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Um pequeno barraco de madeira sustentado por estacas. Ícone de uma paisagem inexistente no presente, imagem simbólica do passado. Surpresa nos causa pelo equilíbrio, pela estabilidade, pela centralidade que ocupa no espaço onde está.  Se tomado como referência do tempo linear, cronológico, cíclico, estático, seja qual for a noção, também estará no centro, como marco, como referência, como âncora da lembrança.  Sua cor é o azul.  Não o azul monótono e frio das paredes lisas.  É um azul de muito tons, roubado da cor das águas, do céu e da vida, mutável conforme a luminosidade dos dias, os anúncios de tempestades, os fluxos do mar e os dramas da existência.

O espaço é escasso. Uma pequena varanda é o que restou como porção do mundo exterior.  A porta se abre em duas, primeiro para olhar quem chega, depois para convidar a entrar.  Por dentro, a vida é rosa.  As paredes, de evidente estrutura, selada por tábuas, criam um cenário de móveis e objetos.  Num único cômodo se escreve a vida, dividida em ambiências que propõem o alimento e o repouso. Aqui os objetos falam, feitos de metal, argila, madeira, tecido, papel, couro, eles têm vida.  Isso nos assusta na medida em que nos damos conta da reflexão ali proposta, num convite para vermos adiante dos olhos.  Esses objetos nos falam porque são portadores de vida e não de uma vida própria, na verdade de vidas.

Na parede a lamparina, velhas fotos retocadas, um calendário antigo. Quadros, muitos quadros, do Sagrado Coração, São Jorge, Menino Jesus de Praga, Nossa Senhora da Conceição, todos acima da velha cama patente, geralmente preterida pela rede dependurada sob o travessão. Ao lado um guarda-roupa, vestidos de chita, saias, blusas, calças e camisas, usados com suas marcas e cheiros. Sobre o guarda-roupa há malas de couro e papelão, malas surradas, corroídas por inúmeras viagens, depósitos de lembrança, denunciando que quem ali vive está constantemente de passagem.

Há um criado mudo.  Num barraco, sim!  Duas gavetas que podem ser abertas, porque aqui, os objetos dialogam e podem ser tocados. E ao abrir se encontra mais vida: grampos de cabelo embrulhados num tosco papel, bijuterias descoloradas pelo tempo, orações já muito recitadas e antigas notas de dinheiro, que não compram mais nada, somente o passado.

Um velho rádio emudecido que foi do “Seu Carlos”, uma velha Bíblia com as marcas do sebo e uma imagenzinha de Nossa Senhora Aparecida dão conta das conexões necessárias, nesse ambiente dedicado aos sonhos e à fé.

No outro espaço da casa somos devorados.  Um velho fogão a gás da marca “Cosmopolita”, um paneleiro arrumado com panelas brilhantes e areadas, bule e pratos de ágata, garfos. Colheres e facas desgastados pelo uso despertam um apetite da alma.  Um pote de cerâmica sobre a aba do fogão nos alerta que ali ainda se cozinha com banha.  Sobre o fogão, uma prateleira, singelamente forrada por um papel cortado de forma decorativa, com a geometria dos balões. Ao lado, uma mesa revela que às vezes se substitui o gás pelo querosene, o fogareiro “Jacaré” assim nos diz.  Como não há geladeira, a água geladinha, verte do filtro e da moringa.  E ali somos devorados pelo pensamento, do alimento ganho com o trabalho do dia a dia, dos dias em que não há nada para comer, nos devora a percepção da fome.

O pequeno lugar ainda encontra espaço para uma mesa cercada por três cadeiras, todas diferentes entre si, que acabam por assim formar um conjunto interessante.  Ali é um lugar de encontro, de celebração, ali se encontram as individualidades dos que vivem na casa.  Na mesa se expõem as angústias, nela se conversa e se silencia.  Podemos ver a família, os amigos, os vizinhos, tomando o café da tarde passado no coador de pano,  com um pedaço de pão; a avó fazendo o “capitão”, misturando o feijão cozido com carne-seca e a farinha crua de mandioca;  os pais alegres no dia do batizado servindo o macarrão com galinha.

