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“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”, simplificou Millôr Fernandes em uma de suas tiradas antológicas. Jornalista, escritor e cartunista, Millôr ficou conhecido por, além de seu talento artístico, ser um sujeito que não se prendia a padrões de pensamento preconcebidos. Certa feita teria dito: “Vocês não sabem como é divertido o absoluto ceticismo. Pode-se brincar com a hipocrisia alheia como quem brinca com a roleta russa com a certeza de que a arma está descarregada.”

Nascido Milton, virou Millôr por conta da caligrafia confusa do escrivão do cartório onde foi registrado. “Naquela época se escrevia aquela letra bonita. O ‘m’ aberto, o ‘l’ aberto, o ‘t’ aberto. Então quando ele chegou no ‘n’, ele fez assim (como se fosse um ‘r’), e ficou um ‘r’ perfeito e o traço do ‘t’ em cima do ‘o’”, contou o próprio Millôr. A data de nascimento também é confusa. Na certidão de nascimento a data oficial é 27 de maio de 1924, muito embora seu nascimento tenha se dado de fato no ano anterior, em 16 de agosto de 1923, no Méier, bairro do subúrbio do Rio.

Mesmo sabendo de sua saúde fragilizada, a notícia da morte de Millôr, anunciada pela família na última quarta-feira (28/03), deixou os admiradores surpresos. Tendo sofrido um acidente vascular cerebral no começo de 2011, e passado por algumas internações ao longo do ano passado, a família resolveu manter sigilo sobre o seu estado de saúde, até o anúncio de sua morte.

Sua morte, a propósito, foi tema de um de seus poemas, sempre em um tom satírico:

Quando eu morrer

Vão lamentar minha ausência

Bagatela

Pra compensar o presente

Que ninguém dá por ela.    

A vida profissional

A carreira profissional de Millôr é irretocável. Tendo trabalhado nos principais veículos de comunicação do país, como O Cruzeiro, O Pasquim (que ajudou a fundar), Veja e Jornal do Brasil, Millôr também se destacou como cartunista, dramaturgo e tradutor, tendo traduzido para o português obras de importantes escritores, como Shakespeare (1564 – 1616) e Molière (1622 – 1673).

Sua obra é extensa, indo da prosa à poesia, passando pelo teatro e pelas artes visuais. O seu talento para o desenho, por exemplo, lhe rendeu destaque internacional, tendo dividido em 1956 a primeira colocação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires com o desenhista norte-americano Saul Steinberg. No ano seguinte, Millôr ganharia uma exposição individual de suas obras no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Millôr contra a ditadura

 

A ministra Cultura, Ana de Hollanda lembrou, em nota, o trabalho de Millôr Fernandes durante a ditadura militar, quando ajudou a fundar o jornal O Pasquim. “O Brasil acaba de perder um dos seus mais representativos escritores”, declarou e ainda acrescentou: “Millôr Fernandes, além de filósofo do nosso cotidiano, com um humor cáustico foi excelente cronista, dramaturgo, tradutor, jornalista e desenhista. Seu pensamento crítico contribuiu para todas as áreas da cultura brasileira. Ele lançou um estilo que influenciou fortemente a cultura brasileira, em especial a de resistência política nos anos da ditadura militar”, escreveu a ministra.

De fato, o trabalho que Millôr desenvolveu n’O Pasquim foi um dos mais originais e um dos que mais provocou os militares. Tanto é assim que em novembro de 1970 a redação inteira do O Pasquim foi presa depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga, (de autoria de Pedro Américo). A intenção dos militares era que o semanário saísse de circulação e seus leitores perdessem o interesse. Ocorreu que durante o período de encarceramento da equipe do jornal — até fevereiro de 1971 — O Pasquim foi mantido sob a editoria de Millôr (que escapara à prisão), com colaborações de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e diversos intelectuais cariocas.

 

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