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RIO – Os livros eletrônicos ou simplesmente e-books são o futuro irremediável das bibliotecas, é o que garante a bibliotecária Liliana Serra. Tendo proferido palestras e cursos sobre o assunto, Liliana se dedica a pesquisar o complexo tema que tanto tem afligido os bibliotecários, sobretudo em virtude das diversas dúvidas que surgem na hora de se optar por esse movo modelo de documento nas unidades de informação. Nesta entrevista, Liliana fala um pouco da pesquisa que tem desenvolvido no mestrado e responde algumas questões sobre o tema.

Chico de Paula: Liliana, gostaria de pedir que você se apresentasse, falasse um pouco sobre a sua trajetória acadêmica para que possamos conhecer um pouco mais sobre você.

Liliana Serra: Eu sou bibliotecária, me formei em 1992 pela FESP [Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo]. Estou na área de bibliotecas desde 1989 e nem estou contando toda a minha vida, porque sou filha de bibliotecários, quase nasci no meio de estantes. Já passei por vários tipos de bibliotecas: universitária, escolar, pública, cultural e jurídica. Sempre com essa visão mais de tecnologia; sempre me encantou a tecnologia e como ela pode melhorar o trabalho do bibliotecário e eu trabalho na Prima Informática [empresa que desenvolve o software Sophia para bibliotecas] há quase quatro anos como bibliotecária ajudando a desenvolver o sistema de bibliotecas e eu comecei a me preocupar, já tem quase três anos, com a questão do controle de estoque, como que o cliente poderia solicitar que o sistema ajudasse na gestão de conteúdos de sites. Eu comecei a procurar informação sobre isso e não achei nada relevante na literatura brasileira. Comecei a procurar na literatura estrangeira e tive bastante dificuldade de encontrar alguma coisa, até que em algum momento eu achei informação e eu comecei a pesquisar sobre isso. Junte a isso o fato de eu ter participado de congressos internacionais onde eu tive contato com alguns nomes muito representativos da área, pessoas que estão estudando, grandes referenciais teóricos da área de e-books, principalmente dos Estados Unidos eu tive contato pessoal mesmo. Para passar em um projeto de mestrado foi um pulo. Antes de entrar no Programa de Mestrado da USP, eu já tinha apresentado um trabalho finalista do Congresso de Livro Brasileiro da CBL [Câmara Brasileira do Livro]  no ano passado, terceiro Congresso em 2012, e no final do ano passado eu emendei no projeto de mestrado, para onde estou levando este tema. Existem algumas pessoas estudando o assunto, mas eles têm um foco diferente do que eu tenho estudado. A minha preocupação é como o e-book vai mudar o trabalho das bibliotecas, e como algumas questões estão sendo muito afetadas, do trabalho do bibliotecário mesmo, enquanto as pesquisas que têm no curso tem foco muito no mercado editorial. Eu acho que todas as pesquisas sobre o tema são interessantes e agregam, mas não tinha na nossa área ninguém pesquisando o que vai acontecer com a biblioteca ou como é que eu vou usar o e-book na biblioteca, e é nisso que estou querendo focar na minha pesquisa. E quando você começa a estudar sobre esse tema, ele começa a mostrar possibilidades das dificuldades. Primeiro, “o que é um e-book?”. As pessoas têm uma visão um pouco ingênua do que é um e-book ou do que pode vir a ser um e-book que é uma tecnologia nova, e a gente tem observado que o e-book não é um livro digital simplesmente, ele pode ser um simples livro digital, mas ele pode ser muito mais do que isso. Então eu tenho que ter um referencial conceitual mesmo do que é um livro digital, como ele entra na biblioteca, quais são as opções… Eu tenho que falar do modelo de negócios, e é muito difícil falar de prática em um ambiente acadêmico. Mas ao mesmo tempo eu acredito que a academia estuda as questões conceituais, estuda as questões teóricas – tem que estudar, é o foco da academia – mas eu também tenho que ter uma aplicação no mercado, porque senão eu vou fazer o estudo, que é importante, e o mercado continua sem nenhuma resposta. Eu não tenho pretensão de dar respostas ao mercado porque não existe uma resposta ao mercado, não vai ser uma única resposta, mas o objetivo da minha pesquisa, e do que eu tenho escrito sobre o tema, é tentar trazer subsídios para que a gente saiba que cenário é esse, quais as possibilidades, quais são as cartas que estão em jogo hoje, para gente saber o que a gente pode melhorar, o que eu posso usar, como eu posso usar, ou se não está bom para mim, como eu vou negociar para que fique bom. Então eu tenho que primeiro conhecer esse ambiente para, a partir daí, eu falar: “não, isso aqui muda a forma de trabalhar, mas é uma evolução”, porque eu não posso pensar no e-book como mais um tipo de suporte simplesmente. Ele tem um tratamento diferente, exige um tratamento diferente. Eu tenho que ter um nível digital muito maior do que eu tinha, porque uma coisa sou eu ter uma estante de livros – eu vejo que eu tenho tantos registros, tantas obras no meu acervo – outra coisa é saber que eu tenho nos servidores ou meu, ou no repositório externo ou no fornecedor externo, então eu não vejo mais. O nível de resposta tem que ser maior.

