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Quando paro pra pensar sobre a motivação que me levou a ler e gostar muito de ler, não localizo na minha trajetória de vida algo que seja emblemático. Um momento. Um rompante. Um sei lá o quê que a gente aprende que deve ser o estalo para algo. Uma efeméride!

Quando paro pra pensar sobre algumas imagens, elas vão aos poucos emergindo da escuridão da memória. O que me instigou este pensamento foi um trecho de um texto comovente do querido Bartolomeu Campos de Queirós:

“(…) Sei que nestes atos singelos, praticados com gestos amorosos, dona Maria Campos me ensinou demais (…) me ensinava serem muitos os lugares da escrita e da leitura. De suas histórias lidas no fim da aula, eu ainda guardo o cheiro do livro.”

Bora fazer uma varredura!

Na escola pública que eu frequentava nos primeiros anos escolares, ainda durante a ditadura, nada de biblioteca emerge. Se tinha, nunca fui lá. Literatura era levada a ler pelas professoras para tarefa fazer. “A mão e a luva”, “O escaravelho do diabo”, “A pata da Gazela”, “Tistu, o menino do dedo verde” (por este me apaixonei) e por aí vai. Todos com aquela desagradável ficha de Leitura. Não cabia lá o que eu tinha pra dizer.

Em casa, o pai que se alfabetizou na marra, porque mal frequentou escola, me deu livros. Precisamente me deu a coleção completa da Barsa, acho que de 1969, onde recorria para fazer as pesquisas da escola em papel de almaço pautado. Um luxo para a época! Ainda mais porque o pai era operário de dia e fazia faxina à noite para complementar a renda para cuidar de seis filhos.

Mãe, prendas domésticas, como se dizia na época para se referir às mulheres que trabalhavam em casa. Mãe também foi tirada da escola para ajudar sua mãe nos afazeres da casa e a tomar conta dos filhos, nove no total, minha mãe era a filha mais velha. Essa frustração ela transformou em determinação: tod@s @s filh@s estudariam sob seu cuidadoso acompanhamento, seja no uniforme único e impecável, seja nos materiais comprados em muitas prestações na Papelaria O Grande São Paulo, seja no seu grande olhar verde que abarcava a gente inteirinh@ quando olhava, fosse aprovação ou reprovação. Habitei os olhos de minha mãe.

Junto com a Barsa veio também a Bíblia. Linda! Capa de couro preta, brochura com aquela lateral dourada. Cheinha de magníficas ilustrações. Confesso que nunca li, não aquela. Ler mesmo eu lia outra, com encadernação modesta, por obrigação. Quase toda a noite meu pai me chamava (convocava é a palavra que melhor expressa o que nunca foi um pedido).

Ele apontava um versículo para eu ler, o que fazia com a mais profunda má vontade. Depois perguntava o que eu havia entendido. De pirraça dizia: nada! Com toda paciência de quem quer converter alguém, ele me dizia do significado daquele trecho. Este ritual durou anos! Somente muito tempo depois, já crescida, olhei para trás e vi o pai que demonstrava à filha que havia sentido e significado por trás do código escrito.

Na vizinhança da Barsa e da Bíblia veio a coleção do Sítio do Pica Pau Amarelo. Ah! Daí eu me deliciava nas leituras que me apresentaram o brejeiro dia a dia num sítio a um mundão de personagens e lugares que comecei a sonhar a partir dali: reinos encantados, príncipes e princesas, Dona Baratinha, deuses gregos. Eu me desafiava nas ondas da gramática e da aritmética.

Naquela época o comum era crianças nas ruas brincando até… a mãe chamar e ameaçar palmadas se a gente não subisse para o banho tomar e para a “janta”: quase sempre arroz, feijão e “mistura”, prato típico do paulistano. À época eu achava que era o prato à mesa de tod@s, não suspeitava riquezas e nem misérias.

A única exceção era o “homem do saco”, um ou outro que às noites passava pela rua fuçando lixo para descobrir “comida”. Vivíamos sob a censura da ditadura, claro! Aquele era “uma país que vai pra frente…o, o, o , o, o… de uma gente alegre e sorridente…”.

Sigo maravilhada com a potência das histórias do Sítio, mas hoje carrego uma inquietude sobre trechos onde emerge o racismo. Não sei, mas sei que não dá pra não falar disso. Biblioteca pública, nunca entrei. E puxando pelo fio da memória não lembro de ter sido apresentada a uma.

Segui lendo. Com meu primeiro salário aos 15 anos trabalhando em uma editora perto de casa, apesar da mãe contrariada que queria antes ver a filha caçula formada, comprei meu primeiro livro: capa dura e páginas com lateral dourada. Um luxo de primeira necessidade pra mim. Comprei na banca de jornal.

Integrava a Coleção da Abril Cultural – nem sonhava à época que décadas depois trabalharia pelo acesso democrático aos livros numa empresa que seria parceria numa nova edição da coleção e daí faria ampla e gratuita distribuição destes clássicos para muita gente e bibliotecas Brasil adentro.

Pessoa e leitora adulta, tomei pra mim a convicção sobre buscar garantir as possibilidades de leitura e escrita e, com elas, a possibilidade da instrução, da construção de repertório intelectual para seguir por jornadas cada vez mais desafiadoras de leituras e aprendizagens.

Foi num ponto desta trilha, lá nos idos de 2008/2009, que eu e a brilhante educadora Maria Betânia Ferreira, grande amiga e parceira de muitos projetos incríveis de leitura e escrita, pensamos que uma efeméride nacional poderia somar a tantos esforços na construção de cultura leitora.

Com trabalho consistente e dedicado nasceu o Dia Nacional da Leitura[1], instituído por meio da Lei 11.899 em 8 de janeiro de 2009, que é celebrado no dia 12 de outubro. O Dia da Criança não foi escolhido para sobrepor, mas para reforçar a importância de ler literatura para crianças desde o útero da mãe, pois somos primeiro leitores de ouvir.

E vendo ano após ano a data ser mote e motivo de tantas ações pelos mais diversos atores da sociedade, dá uma satisfação enorme. Cada passo conta para fortalecer a jornada para a garantia do direito de acesso aos livros, leituras e leitores, que atende pelo nome de biblioteca pública, nas escolas, em todos os cantos do País.

Contar esta história nada tem a ver com autopromoção. Tem a ver com demonstrar que o direito se efetiva no miudinho do chão onde a gente pisa, que depende de nós arregaçar as mangas e atuar em prol de políticas públicas que assegurem o pleno acesso aos livros e às leituras e encontros com leitor@s.

Para que nunca mais uma mãe tenha que encontrar um livro no lixão para dar de ler ao seu filho, dolorosamente ilustrado no filme, baseado em fatos reais, que anuncia a nova edição do “Leia para uma Criança”. Para que nunca mais aprender a ler e a gostar de ler, acesso à leitura, à escrita, à educação de qualidade seja obra do acaso e do esforço hercúleo das famílias e educador@s.

Que seja obra de política de Estado, de Nação, para que todos os meios que nos levam a ler e apurar a competência e o gosto pela leitura esteja em nossas mãos.

[1] Esta iniciativa ocorreu quando trabalhava como diretora de educação no Instituto Ecofuturo

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