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Publicada no Brasil e em Moçambique, a coletânea reúne contos de escritores e de escritoras do brasileiro(a)s e moçambicano(a)s e é fruto de uma parceria da Editora Malê com a Editorial Fundza, de Moçambique.

O propósito do livro é servir de veículo para a ampliação do conhecimento sobre a literatura produzida pelos autores elencados, fazendo com que os contos brasileiros de Conceição Evaristo, Marcelo Moutinho, João Anzanello Carrascoza, Rafael Gallo, Eliana Alves Cruz, Cristiane Sobral e Miguel Sanches Neto sejam mais conhecidos em Moçambique, e da mesma forma, que os contos moçambicanos de Mia Couto, Lilia Momplé, Alex Dau, Diogo Araújo Vaz, Dany Wambire, Carlos dos Santos e Daniel da Costa encontrem mais leitores no Brasil.

Uma obra que estreita laços culturais em um território fértil como a literatura e promove um inovador intercâmbio cultural literário entre os dois países.

Sobre o livro

Embora as literaturas contemporâneas brasileira e moçambicana não sejam tão conhecidas entre os dois países, em dado momento histórico, entre as décadas de 1950 e 1970, as conexões literárias entre Brasil e Moçambique contribuíram para a formulação do sistema literário moçambicano, com destaque, neste trânsito, para a literatura do escritor Jorge Amado.

O escritor Mia Couto, presente nesta coletânea, já afirmou em textos e palestras sobre a importância de Jorge Amado para a literatura de Moçambique. Segundo Couto[1], os escritores moçambicanos careciam de um português sem Portugal, de um idioma que, sendo do Outro, ajudasse os escritores moçambicanos a encontrarem uma identidade própria.

Para Mia Couto, Jorge Amado e outros escritores brasileiros devolveram aos moçambicanos a fala num outro português, mais açucarado, mais dançável, mais do jeito de ser moçambicano.

Mia Couto também está na coletânia da Editora Malê. Foto: Pedro Soares

No mesmo período em que a obra de Jorge Amado chegava a Moçambique, também chegavam os textos de Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, entre outros, influenciando a literatura e a cultura moçambicanas.

Por outro lado, é apenas a partir da década de 1990 que ocorre um aumento de conhecimento no Brasil sobre a ficção moçambicana, com destaque para escritores como Mia Couto, Paulina Chiziane e Ungulani Ba Ka Khosa. Este encontro, que em primeira análise parece tardio, está relacionado, entre outros fatores, com a própria história da literatura moçambicana.

Segundo Salgado[2], a ficção moçambicana parecia fadada ao surgimento esparso de obras isoladas, como a precursora “Godido e outros contos”, de João Dias, em 1952; a emblemática “Nós matamos o cão tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana, em 1964; ou a pioneira no campo do romance moçambicano, “Portagem”, de Orlando Mendes, em 1966.

Para a pesquisadora, com a narrativa de Mia Couto, a partir dos anos de 1980, a literatura contemporânea moçambicana recebeu um grande impulso para se projetar no espaço da ficção, e, nesse mesmo período, também se revelou a prosa de Ungulani Ba Ka Khosa, Lília Momplé, Paulina Chiziane e Suleiman Cassamo, sem falar em uma série de outros ficcionistas revelados pela revista Charrua, como Aníbal Aleluia e Pedro Chissano.

Ainda de acordo com Salgado, nesse período houve uma verdadeira explosão de talentos na narrativa moçambicana, atestada na antologia de contos, “As mãos dos pretos”, organizada por Nelson Saúte.

Vê-se, pelas asserções de Salgado, que a ficção moçambicana ganha maior corpo a partir da década de 1980 e, neste sentido, entender a literatura moçambicana a partir da perspectiva de Francisco Noa nos aponta caminhos para pensarmos a reunião de contos moçambicanos em “Do Índico e do Atlântico”.