C. P.: Liliana, em termos práticos, qual ou quais as principais preocupações que os bibliotecários devem ter na hora de fazer a aquisição dos e-books?

L. S.: Já começamos com um problema, porque eu não posso falar em aquisição de e-books… O tema da minha dissertação, pelo menos o título provisório é: “O Impacto dos e-books em bibliotecas” e o primeiro impacto é que eu não sou mais a dona dele, eu tenho uma licença de uso, então a forma como eu faço a aquisição não é a mesma, eu tenho que saber até onde vai o meu direito de proprietária: Ele vence? É perpétuo? Eu assino? Que modelo eu vou usar para ter esse material? Eu vou dispor para o meu usuário durante um tempo? Às vezes eu vejo algumas opiniões assim: “Que absurdo! Assinatura! O livro é da biblioteca!”. Depende! Se eu estou em uma biblioteca de pesquisa de repente eu não quero fazer um investimento de longo prazo, eu posso assinar as obras naquele período, fazer um investimento para aquele período. Me atendeu, eu não preciso mais daquele custo. Se for uma biblioteca pública é diferente, uma biblioteca universitária é diferente, então começa a ficar mais claro que não basta eu falar em e-book, eu tenho que saber que tipo de conteúdo é esse em meio digital, em que perfil de biblioteca ele vai ser utilizado, qual é o usuário, qual a expectativa do usuário que você tem, quem tem esse conteúdo para fornecer e em quais moldes. Então são muitas questões que eu tenho que saber para, a partir daí, eu começar a tomar decisões.

C. P.: Nesses termos, não se pode falar em empréstimo de e-books?

L. S.: Pode falar em empréstimo de e-books sim porque a função da biblioteca é emprestar. A biblioteca não aluga livros, apesar de muito usuário jovem chegar à biblioteca e perguntar: “vocês alugam livros?”. “Não, a gente empresta livros!”. A gente não cobra, o aluguel tem uma negociação comercial e a biblioteca não tem essa conotação. Mas eu acho sim que existe empréstimo digital, ele pode acontecer de várias formas. Não vejo como limitações tecnológicas. São limitações comerciais. São limitações de como nossos fornecedores estão oferecendo o material para gente. Então as minhas limitações são comerciais, são politicas, são definidas pelos editores.

C. P.: Você falou que um dos pressupostos em relação a esse novo mercado é o modelo de negócio das editoras. Você não acredita que o modelo de negócio das editoras está prevalecendo sobre o interesse público, em relação aos e-books?

