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É manhã e um raio de sol atravessa obliquamente a fissura entre as cortinas, resvalando sobre meu rosto. Abro os olhos lentamente, quase que irritado com a claridade impertinente. O corpo não quer levantar, mas sorrateiramente a mão já alcança a mesinha de cabeceira e pega meu mais novo vício, que atende pelo nome de iPad. Basta um clique e o aparelhinho se mostra generosamente. Trata-se de um computador de mão, ou melhor, um tablet. Começo verificando os e-mails, abro os aplicativos com as notícias do dia, vejo os sites preferidos, escrevo mais um post no meu blog, olho meu escasso saldo na conta bancária, faço pagamentos, transferência… O dia mal começou e já estou mergulhado na infindável catarata da hipermídia. Totalmente hipnotizado por ela. Depois do café da manhã, sento-me à mesa de trabalho, diante do notebook, abro o processador de textos para preparar minhas aulas. O iPad fica ligado e de pé, ao lado do notebook, pronto para me mostrar novas mensagens eletrônicas. Mais tarde, começo a ler um livro que acabei de pegar na biblioteca. De repente, noto que há algo diferente na minha forma de ler: toda vez que aparece uma citação, a referência de um autor ou artista, um comentário sobre determinada pintura ou música, interrompo a leitura, abro o Google e digito a referência. Não me contento em pesquisar depois, mas faço isso simultaneamente, como se a internet fosse uma extensão do livro, como quando lemos as notas de rodapé ou de fim de página num livro acadêmico ou quando clicamos numa palavra sublinhada cujo link nos leva a outro site, um hiperlink. O livro e o computador disputam as informações, dialogam, enchem-me de dados, páginas e páginas, hipermídia, hipertextos. Definitivamente, não lemos mais como antes, não temos mais o mesmo time de leitura. Queremos abarcar o maior número possível de informações, desejamos ouvir a música, lendo a letra, vendo o clipe. Tudo junto e misturado. Enfim, quando estou acordado, não conseguimos mais estar num ócio pleno, porque assumimos um “padrão comportamental híbrido”, uma compulsão que nos leva a estar fazendo algo o tempo todo.

“O meio é a mensagem”

Esta frase célebre de um dos grandes pensadores das mídias no século XX foi escrita há meio século. Quem a proferiu foi o professor americano Marshall McLuhan, no seu livro A galáxia de Gutenberg (1962). O estudo de McLuhan abordava o meio como tão ou mais importante que o conteúdo. No advento dos suportes tecnológicos, os conteúdos se adaptariam em função dos meios. McLuhan é considerado o pioneiro dos estudos de comunicação e, embora apontasse pontos negativos na massificação da mensagem, acreditava nos media como produtos da “aldeia global”. Da oralidade à escrita, da escrita à tipografia e desta à máquina elétrica, McLuhan anunciava que o avanço da tecnologia deslocaria as percepções e pensamento do homem, à medida que ele precisaria readaptar-se ao novo suporte. Assim, com a invenção da escrita, o ouvido deu lugar ao olho, passamos de uma cultura acústica para uma cultural visual; com a máquina, penetramos na cultura eletrônica, a aldeia global. Essas três galáxias exigiram do homem uma adaptação tanto física quanto psicológica diante da sensação, ou melhor, da leitura de mundo. Ver/ler/tocar/ouvir não têm a mesma configuração em cada uma dessas galáxias.

Passados 50 anos da Galáxia de Gutenberg, o filósofo alemão Christoph Türcke, professor da Universidade de Leipzig, em plena era do audiovisual e do universo virtual, denuncia uma mudança de comportamento na sociedade da hipermídia. Sua obra A sociedade excitada: uma filosofia da sensação (Editora Unicamp, 2010) faz uma arqueologia da palavra sensação, de quando apenas significava sensação, até os dias atuais, quando passa a significar uma postura social, um comportamento que torna o homem dependente. Estamos mergulhados numa bolha de sensação produzida pelos suportes midiáticos, recebemos constantemente injeções que nos excitam e têm o mesmo efeito das drogas poderosas, alucinógenas. Se sensação era ponte do homem com o meio exterior, uma ligação física ou fisiológica, agora constitui uma atitude coletiva, social, que nos torna dependentes dos media. Passamos da “sociedade do espetáculo” (referência à obra de Gay Debord, da década de 60, na qual o pensador mostra debilidade da sociedade pelo consumo capitalista) para outro tipo de exibicionismo que consiste em dar molde virtual para o social. As redes sociais, os blogs, os álbuns, os diários nada secretos, os vídeos que mostram a intimidade do quarto, os chats, a videoconferência… são apenas exemplos deste quase infindável itinerário pelo planeta web.

