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Suspeito que a palavra mais repetida entre aqueles que exercem o poder seja “verdade”. Certezas pretensamente estáveis e incontestáveis nos acompanham, desde criancinha: é o brinquedo adequado, é o Deus a ser adorado, é o livro aconselhado. Por detrás de todas essas verdades há um desejo profundo de tornar menos caótico e subjetivo o corpo e suas relações. É a partir daí, da constatação do caos e do desejo de nos livrarmos dele, que recorremos ao pai, ao padre e ao médico para que nos diga: O que sou, de fato? Como devo agir para que essa verdade ontológica que o senhor me anuncia seja mantida e jamais ferida?

E daí surge uma questão com desdobramentos muito práticos: quais os perigos a serem evitados? O que devo comer, o que devo ler, o que devo dever? A resposta a essa pergunta pressupõe a existência dos “senhores da verdade”, decididos a proferir, com seus dedos e anais, o que é a verdade. É a verdade paterna que determina as boas e más companhias, é a verdade escolar que dispõe sobre o que merece ser estudado, é a verdade eclesial que tipifica o pecado.

E assim, mesmo sem notar, vamos sendo tragados no curso da vida por um fino e poderoso redemoinho de verdades que se arroga no direito de estabelecer em nossas existências as fronteiras entre o belo e o feio, o certo e o errado, o cientifico e o mítico.

Mas afinal de contas, o que é a verdade, já perguntava Jesus, antevendo a dificuldade da empreitada. Foucault passou boa parte da vida rascunhando uma resposta para essa questão; para ele, não existe “a verdade”, mas “efeitos de verdade” produzidos por mecanismos específicos destinados a justificar, de forma razoável e específica, as relações de poder.

São os efeitos de verdade que garantem a legitimidade do comando do pai e do médico, e que, de rebote, renega uma série de narrativas consideradas perniciosas ou, simplesmente, imprestáveis para a estrutura vigente. É desse desejo de fortalecer o institucionalizado por meio da negação de um passado considerado inglório, incluindo as feridas sociais ainda abertas, que nos deparamos com máquinas de verdade, silenciadoras de vozes consideradas mentirosas ou indisciplinadas.  A censura e o cânon literário nascem daí.

Conheci Foucault ainda na graduação. Logo que terminei “Os Anormais”, abri um sorriso faceiro ao constatar a potencialidade do seu pensamento na compreensão da articulação desses jogos de verdade e estratégias de poder, inclusive no campo da leitura.

Rodmentor: Demon of Love. Imagem: reprodução

Passados 23 anos, reconheço que fiz uma boa escolha. Afinal, a democratização da literatura e da biblioteca passa, necessariamente, pela compreensão das regras do jogo de enunciação. Isso envolve compreender a difusão e os pretensos efeitos maléficos e benéficos dos livros, o confronto de suas modalidades, as táticas de leitores e as estratégias dos editores.

É por isso que continuo a traduzir o catecismo francês dos oitocentos descoberto ao acaso, durante as minhas últimas férias de julho. Penso que enquanto tentativa de visibilizar as regras do jogo de verdade, esse livrinho eivado de proibições tem lá sua importância. Afinal de contas, sempre existe a possibilidade de que antigos mecanismos destinados a legitimar o poder voltem a ser adotados, ainda que sob novas roupagens.

Sendo assim, a leitura desse segundo trechinho do catecismo francês oitocentista tem certo potencial de produzir, além do riso, alguma habilidade no trato inteligente com a literatura e as bibliotecas. Essa perspectiva, pautada numa desconfiança do jogo, seja das suas próprias regras, seja de quem lança os dados e corta as cartas, deve ser fomentada, independentemente do regime político e do partido reinante. Essa postura não deixa de ser bastante criativa, levando-se em conta o binarismo tosco e virulento que se instaurou em boa parte do mundo, incluindo o Brasil.

O fato é que, se o cristianismo, com seus catecismos e outros mecanismos, censurou, em certas circunstâncias, pensamentos e corpos, doutrinas pretensamente libertadoras fizeram o mesmo e, em certos casos, com maior habilidade. É o que bem disse Foucault: “As Luzes que descobriram as liberdades inventaram também as disciplinas.” Honestamente, não encontro motivo para duvidar de Michel Foucault. Desejo a todos uma ótima leitura!

Romances Perigosos

Podemos ir para o céu sem a inocência da alma?

Isso é impossível.

Por quê?

Porque:

  1. Nada impuro entrará no reino dos céus;
  2. Somente os corações puros terão a felicidade de ver a Deus.

Se perdermos a inocência da alma?

A tiraríamos do paraíso, a condenaríamos ao inferno, causaríamos nela um dano incalculável.

Há livros capazes de arrancar a inocência das almas?

Não existem apenas livros, mas também publicações diárias e semanais, folhetins, almanaques etc. que, naturalmente, tiram as almas de sua inocência.

O que encontramos de mais terrível nesses romances perigosos?

O vício aconselhado;

A virtude estigmatizada;

A infâmia mais indigna qualificada como fraqueza muito tolerável;

A criatura mais vil transformada em pecadora amável;

Os instintos mais perversos despertados e encorajados;

As paixões mais repugnantes glorificadas;

A consciência transformada em preconceito, e o dever em palavra vã;

Os contos mais licenciosos, os relatos mais obscenos se alastrando, impudentemente, sob os olhos do leitor;

Numa só palavra, a pura corrupção.

Eis o que se é encontrado de pior nesses romances.