L. S.: Eu não sei se eu falaria em interesse público, porque depende da biblioteca onde eu estou usando. O papel de cada biblioteca é diferente. A biblioteca pública tem uma função social. A biblioteca universitária, pode ser privada ou pública, tem uma função educativa, acadêmica. Uma biblioteca jurídica tem uma função puramente de negócios, então eu não consigo pensar num papel público da biblioteca, porque dependendo do uso que eu vou fazer desse e-book, ele vai ter uma natureza. O que a gente observa, o que a gente sente – isso não só Brasil – eu acho que a gente nem começou a ter problema de e-book no Brasil. Não que estejamos no zero. Já teve discussão e já temos alguma oferta, mas estamos muito atrasados em relação à Europa e bastante atrasados em relação aos Estados Unidos. O que a gente observa é que o mercado editorial num todo é extremamente conservador e por medo do que já aconteceu com o mercado fonográfico, que foi destruído com  MP3, com a digitalização do que eles tinham  pra vender, vendiam  música e a música foi digitalizada e as pessoas começaram a distribuir livremente, isso causou uma total remodelação do mercado fonográfico. As pessoas não ganham  mais dinheiro hoje no mercado fonográfico vendendo disco. Elas ganham dinheiro com show. Nunca show foi tão caro e ganham dinheiro vendendo música, e  é curioso porque a gente observa até um retrocesso, pois a partir do momento que eu começo a comprar uma música e não compro mais o álbum, o disco que tem 10, 12 músicas eu volto a consumir música como eu consumia na década de 50, quando eu não tinha o LP, o Long Play, que era o álbum. É um paralelo que é bem curioso. No caso do mercado fonográfico, ele quebrou e está se reinventando. Já o mercado editorial, quando chegou a digitalização neste nível, a primeira reação dele, e foi uma reação natural, “eu vou me proteger porque eu não posso deixar acontecer comigo o que aconteceu com o mercado de música”. Eles colocaram uma série de barreiras, de restrições em uma tentativa de proteger o seu modelo, o seu negócio porque eu não posso pensar só com cabeça de biblioteca pública, tenho que pensar que livro é uma indústria, é um mercado, as pessoas publicam livro porque é o jeito que elas ganham a vida, é o negócio delas, elas têm que ser remuneradas por isso, elas trabalham por isso. Eu tenho que ser remunerado, eu tenho que ter a visão de indústria, porque dependendo de onde essa indústria atua ela vai ter um comportamento diferente. A biblioteca pública compra livros da mesma forma que uma biblioteca particular compra livros. Não é uma questão do público. A biblioteca faz outro uso da publicação que ela investiu para atender melhor o seu usuário. Como o mercado editorial dificultou, ele começou a ver que se ele vendesse para uma biblioteca um livro digital e esse livro digital não tivesse proteção, isso significaria que a biblioteca ia comprar um livro digital, colocaria em seu acervo e as pessoas entrariam na biblioteca e baixariam o livro quantas vezes quisessem e quantas pessoas quisessem. Então agora eu teria um livro sendo vendido, consumido por milhares e as pessoas não comprariam mais livro e as editoras quebrariam. Por causa disso eles colocaram uma série de proteções tecnológicas para dificultar que as bibliotecas comprassem livros em primeiro lugar. Têm casos de editoras que não vendem ou não vendiam, algumas já estão se sensibilizando, mas não vendiam pra bibliotecas, vendiam só para pessoa física e agora que o mercado já tem uma segurança tecnológica que garante, não é 100 por cento – nada é 100 por cento no meio digital –  mas ele já tem uma barreira de segurança. Eles já estão mais acostumados com o que é o livro digital. É uma novidade para o editor também. Eles começam a ver que não precisa ser tão rigoroso, mas ainda existe muito chão para gente caminhar e chegar num meio termo que seja interessante para todo mundo. Eu tenho uma visão de que não adianta querer brigar com o editor, porque se eu quiser brigar com o editor eu não vou caminhar, porque eu dependo do editor para ter as obras no acervo. Eu não vou aceitar tudo o que ele quer. Eu entendo o porquê ele está agindo dessa forma. É o negócio dele, é o meio de vida dele. Eu entendo, mas ele tem que entender que biblioteca é parceiro. Afinal de contas, a biblioteca sempre comprou muito. Às vezes a pessoa conhece o livro na biblioteca e isso representa venda. A partir do momento que eu começo a sentar com o editor e começo a negociar mais flexibilidade de contrato, mais oferta, menos restrições, eu consigo caminhar e é nessa linha que tem sido feito no mercado norte-americano. Eles brigam? Sim, eles brigam bastante. Tiveram casos que eles chamaram algumas editoras para sentar – as bibliotecas americanas tem uma representação muito forte no país junto ao mercado editorial. Elas chamaram alguns editores muito importantes para conversar e falaram assim: “não é assim que a gente quer trabalhar, vamos flexibilizar”. E muitas coisas já estão avançando. Eu acho que é nessa linha que a gene tem que ir. Não adianta querer ficar dando muro em ponta de faca, brigando com o editor, fazendo manifestação, “vamos denegrir a imagem dele”, não adianta fazer isso, com isso você vai se desgastar.