O telhado é pesado, de telhas de barro tipo francesas, em duas águas, de acabamento irregular.  Não protege tão bem do sol e das chuvas, tem frestas e goteiras.  As telhas, o vento pode arrancar e expor os medos.  Na cumeeira, ponto mais alto, há uma presença simbólica, uma homenagem silenciosa, que ninguém vê. Na cumeeira estão as telhas feitas à mão, no formato de coxa, pela mulher pioneira do lugar.  São suas testemunhas.

Essa casa é de todos e de ninguém. Um barraco de madeira, razão de ser e centro da história da vida de milhares.  É mais que um lugar, é um lugar de memória!

A casa é o eixo da vida. Desde os primórdios, quando o homem passou a fixar-se na terra, ele desenvolveu as mais diversas formas de habitar, como uma das necessidades mais prementes de sua existência humana. No decorrer de milhares de anos este princípio não se alterou. Um dos maiores desafios das sociedades modernas é o de garantir o acesso de todos à casa. O ato de morar é entendido como um direito, um direito tão profundo quanto o direito à própria vida. A própria declaração universal dos direitos humanos elenca o direito à habitação e à moradia dentre os fundamentais e próprios da pessoa humana.

Longe disso a casa é conquista, é milagre, trazida na cabeça ou feita de cera, nas promessas e nos ex-votos.

A casa é abrigo contra as intempéries, o sereno, o vento e o frio. A casa protege contra os riscos das ruas, contra a insegurança da vida. A casa é o lugar da intimidade, é onde somos mais verdadeiramente nós mesmos, onde nos sentimos mais à vontade, onde nos encontramos com nossas virtudes e limitações, onde convivemos mais intimamente com nossas contradições humanas. Entrar na casa de alguém é, de certa forma, como entrar em sua alma.

A casa é lócus de formação da vida, uma espécie de extensão do útero materno, onde se dá o encontro dos pensamentos, lembranças e sonhos do homem.  A casa é, portanto, o lugar onde a nossa vida é forjada, aonde a nossa relação com o tempo vai sendo construída de forma mais pessoal, onde encontramos o passado, o presente e o futuro, convivendo em nossos projetos, ambientes e objetos.

Talvez por isso entrar na casa, mesmo que não seja a nossa, é uma experiência que afeta nossos desejos e sonhos, que vai ao âmago de nosso ser, que mexe com nossos sentimentos mais profundos, que expõe as nossas memórias.

A casa de madeira sobre palafitas, descrita na introdução deste trabalho, é assim.  Não é remanescente, é reconstruída e como reconstrução permite agregar os mais diversos elementos. Ela se propõe a ser uma, mas possibilitando os mais diversos devaneios e percepções por parte de todos aqueles que adentram sua porta, porque é na verdade construída com fragmentos de várias vidas.

Se vivemos em um mundo dito pós-moderno, cujas principais marcas são a perda de eixos referenciais, descarte do espaço concreto como espaço de encontro, comunicação virtual, individualismo e fragmentação de identidades, temos nessa casa um manifesto não escrito, que vai em rota de colisão a este movimento. Uma casa de lembranças, que reúne os fragmentos, que valoriza o espaço local, suas vivências e experiências coletivas, que propõe uma memória projetada de acordo com as experiências de vida, tão diferentes, mas que estão ligadas por um certo fio condutor que perpassa essa memória.  É um movimento de conexão, que extrai das diferentes experiências, sentimentos comuns, que permite o encontro surpreendente do que podemos chamar de uma comunidade de afetos.

As percepções de determinados objetos, considerados objetos sensíveis, pode nos causar lembranças. Num primeiro momento, tais percepções podem parecer limitadoras da memória, mas é no exercício da memória, na redescoberta da possibilidade de lembrar, que se dá a amplitude da lembrança.

A casa cumpre este papel provocador e vai além, pois permite não apenas rever os objetos, mas também abrir caminho para lembranças que emergem da própria memória. Assim, surgem ali relatos de momentos vividos, histórias ambientadas no espaço, manifestam-se sentimentos e transmite-se e partilha-se a memória. Na verdade, um único objeto pode funcionar como abertura, canal por onde a memória transborda.

Assim, se os objetos e lugares são capazes de abrir canais com a memória, provocando sua erupção e espraiamento, quanto mais a casa, lugar da intimidade e do encontro produzirá efeitos ainda maiores no sentido da memória. O ato de lembrar, ancorado num eixo central, em nosso caso a casa, ganha uma nova força que agrega, reúne, coletiviza, expõe as possibilidades de trocas a partir de um elemento que é concreto e está materializado.

