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Em janeiro de 2014, circulou nas redes sociais uma resposta de Leonel Kaz (curador do Museu do Futebol) a uma possível pergunta do ministro da educação, Aloizio Mercadante, sobre o que tem haver museu e educação.  O texto, publicado primeiramente no Jornal O Globo em 2013, e depois, na Veja em 2014, apresenta 10 definições sobre o lugar “museu” mostrando as diversas relações com o ensino/aprendizagem.

Li diversas críticas que educadores e profissionais da informação fizeram a respeito dessa possível pergunta feita pelo então ministro. Digo possível pergunta, pois, para mim, me pareceu muito absurda um ministro da educação fazê-la. Então pesquisei na Internet, encontrei o site da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), que está ligada ao Ministério da Educação que cita o tal evento do qual o ministro participou, porém não aparece a indagação.

Dúvidas a parte sobre a pergunta e sabendo que muitos concordam com a intrínseca relação entre museu e educação, gostaria de citar algumas personalidades que já sabiam da importância desta relação nos séculos XIX e XX através de documentos.

Tal relação fica evidente no decreto de criação do Museu Real – atual Museu Nacional (MN/UFRJ) – por D. João VI em 06 de junho de 1818. Segundo o decreto, esse possuía a função de “propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil, que encerra em si milhares de objetos dignos de observação e exame e que podem ser empregados em benefício do comércio, da indústria e das artes” (BR MN.AO, pasta 1, doc.2, 6.6.1818, encontra-se custodiado na Seção de Memória e Arquivo – SEMEAR/MN/UFRJ).

Nas décadas de 1920 e 1930, também na mesma instituição, Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976, cientista, botânica, zoóloga, tradutora, feminista e deputada federal) realizou viagens para alguns países da Europa (como Alemanha, Inglaterra, França e Bélgica) e para os Estados Unidos com o intuito de estudar o ensino e os museus. Depois da última viagem, Bertha Lutz entregou um relatório intitulado O papel educativo dos museus norte-americanos para o diretor do Museu Nacional, Edgar Roquette-Pinto (1884-1954,  médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e ensaísta brasileiro). Este, em 1927, criou o primeiro setor educativo de um museu brasileiro, a Seção de Assistência ao Ensino (SAE/MN).

Este relatório foi o resultado de observações das 52 instituições visitadas por Bertha Lutz, onde esta deu sugestões ao Museu Nacional, baseando-se no trabalho educacional com as escolas e os museus dos Estados Unidos. Nele, a autora colocou que os programas educativos em museus interessam tanto ao grande público em geral, quanto a grupos menores que estão em busca de ensinamentos especiais, abrangendo alunos desde o jardim de infância até a universidade. Ela afirma que o papel educativo primordial dos museus é a educação visual e que isto valoriza ainda mais a sua importância em países onde há um grande índice de analfabetos, como é o caso do Brasil.

Bertha Lutz tentou publicar este relatório com o título A Função Educativa dos Museus, porém não conseguiu, pois esta publicação seria muito especializada para o público leitor reduzido. Tal documento encontra-se no Fundo Bertha Lutz (SEMEAR/MN/UFRJ) e, em 2008, foi publicado tornando-se leitura obrigatória para os profissionais que trabalham em museus.

A distribuição geográfica desigual dos museus no Brasil

Outra obra de referência da área é o livro Educação em Museus, da Série Museologia,  3 – Educação e Museus, escrito pelo Museums and Galleries Comission, publicado no Brasil (2001), que se encontra disponível na internet. Esta obra corrobora com o pensamento de Bertha Lutz apresentado no relatório sobre a relação educação-museu. Podemos notar isso principalmente em:

“Todos os museus oferecem oportunidades para aprendizagem e entretenimento. A educação é uma das funções centrais dos museus. O gerenciamento eficaz das atividades educativas em museus poderá aumentar e aprimorar essas oportunidades. […]

Os museus têm potencial para oferecer oportunidades educacionais para pessoas de todas as idades, formações, habilidades, classes sociais e etnias. No entanto, será necessário decidir qual(ais) público(s) se deseja atingir a curto-prazo” (p.17 e 18).

Segundo o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), do Ministério da Cultura, há no país 3.300 museus (dados de 2013), porém é desigual a distribuição.  A quantidade maior é na região Sudeste (1.151), seguido pelo Sul (878), Nordeste (632), Centro-Oeste (218) e Norte (146). Ainda no mesmo estudo, afirma que 67,5% dos museus brasileiros são dedicados à história, 53,4% às artes visuais e 48,2% à imagem e som. Em 2009, os museus brasileiros foram visitados por cerca de 82 milhões de pessoas. Assim como o Museu Nacional está vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, há muitos outros vinculados a instituições de ensino superior, como o Museu de Ciências e Tecnologia (PUC-RS).

Outro dado significante é que infelizmente o Brasil possui 13,9 milhões de analfabetos adultos no período de 2005 e 2011, segundo Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos (2014) da UNESCO. Este dado coloca o Brasil entre os 10 países que possuem mais analfabetos no mundo, junto com países como a Índia, China, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Etiópia e Egito. O relatório não menciona os analfabetos funcionais, o que agravaria ainda mais a realidade educacional do país. A educação visual, que Bertha Lutz colocou em seu relatório como a principal função educativa dos museus, poderia melhorar a realidade, diminuindo a desigualdade educacional e social no Brasil se houvesse um maior investimento na área.

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