Para Noa[3], a literatura moçambicana surgiu em contraponto à literatura colonial, que era feita pelos brancos, que ridicularizavam e diminuíam os negros; os escritores surgem para se insurgir contra isso, valorizando o negro e, nessa fase, a nacionalidade contrapõe-se à colonialidade. O pesquisador ainda aponta outra fase desta literatura, que chama de transnacionalidade, representada por uma geração que não está preocupada com as raízes, que pensa na globalização e na imersão no mundo atual.

Noa define como principais características dominantes da literatura moçambicana: que emerge durante o período da vigência do sistema colonial; é uma literatura relativamente recente (cerca de 100 anos de existência); que traduz os paradoxos e complexidades gerados pela colonização, quais sejam, literatura escrita e difundida na língua do colonizador, dualismo cultural ou identidade problemática dos autores, oscilação entre absorção e negação dos valores e códigos da estética ocidental etc.

Além disso, em praticamente todo o seu percurso, a maior parte dos textos é difundida sobretudo na imprensa, fato que irá prevalecer sensivelmente até meados da década de 1980; é um fenômeno essencialmente urbano.

Dany Wambire, escritor e editor da Revista Soletras, selecionou os autores moçambicanos para a publicação.

Até 1975, Moçambique era colônia portuguesa e as produções desse período são consideradas como literatura colonial, no entanto, vale ressaltar, que de modo insurgente; a partir das décadas de 1940 e 1950, já se inicia uma produção de uma literatura com uma temática diferenciada.

A pesquisadora Fátima Mendonça[4] indica uma periodização para a história da literatura moçambicana. Desta forma, de 1925 a 1947, há uma temática de assimilação; de 1947 a 1964, existe a produção de poesia que contesta o colonialismo; e de 1964 a 1975, surgem textos que, além de contestar o colonialismo, buscam a construção de uma identidade nacional.

Destaca-se também a geração de escritores que surgiram na década de 1980 em torno da AEMO ‒ Associação de Escritores Moçambicanos (1982), como também, na década de 1990, em torno da revista Oásis (1997). E, por fim, há neste livro a presença de escritores da “Geração Internet”, surgida nos anos 2010, agregados nas revistas Literatas (2011) e Soletras (2013), da qual Dany Wambire é o editor.

João Anzanello Carrascoza participa com o conto “Dias raros”. Foto: Vicci

Em relação aos contos brasileiros, os autores elencados neste livro fazem parte da diversidade da literatura brasileira contemporânea, que sucede o modernismo na literatura brasileira. O modernismo teve grande importância e características marcantes, como a quebra dos padrões tradicionais e a busca da identidade nacional.

Muitos pesquisadores indicam como início da literatura brasileira contemporânea a década de 1960. Neste período, em busca por uma nova forma de expressão literária no pós-modernismo, a literatura brasileira contemporânea foi marcada por alguns fatores sociais, como a mercantilização da literatura, a modernização urbana, o processo rápido de industrialização e do consumismo, as lutas de classe e a agressividade no meio político.

Segundo Santiago, de maneira tímida e depois obsessiva, a literatura brasileira, a partir do golpe militar de 1964, passou a refletir sobre o modo como funciona o poder em países cujos governantes optam pelo capitalismo selvagem como norma para o progresso da nação e o bem-estar dos cidadãos.

Para o autor, operou-se um importante processo evolutivo linear do modernismo, concretizado por um gesto de ruptura que determina o aparecimento de um novo período da nossa história literária, chamado de pós-modernista. Vale também destacar que o grande período pós-1964 até a atualidade, nos instiga a refletir que a pluralidade da literatura brasileira contemporânea é decorrente da influência de fatos históricos e contextos sociais que foram se modificando constantemente.

Eliana Alves Cruz participa com o conto inédito “Noite sem lua”. Foto: Fco Jorge

Neste sentido, com exceção de João Anzanello Carrascoza, que publicou seu primeiro livro, “Hotel Solidão”, em 1994, todos os outros textos brasileiros que compõem a coletânea são de escritores e escritoras que passaram a publicar depois dos anos 2000.

Alguns fazem parte do que se convencionou chamar de Geração 90 e Geração 00, autores que fizeram uso das possibilidades que a Internet ofereceu para a divulgação dos seus textos e que aparecem em diversas coletâneas destas duas décadas.

