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Fato 1. O massacre de Realengo. No dia 7 de abril de 2011, o jovem Wellignton Menezes entrou na escola Tasso da Silveira, em Realengo, bairro da zona norte do Rio, disparou contra os alunos, matando doze crianças para, em seguida, suicidar-se. Ex-aluno daquela escola, o rapaz deixou carta nas qual apresentou justificativas para o crime, entre elas, o fato de ter sido uma criança excluída, vítima de bullying. O criminoso afirmou ter sido orientado por fundamentalistas, através da internet.

Fato 2. O “novo templário de Cristo” da Noruega. O que levou o atirador de Oslo, no dia 22 de julho de 2011, a matar quase uma centena de jovens foi a necessidade de salvar a Europa do multiculturalismo. O criminoso norueguês publicou na internet um manifesto de 1500 páginas em que se apresenta como novo templário, caçador de marxistas, justiceiro que condenava os políticos do seu país por abrirem mão de um estado conservador e facilitarem a imigração. Fato distante de nós brasileiros? Geograficamente, sim, mas o Brasil foi citado como um exemplo “catastrófico” de miscigenação que deve ser evitado. Aquilo do qual mais os brasileiros nos orgulhamos se apresentou como réprobo. Em suma, o “novo cavaleiro de Cristo” agiu em nome de Deus para promover uma limpeza étnica. Culpou, julgou e ceifou vidas. Agiu por insanidade? Não é o que parece. Deu seu recado a um país que se julgava pacífico.

Fato 3. Apologia ao ódio contra o diferente. Na quinta-feira do dia 22 de março passado, a Polícia Federal conseguiu prender uma dupla que usava a internet para divulgar uma série de mensagens que faziam apologia a crimes contra negros, homossexuais, mulheres, judeus e nordestinos. Emerson Eduardo Rodrigues, curitibano, e Marcelo Valle e Silveira Mello, brasiliense, planejavam um massacre contra estudantes do curso de Ciências Sociais da UNB, acusados de esquerdistas. Além disso, a dupla alimentava um site com incitação à violência e afirmava terem orientado o jovem Wellington a agir no massacre ocorrido na escola do Rio de Janeiro.

“Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrario, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.” (Albert Camus, O homem revoltado, p. 13)

O primeiro parágrafo do livro de Albert Camus, publicado há mais de meio século, é contundente e atual. Não estamos imunes, em lugar algum, ao revoltado. A índole revoltada do humano não nos permite estar livres de qualquer atentado à vida. Somos todos cúmplices de um tempo em que os crimes são o principal alimento da mídia. Notícias boas não interessam portais de informação. Por isso, preferem a embriaguez do hediondo. E pela TV, tabloides, rádios e web uma enxurrada de desgraças vem e nos atinge como um tsunami, induzindo-nos, também, à revolta, como um círculo vicioso, um vírus altamente contagioso. Revoltamo-nos facilmente, por tudo, por todos.

Revolta. Etimologicamente, significa voltar, dar marcha a ré, retornar, num processo de agitação, de inconformismo frente a uma situação. Sempre houve revoltados e revoltosos. Sempre se insurgiu contra um regime, um poder, um estado de coisas. Os revoltosos da contemporaneidade, no entanto, parecem nutrir uma insubmissão sem destino, simplesmente pela vontade de estar bradando. Revoltosos sem causa somos aos milhões, porque é tão fácil bradar com um dedo, compartilhando, comungando de uma situação que não nos afeta a não ser porque virou notícia.

Vivemos numa sociedade revoltada em que doses e mais doses de revolta são destiladas pela mídia. Com a internet, não é difícil se deparar com comentários revoltados contra deus e o diabo. Parece que a facilidade de expor pensamentos e divulgá-los através das redes sociais tem feito o ato de revolta tornar-se algo corriqueiro. Crimes, abusos de poder, mau uso da coisa pública, suborno; são motivos suficientes para o brado retumbante de uma tuba de revoltosos. Todo mundo parece ser íntegro diante de situações-problema. Todo mundo compartilha das dores dos outros e se comove com as injustiças. Todos nos julgamos juízes e, por vezes, temos desejos de algozes, quando queremos combater contra os sinais de morte que nos rodeiam.

Essa atitude exacerbada seria apenas reflexo de uma sociedade formada por sujeitos descentrados, liquefeitos, destituídos das velhas certezas? O ser humano não teria já em sua formação social um instinto de revolta, mecanismo de defesa? O que vemos agora não é mais um traço da excitação promovida pela sensação de estarmos todos conectados, recebendo a enxurrada de informações, entre estas, inúmeras denúncias? Quanto mais nos alimentamos de informações, mais nos deparamos com situações-limite nas quais nosso impulso tenta reprimir o hediondo, afastá-lo do meio, denunciá-lo. Tomamos as dores do outro e sofremos por ele, ainda que este outro esteja a quilômetros de distância. As redes sociais nos têm irmanado, vivemos a sensação de presença-ausência, no ambiente virtual pode-se quase tudo, visto que as leis ainda não sabem como pisar nessa “casa muito engraçada, sem teto, sem piso, sem paredes, na rua dos bobos, número zero”.

