0
Compartilhamentos
Redefinição de Impressão Google+

Embora os profetas pós-modernos de plantão tenham vaticinado o fim do livro (sobretudo o de papel), nunca se editou tanto como na última década. Agora, com a chegada dos tabletes, parece que o formato e-book vai de fato vigorar, afinal, ler um livro extenso na tela do computador ou mesmo do notebook não é nada prazeroso.  Nesse quesito, o livro de papel é imbatível: leve, portátil, não precisa de bateria e ocupa espaço mínimo. O tablete parece destituir a aversão à leitura em máquinas, já que assume o formato de um livro e é relativamente leve. Mas substituir o livro de papel, aí são outros quinhentos: um suporte é somente um suporte; o conteúdo é o que importa. Das inscrições nas paredes das cavernas, aos tijolos de barro mole, passando pelo couro de cabra, papiro até chegar ao papel, o que vimos foi uma atualização do suporte.

Mas esta resenha não foi feita para promover o brinquedinho tecnológico em detrimento do velho brinquedo de papel. Não mesmo. Se o importante é o ato da leitura em si, já disse, o suporte não importa tanto. Há gosto para tudo. Repito: nunca se publicou tanto como nos últimos anos. E isso é um problema para as livrarias e editoras. Onde estocar tanto livro? Como fazer uma divulgação eficiente? O que priorizar nas prateleiras? Tarefa difícil, que passa sempre pelo crivo não da qualidade literária, mas na lógica de quem paga mais para ser mostrado. Paga-se por um espaço na prateleira, por um anúncio no programa televisivo, por uma etiqueta num site, por uma resenha num tabloide. Paga quem pode para ter seu livro à mostra. E nesse jogo, muita porcaria é vendida como preciosidade, enquanto muita preciosidade permanece no baú do esquecimento.

Felizmente, os avanços da internet e as redes sociais têm feito um papel importante na divulgação que antes era boca a boca. De repente, um livro passa a ser objeto de desejo de muitos simplesmente porque foi divulgado numa corrente digital (facebook é o boom da vez). A crítica especializada acaba sendo substituída pelo crítico comum, o leitor mesmo, que espalha comentários positivos sobre o que leu e vai fazendo a publicidade da obra. Menos mal.

Livros que deram o que falar e o que pensar em 2011

Longe das previsões catastróficas de fim de mundo (do livro), para começar o ano com a leitura em dia, aí vão sugestões de livros de ficção, em diversos gêneros, para a família toda saborear nas férias ou aos poucos, durante o ano. São livros que, de certa forma, refletem o vigor da literatura e confirmam sua permanência.

1. CRÔNICA: Feliz por nada (L&PM, R$ 31,00) é mais um dos livros de Martha Medeiros, uma cronista das boas. As crônicas dela agradam o público feminino. Os seus textos têm sido adaptados para filmes, séries de TV e teatro. Sinal de que ela fala para o nosso tempo.

2. CRÔNICA: Em algum lugar do paraíso (Objetiva, R$ 36,90). Livro com 41 crônicas do bem-humorado e incansável Luis Fernando Veríssimo. Veríssimo dispensa apresentações, suas crônicas leves e engraçadas mostram muito da face múltipla do brasileiro. Temas como o amor, a vida, a morte e o transcorrer permeiam esses textos inéditos, com personagens comuns, mas apresentados com sua riqueza existencial: o aposentado, a mulher que caça viúvos, casais em vias de separação, o papai-noel do shopping… Certamente o leitor vai se encontrar em um dos personagens.

3. ROMANCE: Cemitério de Praga (Record, R$ 79,90). Em se tratando de um romance de Umberto Eco, não é um livro policial comum. O autor sabe construir uma trama recheada de informações históricas (não necessariamente para serem tomadas ao pé-da-letra). Este é mais um romance que merece virar filme, como aconteceu com O nome da rosa. Temas que prendem o leitor não faltam nesta história. O jovem Sigmund Freud, o escritor Ippolito Nievo, missas negras, conspiração de jesuítas contra a maçonaria, judeus que querem dominar o mundo, uma satanista… O personagem central, fictício, é Simone Simonini, um anti-herói a serviço de vários governos, um falsário envolvido em complôs, assassinatos e conspirações.

4. ROMANCE. Passageiro do fim do dia (Companhia das Letras, R$ 42,00) Toda sexta-feira, fim de tarde, Pedro pega o ônibus de volta para sua casa, na periferia pobre da cidade, um lugar violento,onde vai encontrar sua namorada. Durante o trajeto, narra o que vê através da janela ou o que está acontecendo dentro do ônibus, tudo aliado a reflexão sobre fatos de sua vida. Um romance pós-moderno, sem uma linearidade, mas com fragmentos costurados tão bem pelo autor. Rubens Figueiredo ganhou um dos principais prêmios do ano, o Portugal Telecon, mostrando que sua narrativa tem vigor e veio para ficar. Leia o início do romance aqui.

