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Três horas da tarde. Raios solares descem do céu e transformam-se em gotas de suor. Não há pretensões faraônicas. Não há competição ou angústia. Tudo é como deve ser. A instabilidade é natural; a metamorfose é lei. Por um segundo, considero como deve ser viver entre os astros, no centro da Via Láctea. Força e serenidade, talvez?

Doces pensamentos! Pena que precisaram ir embora assim que constatei: ainda faltam cinco ruas para chegar ao consultório. Inspiro avidamente enquanto observo meus pés deixarem quatro rastros em calçadas mal conservadas e sujas. Quero imaginar que estou caminhando apressada, mas a verdade é que estou quase correndo. O começo e o fim das ruas engolem pessoas inteiras enquanto corpos fervem e dissolvem na rotina dos dias.

Prendo o olhar mais um pouco. Vejo organismos apressados. Nada comove. Nada estanca. Nada fixa. Como integrante desse coletivo atomizado, atravesso as esquinas do bairro com a mesma indiferença em que bebo água gelada quando o tempo está frio. Estou aqui e não estou. Ninguém percebe. E quem poderia fazê-lo?

Persisto caminhando até à clínica. Na bolsa, levo a requisição de outro exame cardíaco. Meu problema não é no coração, mas alguém precisa satisfazer o ego do médico. Ele nunca encara meu rosto, nem pergunta como estou – nem que seja por interesse dissimulado – e muito menos deseja saber se tenho algum problema de saúde. O que realmente interessa para esse jovem morto-vivo é correr de um plantão para o outro com a mesma velocidade de um jaguar. Ele quer publicar fotos em redes sociais usando máscaras cirúrgicas e roupas brancas. Talvez também queira promover sua vida feliz ao lado da mulher, dos pais e dos cunhados. Ou ainda provar para tudo e todos que ele conseguiu superar expectativas e criar outras. É um criador?

Imagino tudo isso enquanto ando pela imensa avenida. Olho ao redor. Organismos ainda mais apressados do que o meu devoram salsichas imersas em pães disformes enquanto tentam equilibrar uma lata de refrigerante na mão ocupada com pastas ou mochilas. Um homem coberto por sujeira joga pedaços de papelão nos próprios pés. Ele descansa(?) na porta de um condomínio. Pombos resolvem procurar comida entre os restos espalhados pelas calçadas, correndo e provocando riscos. Perto do esgoto, um gato magricela apalpa sacolas de plástico. Ainda faltam duas ruas para chegar ao local e estou muito atrasada. Mas o que é o tempo?

Minhas unhas estão ruídas. Carnes mortas ocupam as bordas e laterais. Alguém passa ao meu lado fumando. Sigo para o outro lado da calçada e percorro o trajeto com pingos balançando na testa. Minha camiseta está encharcada de suor. Será que aquela espécie de doutor Jekyll irá atender outra pessoa no meu lugar?

Olho para a placa enferrujada que aponta para o sapateiro do bairro. Estou cada vez mais próxima. Finalmente, entro esbaforida no prédio onde fica o consultório. Atrás de mim, ouço uma criança reclamar de sede. Ela grita sem parar. Continuo subindo os degraus até chegar ao elevador. Um cartaz amarelo com letras garrafais em fonte vermelha diz: “NÃO ESTÁ FUNCIONANDO. EM REFORMA. USE A RAMPA OU A ESCADA”. Respiro sofregamente. Tenho vontade de cuspir nesse maldito comunicado, mas faço o que deve ser feito e subo a rampa. Subo até alcançar a quarta rampa. Em um dos andares, ouço uma música suave. Reconheço-a de algum tempo ou lugar. Será que eu fui feliz enquanto ouvia essa música?

Três e quarenta e cinco, o que totaliza vinte e dois minutos de atraso. Entro na sala. Duas mulheres velhas e uma moça aguardam em sofás fedorentos. Troco duas palavras com a recepcionista. Ela me diz para esperar porque o doutor está atendendo outra pessoa, já que atrasei muito tempo. Não há o que dizer. Discretamente, tiro uma bolinha de muco do nariz e lanço em direção à mesa da recepcionista. Intervenção silenciosa. Protesto invisível. Resignada, ocupo o meu lugar entre o redemoinho de odores. A televisão entedia com um filme repetido cinquenta vezes. O calor ocupa a sala. Estamos fervendo. Quando não estivemos?

Uma das idosas boceja. Vira o rosto para a televisão e depois para os lados. Desiste. Então, ela fixa o olhar no meu. A chama volta a latejar por trás dos óculos. Busca minha anuência, mas não quero encorajar conversas. Não adiantou nada. Adiantaria algum dia?

– Você assiste a novela das onze? Eu adoro! Não perco um capítulo! Viu que a mulher está quase descobrindo o caso do marido com a ninfeta? Se ela pega, vai dar morte! Imagina! Como ela não poderia saber? Ele colocou uma cama de casal no quarto da menina. É paixão, é amor mesmo! Ele está apaixonado e seduzido pela novinha. Não tem como deixar de assistir. Ou tem?

Eu não assisti a nenhum capítulo e nem pretendo, mas aprendi que o silêncio desencoraja a poucos. A mulher continuou a falar sobre o caso do garanhão mais velho com a garota nova. Ela estava tão animada com a narrativa que não ousei interrompê-la. Apenas ouvi por mais de vinte minutos. O suor tomava conta da pele e das roupas. O filho bastardo do sol transbordava. Nós estávamos naquela sala, amordaçadas e naufragando na caldeira. Alguma vez não estivemos?

Continuamos em pé dançando com as dúvidas. Depois que o doutor monstro atender a cada um de seus pacientes e publicar qualquer foto sorrindo de jaleco na internet, nós voltaremos seguindo os mesmos passos pelos quais viemos. E a caldeira continuará vibrando, dissolvendo pedaços e transformando corpos inteiros em moléculas.

– Quem é a próxima? -, grita a recepcionista.

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1 Comentário

  1. ana cristina
    4 de novembro de 2015 a 0:50 —

    Que narrativa veloz e psicodélica! Que escrita imagética e sensível com os detalhes!!!

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