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Por Guilherme Freitas de O Globo

Filho de um pipoqueiro e uma lavadeira, o escritor mineiro Luiz Ruffato procura traçar em sua obra um painel da realidade brasileira do ponto de vista dos trabalhadores. Esse estilo se mostra em romances como os da pentalogia “Inferno provisório”, que cobre a História nacional dos anos 1950 ao século XXI, e “Eles eram muitos cavalos” (2001), ganhador de alguns dos principais prêmios do país, como os da Biblioteca Nacional e da APCA.

Em “De mim já nem se lembra” (Companhia das Letras), Ruffato mescla vida íntima e História coletiva para retratar um operário que deixa o interior de Minas Gerais rumo a Diadema (SP), nos anos 1970. Escrita como uma série de cartas dele para a mãe, a narrativa mostra o cotidiano do protagonista — saudades da família, paixões e descobertas na nova cidade — aos poucos dando espaço às preocupações políticas com a ditadura e ao envolvimento crescente com o sindicato. O personagem é inspirado no irmão de Ruffato, e a narrativa é apresentada como se o próprio escritor encontrasse um pacote de cartas dele para a mãe, depois da morte dela.

Numa das últimas cartas, pouco antes de sua morte precoce, o protagonista celebra a reeleição do presidente do sindicato local, o então metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, em 1978. O livro termina às vésperas das greves no ABC que abalariam o regime militar e abririam caminho para a fundação do Partido dos Trabalhadores. Escrito em 2007 para um programa de educação de jovens e adultos, “De mim já nem se lembra” está sendo republicado, em versão ampliada, no momento em que o país atravessa uma de suas crises mais profundas.

Em entrevista por telefone, Ruffato, de 55 anos, reflete sobre o lugar do escritor em tempos de crise e sobre os ecos no presente da época retratada em “De mim já nem se lembra”. Critica governo e oposição e diz que, com a classe política em descrédito, o país corre o risco da ascensão de um candidato a “salvador”.

Até que ponto “De mim já nem se lembra” é inspirado na história da sua família?

Tudo que está no livro é verdade, mas tudo que está no livro é ficção. Meu irmão, minha mãe e outros parentes são citados com os nomes reais, há um personagem secundário com meu nome, as questões nas cartas do irmão são reais, o relato sobre a morte da mãe é próximo do que aconteceu comigo. Mas quem disse que as cartas existem? Não garanto. Toda literatura, de uma forma ou de outra, é autoficção, mas não gosto daquela que se “vende” como autoficção.

O que você quis mostrar no romance sobre a realidade dos trabalhadores durante a ditadura?

Cada romance meu é uma tentativa de reconstruir a História do país a partir de um ponto de vista pouco presente na literatura brasileira, o do trabalhador urbano. Em “Inferno provisório”, eu já tinha abordado o período da ditadura, mas numa cidade do interior. Em “De mim já nem se lembra” quis falar da ditadura de uma forma mais direta, sem ser explícita. A ditadura é vista por um trabalhador que a princípio não entende muito bem o que está acontecendo e vai compreendendo aos poucos, por conta própria.

O livro termina em 1978, às vésperas das greves no ABC. Por que escolheu concluir com esse momento?

Porque ele marca o começo de uma nova etapa da História brasileira, que vai pôr fim à ditadura e dar origem a uma nova experiência política, o Partido dos Trabalhadores. Meus livros se comunicam. O último volume de “Inferno provisório”, “Domingos sem Deus”, termina em 31 de dezembro de 2002, às vésperas da posse de Lula como presidente, quando o que era sonho em 1978 se transformou em realidade. Os dois romances terminam no limiar de grandes mudanças, porque, como narrador, não me sinto em condição de julgá-las. Como cidadão, sim.

O que aquele momento retratado no romance significou para o país?

O romance fala de uma personagem que ajudou a construir essa nova etapa, mas não era um líder, era alguém que sonhou junto. Falando como cidadão, eu também sonhei junto. No momento atual, é importante reconhecer que a fundação do PT e os mandatos do Lula foram fundamentais na história política do país, os números mostram como a vida da população melhorou. Ao mesmo tempo, é uma grande frustração ver que o sonho se transformou em pesadelo, ver a derrocada de algo que acreditamos que poderia transformar o país.

No seu discurso na Feira de Frankfurt, em 2013, você apontava a permanência de problemas históricos no Brasil, como educação deficiente, violência, preconceito e corrupção. Como interpreta a crise atual?

Ninguém parece realmente interessado em resolver o imbróglio em que estamos metidos. Tudo virou uma grande briga pelo poder. O PT, que já não posso chamar de um partido de esquerda, teve a oportunidade de modificar estruturalmente o país, mas não fez isso, por interesse ou incompetência. O PSDB e os outros partidos mais à direita também não querem resolver nada. Estamos em uma crise política, econômica e institucional, mas só se fala em quem vai ficar com o poder. Todos os lados parecem em busca de um salvador.

Como avalia as manifestações?

Os protestos de rua rejeitam todos os políticos, e não sem razão, porque as lideranças estão podres. Mas isso cria um vácuo, um espaço para alguém com um discurso salvacionista. Já vivemos isso no Brasil, e sempre deu errado. A última vez foi com Collor, mas acho que hoje o cenário é pior do que naquela época, porque temos uma divisão profunda no país.

Você falou sobre a dificuldade de escrever a respeito de transformações. O que um escritor pode fazer diante de uma crise como a atual?

Não acho que escritores tenham obrigação de se engajar em política. Refletir sobre a realidade imediata é papel do jornalismo. A literatura está sempre um pouco “atrasada” em relação à História. Mas a importância dela pode estar justamente nisso. O que a literatura pode fazer é lançar um olhar ao passado para iluminar o presente. Quando imbecis vão à rua pedir a volta da ditadura, vemos que muita gente não conhece História.

TRECHO DE “DE MIM JÁ NEM SE LEMBRA”

“Diadema, 9 de outubro de 1977

Mãe,

Setembro foi um mês complicado para nós. Ninguém falou nada, mas conseguimos mobilizar um mudaréu de gente na nossa campanha pela reposição dos 34,1%, quer dizer, para repor no nosso salário um índice que o governo roubou do trabalhador. O pessoal do sindicato ficou contente para burro, porque os mais velhos falaram que desde o começo da ditadura não viam coisa assim acontecer por aqui. Agora, vamos preparar para o ano que vem. Está todo mundo animado e já tem gente falando que agora a coisa vai.”

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