O que encontramos de menos terrível nesses romances perigosos?

Máximas muito longas, muito convenientes, mas, também, muito opostas às do Evangelho;

Situações desfavoráveis para a prática da virtude;

Intrigas despertando uma curiosidade mórbida, estimulando a concupiscência das inclinações mais ou menos adormecidas;

Sentimento apresentado em cores muito capazes de seduzir um coração sensível e inexperiente;

Expressões ternas, lânguidas, efeminadas;

Narrações apaixonadas, cativantes;

Figuras sedutoras, encantadoras etc.

É o que identificamos nesses romances, aparentemente menos ruins e, na realidade, mais perigosos que os anteriores.

Entre os romances menos perigosos, o que encontramos?

Contos fabulosos;

Histórias frívolas, arquitetadas para o prazer;

Narrativas fantasiosas que somente ludibriam o pensamento, distorcem o juízo e insuflam na alma o desgosto pelas coisas sérias e o amor pela futilidade, pela ninharia, aspirando coisas proibidas.

O que você pensaria de um romance capaz de elevar almas e trazê-las a Deus, insuflando nelas o amor pela virtude e o horror pelo vício?

Esse seria um bom livro que poderia ser colocado nas mãos daqueles que amam ler.

Há romances realmente honestos?

Sim, mas eles são raros, muito raros.

Para avaliar a qualidade moral de um romance é necessário reportar-se ao título, às aparências?

Não.

Por quê?

Porque poderia ser, apenas, um lobo em pele de cordeiro, como se vê frequentemente.

O que é então necessário para garantir a qualidade moral de um romance?

Devemos examiná-lo bem de perto e avaliar se, sob uma aparência religiosa, não dissimula algum veneno terrível.

Os efeitos dos maus livros

Do que precisamos para se viajar durante uma noite escura?

Duma luz.

Se soprarmos esta luz?

Acabaríamos com ela.

E se desligássemos essa luz?

Mergulharíamos na escuridão.

E depois?

Estaríamos expostos a uma série de perigos.

Que perigos?

O perigo de se perder;

O perigo de cair em abismos;

O perigo de ser surpreendido por ladrões ou assassinos;

O perigo de ser devorado por animais ferozes.

O que aconteceria com este pobre viajante?

Ele logo encontraria a morte, vítima de um desses perigos.

O cristão não é um viajante?

Sim.

Para onde ele vai?

Para o céu.

Ele possui uma luz para guiá-lo nessa grande jornada?

Sim.

Que luz?

A luz da fé, que lhe aponta o final feliz da jornada e o caminho para chegar até lá.

Se o cristão soprasse a luz divina?

Ele a extinguiria.

O que aconteceria?

Bem, ocorreria as maiores desgraças.

Que desgraças?

Ele se afastaria do bom caminho;

Ele cairia no abismo do pecado, enquanto aguarda o inferno;

Ele se tornaria uma presa do demônio que tomaria sua vida e todos os seus bens espirituais, enquanto aguarda o suplício nas chamas da prisão eterna;

Pois bem, o que o cristão está fazendo quando se permite ler livros impiedosos e irreligiosos?

Este cristão sopra a luz da fé recebida no batismo e atua para apagá-la.

Como isso se dá?

Por meio da leitura de livros ímpios e irreligiosos, a mentira e o erro penetram, pouco a pouco, na alma, obscurecem a verdade, produzem as trevas e, imperceptivelmente, acabam extinguindo a luz divina da fé.

A que se assemelha esse cristão que, por meio de leituras ímpias, extinguiu nele a tocha da fé?

Ele se assemelha a um homem cego.

Como o cego se comporta?

O cego tateia em torno de si, levando seus passos incertos por todos os lados, trombando, em pleno meio dia, com os obstáculos que o cercam, muitas vezes caindo e sofrendo com a lembrança de sua enfermidade.

E o que acontece com o nosso cego espiritual?

Primeiramente, ele é indeciso, incerto, dividido entre mil ideologias, duvidando de tudo, tremulando com todos os ventos do erro.

E depois?

Depois, expulso do caminho da salvação, ele colide com todos os obstáculos e cai num abismo de pecados, especialmente no pecado vergonhoso, castigo comum do orgulhoso que afirma: “Eu não crerei”.

E então?

Então, esse desviado infeliz experimenta uma angústia pungente, sente uma perturbação indescritível acompanhada de lágrimas dolorosas a ponto de, às vezes, chegar a uma repulsa insuperável da existência, o que o leva ao desespero e até ao suicídio.

E finalmente?

Finalmente, este infeliz, caído nas mãos dos príncipes das trevas, tornou-se presa dos demônios, que o prendem aqui embaixo na mais terrível das servidões, esperando que eles o torturem durante o interminável período da eternidade infeliz.

São muitas as vítimas do livro ou do jornal ímpio?

São muito numerosas.

Qual o motivo?

A razão é que o livro e o jornal ímpios são lidos por multidões de homens, jovens e até mulheres e meninas.

O que acontece quando nos expomos ao perigo?

Segundo a Palavra de Deus, nós perecemos no perigo.

E quando engolimos veneno?

Nós morremos envenenados.

E quando respiramos um ar contagioso?

Somos vítimas de contágio.

O que acontece com o leitor de livros e jornais impiedosos?

Ele se expõe ao maior de todos os perigos;

Ele ingere o veneno mais sutil;

Ele respira o ar mais contagioso.

É de se surpreender que ele seja a triste vítima de sua leitura?

O contrário é que surpreenderia.

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