Podemos compreender a casa como corpo, a partir de dois temas. O primeiro é o da verticalidade, a casa entendida como um ser vertical: ela está de pé, elevada e por isso se considera o que está acima e o que está abaixo de sua estrutura visível. A verticalidade dá relevância ao telhado como pólo de proteção, suas características como acabamento, inclinação, regularidade, ganham importância na medida em que dão segurança e demonstram a capacidade de enfrentar a natureza e seus fenômenos como garantia da proteção de seus habitantes.  Por outro lado, a altura é destacada como elemento fundamental, ela nos leva ao que não alcançamos e media o diálogo com o inacessível, nos leva ao lugar onde nosso imaginário acredita ser o lugar dos sonhos.

Lugar de Memória

A casa é também o lugar do trabalho.  Registra em si mesma o esforço para concretização do sonho.  A estrutura firme, as formas das vigas, o amarramento do piso e das paredes registram o trabalho dos construtores e servem como referência  para o tema da centralidade. A casa é, portanto, um ser em si mesmo, é a âncora da vida, ocupa um lugar central na memória e por isso está sempre presente em nossas lembranças.

A reflexão sobre a casa, situada num espaço e contextualizada no tempo como um esforço de permanência de uma memória que não existe mais, nos leva a outras reflexões.  Seria uma tentativa de paralisação do tempo? Seria uma medida de desaceleração diante do ritmo cada vez mais acelerado da vida? Seria um esforço para não esquecer?

Para avançar sobre estas questões, lanço mão aqui do conceito de lugar de memória. Esse conceito, hoje largamente utilizado, como todos sabemos, foi criado pelo historiador Pierre Nora quando este teve diante de si o desafio de refletir sobre as mudanças cada vez mais acentuadas na relação da sociedade contemporânea com o passado.

As questões que serviram de fundo para esta reflexão estavam relacionadas com o conceito de estado-nação, o uso social das tradições, a cultura da memória, as linhas identitárias, a dicotomia entre memória e história, as questões da individualidade e da diferença, os desafios entre o global e o local. É importante dizer que o trabalho de Nora estava inserido num ambicioso projeto que pretendia refletir sobre a construção da nação francesa. Nora escreveu num momento em que os franceses preparavam-se para comemorar os duzentos anos de sua Revolução e tinham diante de si questões que apontavam para a revisão do processo de construção da identidade nacional frente aos novos desafios de um mundo globalizado, no qual as identidades nacionais e locais estavam profundamente ameaçadas pelo multiculturalismo e por uma economia muito além das fronteiras, cuja expressão mais concreta estava na proposta de unificação dos países da Europa por meio da União Européia.

Este desenho conjuntural exigia um olhar para si, criando as condições para o surgimento  do conceito de lugar de memória. Tal conceito, por tratar de uma temática que entendemos ser hoje uma das mais inquietantes para o mundo ocidental, ganhou rapidamente a atenção de estudiosos dos mais diversos países, transpondo fronteiras políticas e ideológicas. Se a noção de lugar de memória surge num contexto histórico e nacional, sua percepção revela que os problemas expostos neste conceito, estão enraizados nos mais diversos níveis da sociedade e do espaço e podem ser transplantados, enquanto reflexão, para as realidades locais e regionais. Os dilemas trazidos pela problematização da memória e da história, da relação do eterno presente em relação ao passado e ao futuro, da mesma forma estão globalizados.

Para Nora, os lugares de memória são fruto de um sentimento de perda de uma memória espontânea e por isso mesmo são instituídos. É uma memória comemorativa, referencial, formal, porque perdeu sua existência no mundo social, não mais interage nas relações humanas, é uma memória musealizada.

Nesse sentido, Nora nos fala de uma memória corrompida pela história, de uma memória, que antes calcada nas origens e na ancestralidade, coesa, vivida, passa para uma memória suprimida e golpeada pela história, cuja marca principal é a da descontinuidade.

O trabalho de Nora ganha força no momento em que atribui aos lugares de memória os efeitos material, simbólico e funcional, que coexistem simultaneamente. Nesse aspecto, o lugar de memória, inicialmente tido como representação de um passado que não existe mais, que não tem mais meios de transmissão, assume uma abrangência que pode nos levar justamente para uma ampliação desse conceito, cujas repercussões fogem do concreto e passam para o campo da subjetividade.