5. QUADRINHOS: Bando de Dois (Zarabatana, R$ 36,00) Sim, quem disse que quadrinhos não são literatura? Muitas adaptações de clássicos e uma infinidade de tramas originais têm sido apresentadas no formato quadrinhos. Definitivamente, esse gênero vem mostrar que não é coisa apenas para criança, como o senso comum imagina; nem formato apenas para narrativas de super-heróis. Cada vez mais, os quadrinhos têm apresentado verdadeiros romances, histórias realistas, em formato livro. Bando de dois, de Danilo Beyruth, destaque da 23ª edição do Troféu HQMix, o principal da área de quadrinhos do país (venceu em três categorias), resgata as narrativas sobre o cangaço, mas  num formato diferente do cordel ou do romance tradicional. Únicos sobreviventes de um bando, Caveira de Boi e Tinhoso saem à procura das cabeças decepadas dos companheiros, depois que Tinhoso tem um sonho com seu comandante morto, pedindo que ele os ajude a ter descanso eterno. Os dois cangaceiros precisam enfrentar o exército.

6. QUADRINHOS. (Editora Autêntica, preços variados). Vários clássicos adaptados. Acabaram de ser lançados. Imagine peças famosas de Shakespeare em quadrinhos? Pois a editora acaba de lançar Otelo, Romeu e Julieta e Sonho de uma noite de verão. Há também outros autores, como Dom Casmurro, do Machado. Leitura para jovens.

7. INFANTIL: Imitabichos (Cosac&Naif, R$ 36,75) Esta editora não produz livros, mas obras de arte. Cada obra é realmente tratada como um objeto que agrada a mente e os olhos. E tem garimpado preciosidades. Um dos melhores livros infantis do ano foi escrito na verdade em 1927, pelo russo Serguéi Tretiakóv e ilustrado por seu amigo, Rodtchenko. Nunca publicado no seu país de origem, o livro contém nove poemas que ensinam as crianças a imitar bichos. Foi ilustrado com maquetes de papel fotografadas sob um jogo de luz. Maravilha. Ainda inclui um encarte com moldes para a criançada montar seus bichos. Veja um vídeo com as ilustrações animadas aqui.

8. CONTO: Essa história está diferente: dez contos para canções de Chico Buarque (Companhia das Letras, R$ 46,00). Que Chico é o mestre da composição, um dos maiores do cancioneiro brasileiro, ninguém tem dúvida. Suas canções são verdadeiros roteiros narrativos onde desfilam personagens que têm a cara e alma dos brasileiros. Pensando nisso, a Cia da Letras convidou dez autores renomados para compor um conto ou crônica inspirados nas letras de Chico. De Verissimo a Mia Couto, o resultado é um elenco de vozes que cantam/narram cenas tão humanas, que só as canções de Chico poderiam denotar.

9. POESIA: Em alguma parte alguma (José Olympio, R$ 30,00), Ferreira Gullar. Livro do ano, ganhador do jabuti de poesia em 2011. O velho Gullar mostra que sua poesia não envelheceu. É mais lido do que nunca. E contradiz o lema que poesia não vende. A própria poesia é quem fala: “Que a sorte me livre do mercado/ e que me deixe/ continuar fazendo (sem saber)/ fora do esquema/ meu poema/ inesperado…”.

10. LIVRO EM POP-UP. Na floresta do bicho-preguiça (Cosac&Naif, R$ 44,00) Todo mundo adora. Criança, jovem, velho. O livro na técnica pop-up é aquele em que as imagens saltam tridimensionalmente às nossas vistas, página por página, revelando cenários fascinantes de papel. Cada vez mais a técnica se sofistica. O livro que indico é obra de dois autores franceses, mas tem muito a ver com O Brasil, porque conta a história de devastação da floresta amazônica. Cada vez que viramos a página, a floresta vai surgindo menor, por conta da maquinaria do progresso. E o bicho-preguiça é apenas uma das figuras ameaçadas. O livro vale tanto pela beleza da composição dos cenários, quanto pela mensagem que transmite ao leitor. Boa opção para pais lerem junto com os filhos. Veja aqui um vídeo sobre essa obra de arte.

Cursos online de qualificação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Acesse!

Comentários

Comentários

Postagem anterior

Diálogos: Verônica Sá e Elizabeth Varela

Próximo post

A nova ficção sobre os nordestes

Sem comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *