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Na altura da passarela de número sete da Avenida Brasil, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, adentramos a favela da Maré. A forte da presença do Exército no entorno e seus instrumentos de repressão evidenciam o processo de militarização que historicamente faz parte do cotidiano da comunidade e de seus moradores.

Ao chegarmos às proximidades da Rua Guilherme Maxwell todos os moradores que abordamos sabiam apontar com precisão qual o caminho seguir para encontrarmos o Museu da Maré, que era o que procurávamos. Isso demonstra a visibilidade da instituição para os moradores da região, comprovando que esse espaço, além de preservar a história da localidade, está inserido na vida cotidiana local, porque remonta as riquezas e as peculiaridades de uma região esquecida pelo poder público e com pouca representatividade nas instituições oficiais.

A equipe da Revista Biblioo foi até o Museu com o intuito de resgatar um pouco da história do Complexo da Maré e entender o processo atual pelo qual passa a instituição e que pode resultar em seu fechamento. Para isso, entrevistamos Cláudia Rose e Antonio Carlos Vieira, coordenadora e diretor do Museu, respectivamente.

A construção do Museu reflete o crescimento da Maré, resgatando as primeiras ocupações feitas sob palafitas; a chegada dos primeiros moradores da localidade e, inevitavelmente, a história pessoal de vida de Cláudia Rose e Antonio Vieira.

Os fundadores do Museu da Maré

Antonio Carlos Vieira tem 49 anos, nascido no morro do Timbaú. No final da década de 1970 participou da Pastoral da Juventude da Igreja Católica em uma capela dentro do Parque da Maré, trabalhando com jovens e apoiando moradores. Conviveu de perto com a época das palafitas e acompanhou as mudanças que foram acontecendo na região. Antonio sempre teve a preocupação de registrar essas transformações.

Em 1989 começou a gravar vídeos com depoimentos e histórias de vida dos moradores e exibir nas praças da localidade, criando assim a TV Maré. Em 1997, participou da fundação do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), uma ONG que assumiu o trabalho de resgate da memória. Em 2000, participou da fundação da Rede Memória da Maré que, em 2006, resultou no Museu da Maré.

Cláudia Rose tem 48 anos, nascida na Baixa do Sapateiro no Complexo da Maré. Aos doze anos de idade começou a freqüentar a Igreja Católica na Paróquia da Nossa Senhora dos Navegantes. Posteriormente, entrou para a Pastoral da Juventude tendo contato com a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base. A partir disso, conheceu a história do movimento da Igreja Católica na resistência contra a Ditadura Militar e isso despertou nela o interesse em estudar História.

Em 1982, entrou no Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes para cursar o Ensino Médio e começou a participar do Grêmio Estudantil. Em 1987, ingressou na graduação em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Assim como Antonio, também participou da fundação do CEASM, da Rede Memória da Maré, no processo de criação do Museu.

O processo de construção do Museu da Maré

Em 1999, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) criou o projeto Museu da Vida (um museu a céu aberto com experiências e interação de pessoas) e os monitores desse projeto eram jovens da comunidade no entorno da Fiocruz. Nos dois primeiros anos do projeto, os monitores que participaram foram jovens moradores da Maré e o projeto pedagógico de formação desses jovens foi construído em parceria entre o CEASM e o projeto Museu da Vida.

No ano de 2000, em um seminário do projeto Museu da Vida para avaliação da parceria com a Fiocruz, esteve presente o professor de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Mario Chagas, que ficou encantado com o projeto e sugeriu a idéia de criar uma exposição permanente com o acervo que o CEASM e a Rede de Memória tinham construído através das atividades desenvolvidas na Maré.

A partir disso, tanto Cláudia, como Antonio, além dos demais envolvidos do CEASM e da Rede de Memória da Maré, começaram a participar de encontros de museus pelo país e tiveram contato com as discussões que eram feitas pela área de Museologia na época.

Para Antonio, o contato e a participação nos debates e discussões a respeito da realidade brasileira dos museus foram importantes para o amadurecimento da proposta de ter um museu na Maré. Cláudia Rose também destacou a importância da militância nos movimentos sociais e populares para pensar o Museu como um espaço de interação social e preservação da cultura popular.

No ano de 2004, o professor Mario Chagas propôs ao CEASM e a Rede de Memória da Maré que realizassem uma exposição no Museu da República, no Catete, Zona Sul do Rio, intitulada “A força da Maré”. Segundo Antonio, “essa exposição foi o marco inicial para a construção do Museu da Maré, porque ele foi construído a partir das experiências realizadas”.

A exposição foi criada com base na história da Maré e no arquivo pessoal de Orosina Vieira, uma antiga moradora do morro do Timbaú e uma das precursoras das ocupações iniciais na região da Maré, por volta da década de 1930. A mostra contou com fotos das palafitas e alvenarias que ocupavam a região, também imagens atuais da Maré, além de uma vitrine central com objetos pessoais de moradores e de Orosina Vieira, dentre eles, curiosamente, a ferradura que ela colocava na frente de sua casa, um punhal e uma espingarda, entre outros.

Com o término da exposição, chegou o momento de devolver os objetos doados pelos moradores, que não os aceitaram de volta. Segundo Cláudia, os moradores disseram que “queriam ver na Maré o que eles viram no Museu da República”.

No entanto, não havia espaço para armazenar todos os materiais doados. Foi então que Dona Celina, proprietária do terreno onde hoje é o Museu da Maré, procurou o CEASM para desenvolver projetos nesse local onde era a fábrica da família dela e que estava desativada há bastante tempo. Surgiu então a idéia de alojar nesse espaço os projetos culturais do CEASM, a Rede Memória da Maré e o arquivo Orosina Vieira.

Em 2004, o Ministério da Cultura lançou o edital dos Pontos de Cultura pelo Programa Cultura Viva, e, com isso, o projeto do Museu da Maré foi inscrito para concorrer a esse edital. O projeto foi selecionado e, finalmente, o Museu da Maré pôde ser desenvolvido.

Além dos objetos doados para a exposição “A força da Maré”, o Museu foi construído com novos itens que foram obtidos a partir de contatos com os moradores da região. Atualmente, o Museu exibe a exposição “Os tempos da Maré” – o tempo da água, o tempo da migração, o tempo da feira, o tempo da fé, o tempo do cotidiano, tempo da resistência, tempo do trabalho, tempo da casa, tempo da festa, tempo da criança, tempo do medo.

 

O possível despejo do Museu da Maré

O Museu da Maré tem um documento de comodato assinado com a empresa proprietária do terreno, a Companhia Paulista de Navegação, que faz parte do Grupo Libra de Comércio Marítimo. Esse documento acordava o direito de o Museu da Maré utilizar o terreno por um período de dez anos. Segundo Cláudia, “esse Grupo tinha uma gestão familiar e agora estão com uma gestão de capital aberto e isso dificulta um diálogo mais próximo e aberto com os acionistas da empresa”.

No final de agosto desse ano, um dos diretores entrou em contato com os representantes do Museu da Maré para dizer que não havia mais interesse por parte da empresa em renovar o comodato, estabelecendo o prazo de 90 dias para desocupação do terreno. No mês de setembro chegou uma notificação ao Museu da Maré decretando o prazo para o início de dezembro.

Os representantes do Museu da Maré têm procurado apoio e criaram o movimento “Museu da Maré resiste!” que conta com a adesão de várias pessoas. No dia 18 de outubro foi realizado um ato pelas ruas do Complexo da Maré com a participação de moradores, movimentos sociais, sociedade em geral, entre outros, reivindicando a permanência do Museu da Maré.

No meio desse impasse, Cláudia afirma que está na esperança de estabelecer um diálogo com a empresa proprietária do espaço para expor a relevância, a importância e os impactos do Museu para o Complexo da Maré.

A jovem Beatriz Virginía, moradora da Maré, faz aulas de jazz na companhia de dança que se desenvolveu nas dependências do Museu e destaca que esse projeto está sendo muito importante para a sua formação. Segundo ela, “é um projeto que faz parte da Maré e é muito triste quando um projeto como esse fecha, principalmente, para quem está dentro dele”.

João Vitor, jovem morador da Maré, afirma: “o Museu da Maré representa tudo para mim: arte, música, cultura… Na verdade, se o Museu for despejado, metade da cultura da Maré vai embora porque a cultura está aqui. O Museu conta a história dos moradores e eu sou super contra a essa ordem de despejo. O Museu representa mais do que cultura, ele representa moradia”.

Diante desses fatos, é evidente a importância do Museu da Maré para a preservação da história e cultura local, para os moradores da região e para a cidade do Rio de Janeiro como um todo. Fechar esse espaço é continuar a lógica dominante de que a cultura na favela é um bem de pouca importância.

Até o momento, a questão do despejo ainda não foi resolvida e o Museu continua resistindo em meio às dúvidas e às incertezas em relação ao futuro. A fala final de Antonio Carlos Vieira reflete o momento de luta e de resistência pelo direito de permanência do Museu da Maré: “a empresa tem o direito de requerer o patrimônio dela, mas nós também temos a legitimidade para pleitear esse espaço que hoje tem uma função social. Se o museu fechar e se a empresa construir aqui uma fábrica ou colocar uma placa de ‘aluga-se’ aqui na frente, isso vai ser um trauma muito grande para todos nós. Tirar a placa do Museu da Maré para colocar uma de ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’, vai dizer muita coisa para a nossa história”. 

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