Dessa forma, Nora enumera a título exemplificativo, como lugares de memória, o arquivo, que mesmo sendo material, traz em si um caráter imaginário e uma aura simbólica;  um manual de aula, um testamento ou uma  associação de ex-combatentes, todos de caráter funcional, mas que podem ser considerados lugares de memória se portadores de ritualismos;  e num exemplo mais audacioso, Nora cita o “minuto de silêncio”, ato aparentemente simbólico, como um lugar de memória, pela carga de unidade material e temporal de que está revestido.

Sem dúvida, temos na casa, objeto desse trabalho, um lugar de memória. A materialidade talvez seja o caráter predominante deste “objeto” já que existe e é concreto e mais do que um objeto em si, se apresenta como um conjunto de objetos.  Por outro lado, a casa é portadora de uma extrema força simbólica, que não poupa nenhum de seus visitantes, expõe sentimentos, impõe um ritual de passagem, de imersão no tempo.  É também funcional, explicada pelo contexto no qual está inserida, que se pretende como um espaço-museu.

Mesmo com tais evidências, poderíamos aprofundar, a partir destes elementos identificados por Nora, que o lugar de memória pode estar numa abrangência muito maior do que propõe seu conceito seminal.

Os lugares de memória podem assim assumir um caráter ativo, dentro de memórias  inseridas no contexto social.  Não necessariamente podemos considerar que o fato de constituirmos algo como lugar de memória, significa dizer que esta memória não possui meios de estratificação na prática dos grupos sociais. Ao contrário da visão um tanto pessimista e conclusiva de Nora, podemos enumerar uma série de práticas de memória, perfeitamente ativas no contexto da sociedade, que são lugares de memória. O samba é um exemplo, assim como outras expressões musicais, como o forró, a música sertaneja e regional.  Sob todos os aspectos são lugares de memória e estão inseridos na vida social, fala-se em tombamento, em musealização, mas fala-se também em parada de sucessos, em discos de platina, em mercado, em algo extremamente vivo. Tal percepção nos dá conta sim, que mais do que a perda em si mesmo de nossas tradições, o que temos hoje é uma maior consciência da possibilidade de perda e esquecimento, que como fenômeno do atual é maior e mais evidente do que o era no passado. Em decorrência dessa percepção, criamos os lugares de memória.

Outro aspecto importante é o que se refere à velocidade e às influências que geram as mudanças nas tradições.  Parece-me um fator preponderante para a instituição dos lugares de memória.  Temos hoje claramente uma sociedade cujas expressões culturais estão em constante mutação, sob as mais diversas influências. O samba de hoje não é o mesmo da década de 1930, que romantizava a favela e lutava por reconhecimento e superação do estigma, como também não é o samba da década de 1960, quando cantava os mais diversos aspectos da vida com um certo conformismo e apelo.  Hoje há um mercado do samba, com vários públicos e forte redescoberta do passado. Mas o samba está inserido na vida, é memória ativa, é praticado em rodas, em festas, é cantado nas casas, movimenta um mercado, é cantado por “pagodeiros”, pelas grandes escolas, em shows altamente produzidos, é cantado nos bares. Tem vários tons e colorações, identifica grupos diversos, mas é lugar de memória.

A afirmação de Nora de que criamos lugar de memória porque não temos mais meios, porque esta memória está morta, e mesmo esfacelada é necessária, deve ser relativizada. O lugar de memória pode ser um instrumento de ancoragem de uma memória ativa, que interage e se utiliza, também, mas não exclusivamente, deste lugar como instrumento de mediação. O lugar de memória pode assim assumir um papel sócio-pedagógico na formação e transmissão da memória sem exclusividade ou monopólio. O reconhecimento de um lugar de memória não implica necessariamente no fim dessa memória, já que falamos hoje de um lugar onde os caminhos são os mais diversos, onde os caminhos seguem as redes, onde a oralidade e a imagem ganham força, onde as novas tecnologias nos devem fazer refletir e ressignificar nossas perspectivas e prognósticos.

No caso de nosso barraco de madeira, palafita fincada num espaço musealizado, retirada de seu espaço original, reconstruída, temos um lugar de memória por excelência. Mas porque é um lugar de memória?  Por que não existe mais no espaço, além do lugar que a musealiza?  Por esquecimento?  Por falta de meios de mediação? Por esfacelamento?

