas. E foi aí, que passei a observar a cidade e suas intervenções urbanas com um olhar de bibliotecária.

Para além das motivações pessoais, também observei que a discussão sobre graffiti e pichação ganhou destaque na mídia, nos festivais de arte e em espaços de discussão e estudo de patrimônio, história, sociologia, políticas públicas, artes e educação, mas não de maneira expressiva na ciência da informação no Brasil.

Segundo Celso Gitahy no livro “O que é graffiti”, o graffiti é uma forma de manifestação artística e humana que não se separa do princípio de liberdade de expressão. O graffiti apropriou-se de espaços da cidade e herdou traços de diferentes estilos artísticos, que sinalizam o conceito de cultura híbrida, ou seja, que deriva de diferentes mesclas interculturais, pelas quais perpassam relações entre tradição e modernidade, erudito e popular.

Ariano Suassuna fonte de inspiração para o graffiti. Foto: Georgia Lira / Acervo pessoal

O graffiti pode assumir um papel expressivo na conjuntura social, como objeto informativo, capaz de influenciar a produção de conhecimento dos indivíduos, em decorrência da apreensão das informações nele contidas a partir do contato visual.

Para as pessoas que transitam em espaços públicos é no processo de observação de um graffiti que a percepção de elementos estéticos — formas, cores, desenhos, pinturas, caligrafias e frases —, pode se transformar em uma experiência memorialística.

E nesse caso, a sensibilidade também faz parte da construção do conhecimento individual. A leitura de uma pintura ou de uma outra expressão artísticas se dá a partir da percepção de elementos que afetam o indivíduo, que pode ser por meio de sensações de entusiasmo ou desinteresse, de concordância ou discordância, de excitação ou incômodo.

Para além da subjetividade, o graffiti também pode refletir aspectos memorialísticos de um grupo social em um recorte espaço-temporal, representando indivíduos nas suas diversas formas de pensar e de estar no mundo. Os estudos memorialísticos investigam e refletem sobre aspectos sociais, culturais e históricos, na perspectiva temporal, e podem se apropriar de inúmeras direções quanto ao foco observacional desses aspectos.

Estudar o graffiti na perspectiva da ciência da informação indica que existem variadas fontes de extração informacional diferente dos documentos impressos convencionais. E ainda, que além de informação semântica também existe um outro tipo de informação chamada de estética.

Prédio vira tela de arte de rua. Foto: Georgia Lira / Acervo pessoal

A leitura da informação estética desencadeia emoções e seu estudo deve ser observado também no âmbito subjetivo. Com base na concepção kantiana, a estética tem um estado intermediário entre duas ordens: a ergásticas (razão e prática) e a semântica (razão pura). Portanto, quase toda informação estética apresenta elementos semânticos que, entretanto, não anulam sua natureza “sensível”.

A interpretação da informação estética, embora com forte apelo subjetivo, dialoga com a ciência e seus métodos. E na ciência da informação encontra nos estudos memorialísticos plano de fundo para fundamentação e investigação.

De acordo com Jacques Le Goff em “História e memória”, a memória como propriedade de conservar certas informações remete a funções psíquicas, pelas quais a humanidade pode atualizar impressões ou informações passadas.

Logo, o contato com a história por meio de intervenções urbanas como o graffiti resulta na apropriação da memória, de modo que a identidade de um grupo ou indivíduo se firma e se reafirma em um processo de autoconhecimento e reconhecimento enquanto sociedade.

O graffiti traz as percepções de informações e os valores culturais que moldam a memória coletiva de um povo, e que advém dos processos de subjetividade e da memória individual do artista. Assim, memória e percepção são elementos fundamentais para a criação, pois a lembrança é constituída de sensações adquiridas pela descoberta e apropriação de elementos culturais.

A partir destas considerações, o tratamento dos registros que defronta a história social dos indivíduos junto aos espaços urbanos e sociais confiados à palavra, aos artefatos culturais, as manifestações visuais e a tantas outras expressões, demonstra as diferentes maneiras de compreender o significado da memória na cultura.

O graffiti como intervenção artística direciona a reflexão para o papel que a informação estética pode assumir na construção do conhecimento, e consequente transformação do meio social, pela potencialidade que a arte tem de ligar os indivíduos entre si e o ambiente em que vivem.

A informação oriunda de objetos artísticos é uma forma de representatividade do social, e quando vista na perspectiva de documento é composta por uma linguagem de sentidos.

O graffiti é uma intervenção artística direcionada à reflexão. Foto: Georgia Lira / Acervo pessoal

No entanto, um ponto a ser ressaltado na investigação do graffiti é a sua materialidade, já que este quando feito em paredes e fachadas (públicas ou privadas) não é passível de guarda em uma instituição de memória com o suporte original em que foi feito.

Porém, a representação imagética e audiovisual do graffiti parece um simulacro eficiente a partir do qual podem ser analisados os aspectos memorialísticos que o graffiti apresenta.

Todavia, a fotografia que representa imageticamente um graffiti necessita de tratamento como documento iconográfico e de uma leitura com as informações necessárias para compreensão do momento histórico, para o qual o objeto faz-se como representação social.

A preservação da memória, no entanto, não se restringe apenas à manutenção do suporte físico dos documentos. As representações temáticas de conteúdo têm a função de acesso e disseminação da informação.

Logo, preservar a memória do graffiti por meio de representações imagéticas requer mais que procedimentos e métodos específicos para autogestão de acervos iconográficos. Tornam-se necessários procedimentos conscientes quanto ao conteúdo simbólico deste tipo de intervenção artística.

Deste modo, é relevante atentar-se ao caminho que é necessário percorrer para que se possam conservar informações contidas nos graffiti, pois este caminho perpassa pela materialidade na qual as artes urbanas estão inicialmente inseridas e pela representação imagética do graffiti que se torna uma documentação passível de recuperação e conservação.

Logo, a preservação da memória e das representações imagéticas de graffiti urbanos se tornam questões a serem pensadas e discutidas na ciência da informação.

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