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Já faz uns anos, numa madrugada, uma amiga me ligou apavorada, cismada de que sua ex-sogra, recém falecida, e com a qual ela não se dava bem, estava, em espírito, pela sua casa. Conversei com ela, apelei para todas as minhas ferramentas metafísicas: catolicismo, kardecismo, chama violeta… fizemos orações, enviamos amor, luz e todas as melhores vibrações, enfim… fiquei com ela até que ela se acalmasse e se sentisse segura para estar só em casa pela noite escura.

Ao desligar, não dormi imediatamente, minha mente estava desperta e acabei vendo o dia amanhecer antes de conseguir adormecer. Eu tinha um compromisso com um amigo no período da manhã, liguei para ele pedindo para marcarmos para mais tarde, expliquei o ocorrido, ao que ele respondeu: “por isso que eu desligo o telefone para dormir”, e ao que eu respondi: “se eu estivesse com o telefone desligado, minha amiga teria passado sozinha uma madrugada de pavor”.

Na verdade esse não foi um caso isolado, vira e mexe as pessoas me ligam e muitas vezes de madrugada, e sim, deixo o meu celular ligado enquanto durmo.  Os tempos andam tão doidos, tão individualistas, que adquiri o hábito de justificar esse meu costume com o argumento de ter passado um tempo significativo com um pai doente, chegando a encarar um CTI por mês, e que eu tinha de estar disponível.

Mentira. Não o pai doente, de quem fiquei ao lado até o último dia numa das experiências mais dolorosas da minha vida. A mentira é usar isso como argumento para a minha disponibilidade. E a loucura é precisar me utilizar de uma respeitável dor pessoal para que tal disponibilidade não pareça uma loucura em tempos de relações virtuais, nas quais um telefonema pode até ser visto por alguns como invasão de privacidade.

Agora, nesse isolamento involuntário, forçado, que não temos a mínima ideia do quanto durará e nem das consequências concretas na vida prática, inclusive financeira de cada um, no qual pessoas próximas, inclusive nós mesmos, poderão passar por crises de pânico, de ansiedade, de depressão e toda sorte de males emocionais, isso sem falar no risco que cada um de nós corre com o vírus em si, enfim, nesse momento, reflitamos sobre como temos conduzido, como humanidade, como sociedade, a nossa forma de se relacionar. Estejamos disponíveis.

Que os mais velhos consigam resgatar o contato próximo, o afeto direto, a voz no ouvido, o respirar junto, mesmo que à distância. E que os mais novos, boa parte nascida e criada numa bolha digitalizada, possam aprender. Se uma pessoa com quem não temos contato há tempos de repente nos ligar em busca de auxílio emocional, não vejamos isso como estorvo, mas sim como uma grata homenagem, pois numa situação de desespero alguém nos viu como um alento, como uma luz em meio à escuridão. Essa é das maiores honrarias que podemos receber na vida.

O meu celular, cujo número é o único que tive a vida inteira, permanecerá ligado, inclusive de madrugada. E…, por Deus, não estou falando isso para as centenas de pessoas que receberão estas palavras me ligarem, que assim não dou conta rsrsrsrsrs, estou falando para as centenas de pessoas, para as quais sim, estou disponível, se disponibilizarem também.

E assim ninguém se sobrecarrega. E assim ninguém solta a mão de ninguém, e isso a cada dia tem feito mais sentido. E obrigada por me deixarem falar que estou aqui para vocês sem precisar me utilizar da doença de um pai falecido. Estou aqui porque sempre estive. E é muito bom podermos ser quem realmente somos.

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