Na verdade, a palafita é memória porque foi erradicada. Erradicada do espaço urbano e social no qual estava inserida. Foi erradicada por um movimento de reestruturação do espaço urbano, realizado por meio de ações governamentais, mas não foi erradicada da memória. Decorridos cerca de vinte anos do fim deste tipo de habitação na chamada região da Maré, ela está presente na memória de seus moradores, que não esqueceram o ritmo da vida no lugar, as adversidades, as alegrias, as formas de construção, as estratégias de permanência. Dessa forma, aquele tipo de habitação que marcou por mais de quarenta anos a vida de milhares de moradores da Maré está inscrito no passado e por isso sobrevive na memória. Essa memória tem uma duração limitada à geração que vivenciou tal experiência.  Sua reconstrução, porém, reacendeu a possibilidade de não esquecer, proporcionou a retransmissão daquela experiência de memória coletiva, proporcionando o diálogo entre gerações e a continuidade dessa experiência por transmissão, experiências vividas “por tabela”.

Por fim, outro aspecto importante é o da legitimidade: quem a tem para instituir o lugar de memória?  Do trabalho de Nora, depreendemos que o lugar de memória assume um caráter institucional, dentro de um processo de construção da ideia de nação.  Fala-se, portanto, de monumentos, comemorações, datas nacionais e de outros elementos que podem atribuir identidade em um projeto de alcance nacional. A legitimidade para referendar os lugares de memória seria principalmente dos historiadores, numa concepção de história que pudesse conferir e atribuir valores a esses lugares. Poderíamos falar, porém, de outras possibilidades além dos marcos institucionais e das referências de poder que impõem lugares de memória como um projeto político, o que sempre foi feito por todo e qualquer regime, no sentido de utilizar-se ideologicamente dessas referências.

Não se pode esquecer, porém, o papel dos grupos sociais.  Na verdade eles, como portadores das memórias coletivas, podem romper com esta lógica do lugar de memória atrelado à história oficial e construir novos paradigmas que dêem novo sentido a este conceito e rompam com o que Nora diz ser o esfacelamento da memória. Aos grupos sociais cabe ressignificar os lugares de memória, devendo assumir o papel ativo na sua identificação.  Um fator fundamental a ser considerado deve ser justamente o da “utilidade” dessa memória, enquanto combustível de transformação social.

O Museu da Maré

No sentido de construção de novos paradigmas para a memória e numa apropriação da legitimidade para (re)constituição dos lugares de memória é que podemos enfim contextualizar a casa da qual tanto falamos. Ela não está às margens de um rio, não foi erguida sobre mangues, ela se insere num espaço museu, o Museu da Maré.

O Museu da Maré é um lugar de memória instituído por moradores da região da Maré, bairro de conjuntos populares e favelas na cidade do Rio de Janeiro.  Onde o senso comum insiste em dizer que não há nada para lembrar, se constitui um lugar de memória que trabalha o tempo a partir de sentidos e significados e não a partir do cronológico.

Mas, mais do que relembrar, o museu é criado para cumprir um importante papel social, o de questionar, suscitar o debate e a reflexão e ao mesmo tempo provocar os mais diversos sentimentos, expondo os preconceitos e representações existentes sobre as favelas no contexto social da cidade.

Decorridos oito anos de sua inauguração, o Museu da Maré se converteu numa experiência bem sucedida, de invejável vigor, já visitada por mais de 50.000 pessoas, que vale compreender enquanto novidade no uso do passado, como um ponto de referência da memória coletiva local, parte do processo de autoconstrução de uma “comunidade afetiva” que se reforça nos sentimentos de pertencimento, experiência singular num espaço marcado por silêncios e fronteiras invisíveis.

É nesse contexto que surge o desejo de memória. No caso da Maré esse desejo se manifestou a partir da tomada de consciência de jovens moradores, que ao desenvolverem uma experiência de vídeo comunitário, numa proposta de registrar a fala dos mais velhos, se viram surpreendidos por uma história que não conheciam. Desses depoimentos orais surgiram quadros de memória que respondiam a antigos questionamentos desses jovens, referências da história do lugar desconectadas, passam a ter sentido a partir da memória dos velhos moradores, o espaço, as lembranças e o tempo podem ser compreendidos por estas conexões.

