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Observando os carnavais do Norte do país, é possível estabelecer uma diferença importante entre as manifestações populares legítimas e aquelas que foram incorporadas “na marra” aos festejos de uma localidade. Carnaval DO sudeste é carnaval DO Sudeste, enquanto carnaval DO Norte é somente carnaval NO Norte.

Os carnavais do Sudeste foram integrados à cultura local, de forma gradativa e espontânea. A adesão voluntária e natural de um número crescente de pessoas deu volume e importância aos maiores carnavais do Brasil, desde o surgimento até a grandiosidade exibida nos desfiles atuais. Vendo que o povo gostava e os turistas também, os governos passaram a criar estruturas e subsidiar os festejos.

Diferentemente dessa evolução natural, os carnavais do Norte tiveram um super desenvolvimento artificial, anabolizado pelas verbas públicas. O patrocínio governamental, empregado em subsídios a grupos carnavalescos, campanhas de marketing e criação de infraestrutura carnavalesca, empurrou o povo para o carnaval, com a mesma brutalidade que empurrou o carnaval goela abaixo do povo. Uma festa sem tradição, sem lastro cultural e com cara de alienígena, mera imitação do que acontece mais ao sul do Brasil. Seria bonito, se permanecesse do tamanho que merecia ser.

Não há como uma festa importada, inflada com verbas governamentais competir com o folclore local, rico, original e legítimo, capaz de empolgar desde os mais velhos até crianças. O carnaval no Norte não poderia ser páreo para as cirandas, as festas de boi, o carimbó, os festejos religiosos do interior do Amazonas e Pará, as festas que comemoram as safras de produtos agrícolas e os festivais de música. A fartura cultural em que o Norte está mergulhado não admite incorporações artificiais ou ilegítimas. Este lado do Brasil não é, nem deseja ser um lugar de grandes carnavais.

Deixa que eu deixo

Para se ter uma ideia da relação de dependência que existe entre o governo e o carnaval na Região Norte, pode-se considerar o caso de Roraima, cujo carnaval do ano passado não aconteceu. Isso mesmo: não houve carnaval em Boa Vista, porque o governo decidiu não patrocinar e nenhum empresário quis assumir a difícil (e nem sempre bem sucedida) logística de trazer uma banda ou artista famoso para puxar pelas ruas, um trio elétrico. O resultado desse  “deixa que eu deixo” foi uma cidade de mais de 200 mil habitantes sem carnaval de rua. Ninguém morreu por causa disso – na verdade parece até que menos gente morreu por causa disso.

Também é muito ilustrativo o caso de Rio Branco cujo carnaval acabou em 1991, quando o governo decidiu cortar a verba que repassava às escolas de samba, aniquilando o carnaval que já tinha sido eleito, no fim da década de 80, o melhor da Região Norte.

Em Manaus, os eventos carnavalescos são os poucos bailes em clubes, as muitas e crescentes bandas temáticas de rua e os desfiles das escolas de samba. Numa categoria isolada, há o tradicional baile do Hawaii no Hotel Tropical, destinado aos mais afortunados ou àqueles cuja falta de discernimento permite sacrificar parte vital dos próprios rendimentos, para estarem no convívio dos ricos por algumas horas, nas dependências do fabuloso hotel cinco estrelas.

Os bailes são eventos tradicionais promovidos por clubes já consagrados na sociedade local, normalmente clubes desportivos. Os ingressos para esses bailes são caros, mas não proibitivos. A segurança é muito bem feita e os serviços oferecidos são aceitáveis para os padrões da não muito exigente classe media local.

As bandas temáticas de rua são sempre patrocinadas por órgãos de comunicação ou empresas privadas ligadas à produção ou distribuição de bebidas. Acontecem a partir da concentração de pessoas em um ponto conhecido da cidade, onde músicos pagos pelo organizador apresentam-se num trio elétrico. Amplamente divulgadas, concentram um número crescente de pessoas e tem se multiplicado a cada ano. As bandas são um excelente negócio pra quem as promove, já que a simples divulgação da banda é a repetição da marca, produto ou instituição que lhe dá nome. Realizadas em logradouros públicos, contam com iluminação, segurança, limpeza e outros serviços providos pela Prefeitura.

Os blocos, organizados por amigos ou pessoas de uma comunidade, são uma expressão mais legítima do espírito carnavalesco. Muitos blocos acabam sendo ponto de partida para a formação das bandas, diferindo aqueles destas, apenas pelo nível de organização. Para o carnaval de 2012, cerca de sessenta blocos e bandas registraram-se junto ao órgão de controle de tráfego.

O ponto alto do carnaval em Manaus, pelo menos do ponto de vista econômico e de, é o desfile das escolas de samba do grupo especial, que chega a contar com um público de bem mais que 100 mil pessoas, acomodados em arquibancadas de acesso gratuito, numa magnífica estrutura denominada Centro de Convenções, maior que qualquer outro do gênero no Brasil.

O desfile das escolas de samba do grupo especial é uma exibição de contrastes, com escolas espetaculares, seguidas por outras completamente desinteressantes. A falta de agremiações competentes para realizar um desfile uniformemente rico e equilibrado, obriga a organização a intervalar escolas absolutamente sem atrativos a outras absolutamente colossais, a fim de que haja público tanto para as boas, quanto para as não tão boas. Mais uma vez o poder público forçando a barra para que a festa aconteça. As escolas de samba menores (mais pobres), se não desfilarem entre duas grandes escolas, acabam exibindo seu samba para um público exíguo ou para ninguém.

Quanto aos desfiles dos grupos de acesso, não há muito a dizer, exceto que causam apatia até em bicho preguiça. Compulsoriamente, arquibancadas vazias e jurados assistem a um lamentável espetáculo de negação da cultura local, no qual as exuberantes mulheres da nossa região tentam atrair a atenção de um eventual espectador, exibindo seus lindos corpos, já que não há mais nada que ver nem ouvir.

Resistindo ao ataque alienígena do samba

Quem lê esse artigo pode até pensar que o carnaval na Região Norte não é uma boa opção de lazer e turismo. Não se deixem influenciar os leitores pela acidez das críticas aqui contidas. Felizmente a cultura local fala mais alto e, mesmo fustigada pelo poder econômico, não se intimida. Em todas as festas carnavalescas do Norte, a cultura local está presente, resistindo ao ataque alienígena do samba.

Nas noites de segunda e terça-feira de carnaval, no mesmo local onde desfilam as escolas de samba do grupo especial, acontece o Carnaboi, uma festa com elementos exclusivamente da cultura amazônica. Nesse momento o público interage, canta, dança, torna-se elemento componente e indispensável da festa. É impressionante ouvir o canto fluente e a perfeita execução sincronizada, de coreografias que não foram ensaiadas, mas que estão sendo aprendidas desde a primeira infância.  O espetáculo de interação lembra a festa do Boi Bumbá de Parintins, lembra também as outras festas folclóricas que acontecem em diferentes épocas do ano e em locais distintos desse mundo de cultura que é o Norte. Lembre-se também que a nossa música não é o samba; que nós sabemos quem somos e gostamos de ser.

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6 Comentários

  1. Érika e Bárbara
    7 de fevereiro de 2013 a 13:42 —

    Parabenizamos Rolmer Telis de Oliveira pela interessante matéria!

  2. Érika e Bárbara
    7 de fevereiro de 2013 a 13:45 —
  3. rafael
    17 de fevereiro de 2014 a 15:42 —

    muto bem elaborado

  4. thuany
    10 de fevereiro de 2015 a 9:53 —

    pouco informativo

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