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No cenário das bibliotecas brasileiras de música surgiu uma iniciativa inédita de trabalho colaborativo em bases nacionais: o Comitê de Bi­bli­o­te­cá­rios Ca­ta­lo­ga­dores de Acervos de Mú­sica do Brasil (CBICAM).

A proposta é ambiciosa e necessária. Além de buscar o intercâmbio de informações entre os profissionais da área e promover encontros, cursos e publicações, o CBICAM pretende “produzir ferramentas destinadas à organização e recuperação de documentos de informação musical em instituições brasileiras”. Sim, é isso.

Neste momento os integrantes do CBICAM se debruçam sobre a tarefa de reunir a experiência de suas instituições para criar um manual que possa orientar a prática de catalogação de partituras nas bibliotecas brasileiras.

Quem conhece Biblioteconomia e mitologia sabe que, se Hércules fosse obrigado a cumprir 13 trabalhos, o décimo terceiro seria produzir ferramentas para organização da informação no Brasil de forma colaborativa. Se fosse fácil já teria sido feito e não precisaria de bibliotecários, certo?

Desde sua criação em 2014, durante o I En­contro Re­gi­onal de Bi­bli­o­tecas Uni­ver­si­tá­rias da Re­gião Su­deste, ainda como Grupo de Bi­bli­o­te­cá­rios Ca­ta­lo­ga­dores de Acervos de Mú­sica do Brasil, o CBICAM já colocou alguns feitos em seu currículo. Sob a coordenação e inspiração de Do­lores Brandão, chefe da Bi­bli­o­teca Al­berto Ne­po­mu­ceno da Es­cola de Mú­sica Uni­ver­si­dade Fe­deral do Rio de Ja­neiro, já foi realizado um encontro nacional como evento paralelo ao Seminário Nacional de Bibliotecas Universitário de 2014.

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Foto oficial dos membros do CBICAM feita durante o SNBU (2014) / Foto: Flickr da biblioteca da ECA

O grupo original tornou-se um Comitê Técnico subordinado diretamente à Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias da FEBAB. Aconteceram, também, dois encontros regionais: um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, para dar início aos trabalhos do futuro manual de catalogação; foi eleita nova diretoria para o biênio 2016-2017, com Sarah Lorenzon Ferreira, da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP na coordenação.

Recentemente foi lançado o Guia de Acervos Musicais Brasileiros, um blog cuja proposta é reunir informações sobre as instituições que mantêm acervos de documentos musicais no Brasil, facilitando a localização dos acervos pelos pesquisadores e o contato com as instituições. Ao mesmo tempo, o guia-blog se propõe a divulgar o CBICAM e atrair mais alguns hercúleos integrantes para suas hostes. Por enquanto, apenas as instituições que fazem parte do Comitê estão no Guia, mas a ideia é incorporar as demais assim que o fôlego permitir.

O maior desafio que se impõe aos bibliotecários do CBICAM não é apenas encontrar algum tempo para dedicar à reflexão e à criação em meio a condições de trabalho cada vez mais árduas, mas superar os limites impostos por padrões antigos que condicionam, tanto a prática profissional quanto o próprio pensamento dos bibliotecários e sua compreensão de conceitos como normalização e tratamento da informação.

A ideia inicial de parte dos membros do Comitê era trabalhar a partir dos campos do formato MARC, já que a maioria das instituições do CBICAM já adota esse padrão. A proposta, entretanto, traz em seu bojo o risco de produzir um manual em débito com o futuro, consagrando práticas circunscritas ao limite daquilo que é possível fazer e do que é aceitável dentro de um padrão concebido para documentos textuais.

O uso do MARC como ponto de partida também traz problemas de ordem prática, tais como:

Catalogadores de documentos musicais frequentemente precisam trabalhar com implantações em MARC definidas em função das necessidades de suas instituições, para bancos de dados com vários tipos de documentos. Pode não ser tão fácil quanto parece definir uso de campos para documentos musicais quando os catalogadores estão de antemão limitados por decisões institucionais;

O uso do formato é bastante difundido, mas adaptações significativas são muito comuns nos registros de documentos musicais;

Usuários de formato MARC costumam registrar informações importantes para descrever documentos musicais em notas, por não encontrarem campos específicos.

Por esses motivos, pensar em catalogação partindo de princípios e não de padrões estabelecidos pode ser uma abordagem mais produtiva quando se quer elaborar um manual abrangente, válido para diversos tipos de acervo e que resista às mudanças no cenário da catalogação que virão por aí. Minha proposta inicial era usar o modelo Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR), da IFLA, como guia para a elaboração do trabalho.

Por ser um modelo conceitual, o FRBR se presta muito bem a reflexões sobre catalogação, independentemente de normas ou formatos, e à construção de regras, como explica o Fabrício Assumpção neste texto.  Além disso, um manual FRBRizado já prepararia os catalogadores de música para uma eventual implantação do RDA. O problema é que, para essa proposta ser viável, seria necessário que os bibliotecários já tivessem intimidade com o modelo, o que  ainda não é a nossa realidade.

Um caminho alternativo – quem sabe uma terceira via – surgiu no encontro regional de São Paulo, em outubro do ano passado: identificar as informações importantes para descrição de partituras musicais, a partir da prática e do conhecimento acumulado pelos catalogadores brasileiros que trabalham com acervos de música, sem preocupação em pensar, nesse primeiro momento, em campos e subcampos. Cada uma das categorias de informação levantadas seria analisada por todos os catalogadores, que construiriam coletivamente as instruções relativas a cada elemento, explicitando seu grau de importância na descrição do documento.

Posteriormente, mas apenas no momento em que o manual já estivesse tomando forma, as categorias de informação seriam relacionadas a campos MARC e a atributos das entidades do FRBR. Dessa forma, poderíamos construir um manual que, por um lado, ajudasse os bibliotecários iniciantes na área a entender a informação musical e aprender a descrever os documentos com base na prática das instituições e profissionais experientes, e por outro, pudesse embasar os catalogadores de partituras em suas sempre extenuantes discussões com gestores e desenvolvedores de sistemas sobre o que é realmente um catálogo de partituras útil para o usuário.

O trabalho do CBICAM está apenas em seu prelúdio. Dificuldades teóricas e práticas, incertezas quanto ao método, falta de tempo e excesso de trabalho são as hidras e leões que seus integrantes devem enfrentar. O mais importante, porém, é que a orquestra começou a tocar e não vai parar tão cedo.

Para se filiar ao CBICAM, basta enviar um e-mail para a coordenação, no endereço cbicamsecretaria@gmail.com. Apenas bibliotecários podem fazer parte.

Para fazer parte do Guia de Acervos Musicais Brasileiros, basta preencher carinhosamente este formulário: https://goo.gl/OyBkVo. Fotos das instituições podem ser enviadas ao mesmo e-mail acima.

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