Surgia assim a semente de um processo de construção coletiva da memória. Na busca de sua própria identidade, estes jovens mergulharam num processo de pesquisa, que já não se limitava apenas ao depoimento oral, mas avançava em outras formas de registro documental, principalmente num minucioso trabalho de identificação de imagens, já que o objetivo principal era o de realização de um vídeo que contasse a história do lugar.

Nesse trabalho, conseguiram reunir um considerável volume de informação. Puderam recuperar documentos que atestavam a veracidade de várias afirmações contidas nos depoimentos orais, puderam experimentar a descoberta das mais antigas imagens da região, fotografadas pela lente de Augusto Malta nas primeiras décadas do século XX e identificadas pelo fotógrafo como Praia do Apicu, reconhecidas a partir da indicação desse lugar no depoimento de um velho pescador.

Como desdobramento e resultado do engajamento no trabalho de memória, foi constituída a Rede Memória da Maré, que passou a desenvolver, de forma institucional, uma série de projetos voltados para a preservação da memória local.  Dessa forma, com o material produzido pelas pesquisas, constituiu-se um arquivo documental formado por fotografias, documentos, recortes de jornal e depoimentos gravados em vídeo. Como meios de divulgação desse material, foi criada uma exposição fotográfica impressa em banners, que facilmente pode ser exposta em lugares públicos. No mesmo sentido, formou-se um grupo de contadores de histórias, cujo repertório é composto de casos e lendas recolhidos nos depoimentos orais. Esse trabalho parte de uma consciência, que deseja fazer da memória um fio condutor de identidade, que não se entrega ao processo de fragmentação típico desses tempos de modernidade tardia.

Por fim, o desejo de memória chega hoje às últimas consequências com a novidade de um Museu da Maré. O museu, assim chamado de forma provocativa em contraposição à ideia dos museus monumentais, adota o tempo cíclico e temático como referência: a água, a feira, a casa, o medo, a fé, são algumas das formas de contagem desse tempo no qual o passado, o presente e o futuro se encontram.

O eixo central da exposição é a casa, razão de ser da luta que fez surgir a Maré. Os objetos vão sendo integrados à exposição na medida em que os próprios moradores vão definindo o que é importante para ser exposto. O forte da exposição é o farto material fotográfico e a alma, que de forma inexplicável, se sente presente nesse museu. É por isso que além de contar a história, valorizar a cultura local e suas múltiplas formas de identidade e propor uma reflexão que perpassa a ideia do tempo, o museu é um lugar onde as pessoas se encontram, e talvez por isso a experiência de visitá-lo se converta em emoção, como atestam alguns moradores que deixaram suas impressões no livro de visitas:

“Eu morei nas palafitas, hoje moro no Pinheiro, tenho 31 anos, já levei tiro, já fui agredido fisicamente e mentalmente. Mas essa visita faz você notar a evolução de um povo que não tinha nenhuma chance, um povo que luta, que sofre e que com certeza vence a cada dia que passa.  Falo isso como um vencedor que tem muito que fazer para continuar na luta!”

“Sensacional. Se toda nossa memória, a memória da nossa cultura, fosse tão bem representada não repetiríamos os mesmos erros e nossa sociedade avançaria para ser mais igual.”

“Me transportei ao meu passado, quando era criança. Parabéns pelo belo trabalho.  Procurando demonstrar a realidade vivida aqui por muitas famílias, me sinto orgulhoso de fazer parte desta história e de poder ajudar de alguma forma mudar esta realidade.”

“Gostei muito. Foi como se eu tivesse voltado no tempo e visto quanto éramos felizes apesar da pobreza e miséria, mas podíamos brincar sem medo da violência, só das assombrações que imaginávamos ter. Saudades do meu pai que ajudou a fazer vários barracos desses. Cristina nascida e criada na Maré e com orgulho ter uma história para contar para filhos e netos.”

Com a criação do Museu, há um movimento de valorização da experiência vivida.  O sentimento de pertencimento e orgulho, desperta o desejo de transformação da realidade.  É por isso que o Museu da Maré se propõe a não limitar-se a uma exposição, o objetivo é atingir a vida das pessoas e chamá-las a participar. Se elas fazem parte do que vêem e se o que vêem é um momento de um processo contínuo, que elas se sintam convocadas a permanecer como agentes nesse processo, que é o processo de construção da própria vida.

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