Daí que facilmente podemos ser vingadores, ainda que pela palavra. Formas de depurar nossa bílis, de afinar nosso sangue, de dizer “não” quase gritando, mas sem tanto escândalo, sem necessidade de tirar um pé fora de casa. Podemos percorrer o mundo, participando de campanhas bem revoltadas, sem sairmos do quarto. Fazemos justiça com as próprias mãos (com os próprios dedos; justiça digital?!), desafiamos os transgressores, ainda que nossa ação seja transgressora também.

Somos tão perigosos quando decidimos ser tão humanos, e livres, e justiceiros, e vingadores. É tão fácil promover o terror, disseminar o estado de cólera, transmitir o vírus da revolta em rede, essa teia que nos envolve e nos cumula de poder.

Revolta e revolução se colocam num mesmo campo semântico? O espírito do revoltoso pode abalar altares e tronos como o espírito revolucionário? Quem nasce de uma ideia e promove a verdadeira mudança: o revoltoso ou o revolucionário? E a própria arte teria avançado sem que os artistas tivessem se revoltado contra a estagnação? Onde há o humano, aí mesmo existe a revolta.

“A liberdade […] está no princípio de todas as revoluções. Sem ela, a justiça parece inconcebível para os rebeldes. Chega um tempo, contudo, em que a justiça exige a suspensão da liberdade.” (p. 131)

A verdadeira revolução já ocorreu ou a História só assistiu a revoltas sucessivas? Se a revolução humana ocorreu, por que a História não cessou? E por que o super-homem anunciado por Nietzsche ainda não emergiu do útero da super-mãe? poderá haver revolução sem homicídio, regicídio (matar o  rei) ou deicídio (matar Deus)? Quando um regime ou poder é aniquilado e substituído por outro pode haver aí revolução?

“Se houvesse revolução uma única vez, não haveria mais história […] É por isso que todos os revolucionários visam à unidade do mundo e agem como se todos acreditassem no fim da história.” (p.133)

Não é preciso forçar a memória para lembrarmos-nos de fatos históricos cujo estopim foi uma revolta, pessoal ou coletiva, individual ou política. Da tentativa de domínio do mundo pelo extermínio de uma raça (o holocausto dos judeus) aos atentados terroristas (pensemos no ataque de 11 de setembro), parece que o estado de revolta vem em doses cíclicas para inaugurar novo tempo, com novas configurações de ideias e atitudes. Os massacres promovidos por justiceiros, em nome dos fracos ou da moral, têm mostrado que as leis são anuladas em virtude da promoção de uma nova lei, daquele que se sentiu à parte (lembremos dos inúmeros assassinatos promovidos em escolas promovidos por aqueles que se sentiram rejeitados, ou que sofreram bullying, em especial, o massacre na escola de Realengo, há um ano). O terror promovido pelo extremismo (xenofobia e ódio a cultos diferentes) colocam a humanidade em estado de vigilância e medo.

Na primeira edição brasileira, o livro recebeu uma capa falsa, em sua maioria na cor branca. Quando a removemos, a capa e contracapa surgem negras, com o título e o nome do autor quase invisíveis. O projeto já nos indica que a leitura que vamos fazer, ao invés de lançar luz sobre nossos medos, poderá nos mostrar o lado escuro de nossa frágil humanidade. Falar de crime, terror, revolta e revolução não parece ser novidade. Mas o pensador argelino nos provoca, conduzindo-nos pela história, empurrando-nos para aquilo que queremos negar. Em cinco partes, Camus vai mostrando que a história, a metafísica e a arte nutrem revolta e revolução, niilismo, terror, etc. E mostra, também, a medida e a desmedida desse sentimento.

O homem revoltado de Camus nos ajuda a entender que é preciso estar vigilante ao revoltado. Em nome de Deus, da supremacia de um governo e até da própria paz é lícito provocar a barbárie e o extermínio? Não é um livro para buscar explicações e entendimento senão pelo fato de provocar em nós uma certeza da contradição que é o humano. Leitura, portanto, obrigatória para nosso tempo.

P. S. 1.: Enquanto concluo este texto, acompanho o julgamento do criminoso norueguês. Vejo sua frieza diante dos depoimentos dos sobreviventes do massacre, sua altivez e prepotência ao julgar-se justiceiro. O revoltado parece estar acima da lei (na verdade, segue leis próprias, abominando leis coletivas). Lá fora, no pátio do tribunal, os noruegueses organizaram pela internet uma manifestação pacífica. Debaixo de chuva, famílias inteiras seguram rosas e cantam, num só coro, a canção que o criminoso odeia. “As crianças do arco-íris” parece canção para ninar gente pequena e revoltar aqueles que odeiam união, coletividade, paz.  Veja o vídeo em:

https://www.youtube.com/watch?v=SBnWSIzIWSQ&feature=player_embedded

P. S. 2.: Sei que o poeta carioca e professor de teoria literária na UFRJ, juntamente com o músico Daniel Puig estão compondo um antiópera, uma desópera, com trechos dos textos e cartas do assassino de Realengo e do assassino de Oslo. Seria, como afirma Pucheu, uma antivoz. Diante do horror, nunca é bom calar. Talvez a concepção artística a partir disso, que pode parecer indigesta, funcione como um antídoto para cura. Mas há cura para a revolta que nos domina?

Obra: O homem revoltado

Autor: Albert Camus

Editora: Record

Preço: R$ 52, 90

Edição: 1996

páginas: 352

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