Outro destaque, tratando-se da literatura brasileira contemporânea, se dá em relação as vozes tradicionalmente invisibilizadas, como as das escritoras negras. Estas escritoras encontraram, a partir do início da década de 1980, nos “Cadernos Negros” – publicação periódica voltada para a produção de escritores e escritoras afrodescendentes – um espaço para a divulgação dos seus textos.

Logo, percebe-se que o entendimento sobre a literatura brasileira contemporânea e dos textos apresentados nesta coletânea também passa pela emergência das novas vozes sociais que disputam espaços para participar do campo literário. Para Dalcastagnè pensar a literatura brasileira contemporânea depende de movimentar um conjunto de problemas. Isso porque todo espaço é um espaço em disputa, seja ele inscrito no mapa social, ou constituído numa narrativa.

Daí o estabelecimento das hierarquias, às vezes tão mais violentas quanto mais discretas consigam parecer: quem pode passar por esta rua, quem entra neste shopping, quem escreve literatura, quem deve se contentar em fazer testemunho. Dalcastagnè alerta que a não concordância com as regras implica avançar sobre o campo alheio, o que gera tensão e conflito.

Por isso a necessidade de se refletir sobre como a literatura brasileira contemporânea, e os estudos literários, se situam dentro desse jogo de forças, observando o modo como se elabora (ou não se elabora, contribuindo para o disfarce) a tensão resultante do embate entre os que não estão dispostos a ficar em seu “devido lugar” e aqueles que querem manter seu espaço descontaminado.

É interessante perceber que o jogo de forças citado por Regina Dalcastagnè é totalmente aplicável para se pensar as disputas na construção do sistema literário moçambicano.

Do Índico e do Atlântico, pelos contos selecionados e pelos entrecruzamentos entre histórias, culturas e literaturas brasileira e moçambicana, assim como pela pluralidade dos autores participantes, se constitui como um importante documento para revelar as conexões entre os dois países.

Em um vínculo mais poético, é mão estendida para o cumprimento, trajeto traçado para aproximação, ponte, navio, rota e espelho. Uma possibilidade de reencontro.

Ficha técnica

Título: Do Índico e do Atlântico: contos brasileiros e moçambicanos

Organização: Vagner Amaro; seleção de autores moçambicanos, Dany Wambire

Autores: Conceição Evaristo, Marcelo Moutinho, João Anzanello Carrascoza, Rafael Gallo, Eliana Alves Cruz, Cristiane Sobral e Miguel Sanches Neto; Mia Couto, Lilia Momplé, Alex Dau, Diogo Araújo Vaz, Dany Wambire, Carlos dos Santos e Daniel da Costa.

Assunto: Literatura brasileira – contos; Literatura moçambicana – contos.

Páginas: 139

ISBN: 978-859-2736-38-5

Editora: Malê

Site: https://www.editoramale.com/loja

[1] COUTO, Mia. Jorge Amado. O Estado de São Paulo: São Paulo. 5. Abr. 2008. DALCASTAGNÈ, Regina. Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as novas vozes sociais. In: Besse, Maria Graciete; Tonus, José Leonardo; Dalcastagnè, Regina (Coords.) La littérature brésilienne contemporaine Iberic@l. Revue d’études ibériques et ibéro-américaines, n. 2, p. 13-18. 2012.

[2] SALGADO, Maria Teresa. Um olhar em direção à narrativa contemporânea moçambicana. Scripta: Rio de Janeiro. V. 8, N. 15. 2004. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/ index.php/scripta/article/view/12587/9886 SANTIAGO, Silviano. Nas malhas das letras. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

[3] NOA, Francisco. Uns e outros na literatura moçambicana. São Paulo: Kapulana, 2015. NOA, Francisco. Francisco Noa, professor e escritor: “Literatura moçambicana foi resposta à dominação”. O Globo: Rio de Janeiro, 19 dez. 2017.

[4] MENDONÇA, Fátima. Reflexões em torno da literatura moçambicana. 2017. Disponível em https://opais.sapo.mz/reflexoes-em-torno-da-literatura-mocambicana

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