O quarto é o mundo

Vicia essa necessidade frenética de invadir a privacidade alheia e escancarar a nossa a qualquer custo. Somos quando e porque nos mostramos. As notícias há muito tempo deixaram de ser importantes por serem novidades, para serem importantes porque noticiadas, sensacional e sensacionalista é a mídia, que nos obriga a ingerir o que não queremos, o que não é do interesse de todos é oferecido como sendo coletivo, numa percepção que permanece, o banal é inflado numa “injeção multissensorial”. Qualquer um pode fazer notícia. Qualquer um pode ser notícia. Qualquer um pode “causar”. De repente, sem nos darmos conta, somos invadidos por informações que não têm nenhuma relevância para nós, mas que ganham sua importância à medida que a sociedade acessa (basta ver como um vídeo de uma dancinha engraçada, uma gafe ou, o que é pior, uma cena de sexo entre adolescentes, atinge rapidamente considerável número de acessos no Youtube em poucas horas). Cada qual, do seu mundo-quarto, partilha sua vida, não importa o quão vazia de sentido ela seja. A droga da sensação permite fazer de um simples gesto um evento hipermidiático. Queremos plateia a qualquer preço. Queremos ser a notícia, por isso, importantes. Ou será, o contrário: “importante porque comunicado…”, segundo Türcke.

Presença etérea e choques imagéticos

Dividido em cinco capítulos (1. paradigma da sensação, 2. lógica da sensação, 3. fisioteologia da sensação, 4. sensação absoluta, 5. substituto da sensação), o livro aborda a palavra sensação desde o seu estado primitivo até sua reconfiguração como pressuposto para a excitação que tomou conta da sociedade atual. Não basta mais ao homem sentir o mundo, é preciso estar constantemente excitado a ponto de promover um alheamento da realidade física em virtude da experiência virtual ou imagética. A sociedade do espetáculo agora é a sociedade do estímulo, em que doses e mais doses da “injeção poderosa” vão moldando o homem num ser virtual, quase que destituído do contato físico, alucinado pelo espetáculo que agora consiste em mostrar-se o tempo todo, num elaborado corpo virtual, ou melhor, “um ‘aí’ etéreo, receptível em todos os lugares de um determinado campo de transmissão, mas em lugar alguma palpável” (p. 45).

Num mundo de sujeitos descentrados, fragmentados, de relações líquidas, características da sociedade pós-moderna (ou hipermoderna, como quer o pensador francês Lipovetsky), o trabalho do professor Türcke toca nossa ferida à medida que nos propõe uma reflexão sobre essa sensação sensacionalista, que coloca a mídia como extensão dos nossos sentidos, uma ponte que elimina distâncias, quebrando barreiras, aproximando os diferentes, unindo pessoas… Até quando vão permanecer o frenesi, os estímulos e as convulsões, como se a vida real fosse feita de orgasmos múltiplos? O gozo intermitente cessará? E após isso, o que restará daquilo que ousamos ser? Para onde vai todo esse nosso hedonismo? O que fazer com toda essa excitação? Segundo o autor, ainda é possível resistir a isso.

A obra de Türcke se alia à de pensadores contemporâneos como Antonny Giddens, Zigmunt Baumann e Gilles Lipovetsky, entre outros, e nos ajuda a traçar um panorama reflexivo sobre que tipo de relações a mídia está moldando. O meio é a mensagem. Que mensagem?

Sociedade Excitada: Filosofia da sensação
Sociedade Excitada: Filosofia da sensação

Livro: Sociedade Excitada: Filosofia da sensação

Autor: Christoph Türcke

Tradutor: Antonio A. S. Zuin, Fabio A. Durão, Francisco C. Fontanella, Mario Frungillo.

Editora: Unicamp

Ano da edição: 2010

páginas: 328

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