C. P.: Liliana, as duas modalidades básicas que os bibliotecários têm hoje para ter os e-books nas suas bibliotecas, ter esse acesso nas suas bibliotecas, são assinatura e aquisição perpétua, certo? O que o bibliotecário deve levar em consideração na hora de fazer a sua opção, em termos práticos?

L. S.: Isso depende muito. Depende de uma série de fatores.

C. P.: Estou meio que repetindo uma pergunta anterior, mas é para ficar um pouco mais claro.

L. S.: Existem outros modelos de negócio, mas no Brasil o que temos de oferta hoje são esses dois: assinatura ou aquisição perpétua. As duas têm prós e contras. A aquisição perpétua para a gente é o mais confortável porque é o mais parecido com o que a gente fez até hoje: eu escolho os títulos que eu quero, eu vou adquirir, eles vão ser meus, eu vou ter uma licença de uso, eles podem ficar no meu servidor ou podem ficar no servidor do fornecedor. Isso também tem lado bom e lado ruim, e eu não preciso comprar para ter a cesso a essa obra, ela é minha e eu vou acessá-la. Normalmente a aquisição perpétua é um acesso por vez, não permite acesso simultâneo, normalmente é isso. No caso da assinatura, você tem o direito de usar aquela obra por um período, ela não é sua, se você não renovar a assinatura você vai perder o acesso à publicação. Dependendo do uso do seu acervo, essa é uma boa modalidade. A gente vai ter que começar a fazer uma coisa que não era muito usual para o bibliotecário. Eu vou ter que começar a fazer uma gestão de recursos, gestão de orçamento. Eu tenho que prever se eu tenho a minha assinatura, se eu vou manter essa assinatura. Não vou trabalhar com uma única assinatura. É uma coisa que o pessoal aqui no Brasil não percebeu ainda. Eu não vou ter um fornecedor para me atender em tudo, então eu vou ter casos em que eu vou ter que fazer gestão de várias assinaturas: “isso cabe no meu orçamento, isso não cabe, esse eu renovo?”. Tem uma variação de preços, obras novas entraram, eu posso ter acesso simultâneo. É um serviço. Eu estou contratando um serviço, a assinatura é um serviço, eu não tenho posse, eu não tenho a licença de uso. A aquisição perpétua não. Ela dá licença de uso, eu posso usar aquela obra porque ela me pertence, mas isso não quer dizer que eu posso fazer o que eu bem entenda com ela.

C. P.: Em três palavras, o e-book é o futuro das bibliotecas?

L. S.: Eu não vou dizer que é o futuro das bibliotecas, mas as bibliotecas vão ter que ter e-books no futuro. Eu não vou dizer que é o futuro porque não é só isso.

Emilia Sandrineli: Você comentou que participou de vários congressos nacionais e internacionais, então a partir dessa experiência você conheceu casos de bibliotecas que estão sendo muito bem sucedidas ou casos interessantes que possam servir de exemplo da relação das bibliotecas com os e-books e seus usuários para as bibliotecas aqui no Brasil?

L.S.: Não, eu não diria da biblioteca, mas eu acho que os avanços maiores… A gente tem uma diferença cultural, de políticas de Biblioteconomia muito grande em relação aos Estados Unidos. Eu não vou dizer que lá seja melhor, eu não vou dizer que seja pior, eu não vou entrar nesse mérito. Eu acho que cada um tem suas características, mas eles têm uma coisa que no Brasil até já existiram tentativas, mas não vingou da forma como tem de consórcio. Eles têm consórcios de bibliotecas e são consórcios muito fortes. Quando você é forte, você tem um poder de negociação maior, você fala de repente num consórcio com 20, 30 bibliotecas ou públicas ou universitárias e isso você senta para negociar com o fornecedor com outro peso. Normalmente os relatos que a gente tem são casos de consórcio. O movimento dos e-books começou nas bibliotecas americanas com as universitárias, porque é onde a demanda é maior, a rapidez da informação, a facilidade de acesso das obras, então começou no meio universitário. Foi expandindo para as públicas, que tiveram muitas restrições dos editores. A gestão de bibliotecas deles não é bibliotecas infantis. Elas não são bibliotecas puramente escolares. Eles as chamam de K12. Você pega desde a criança bebê, pequenininha, até o que seria o nosso ensino médio – é o que eles chamam de infantil, eu falo desde a parte de recreação de leitura, acompanhamento escolar etc. Então a gente tem visto esses três seguimentos muito claros. O seguimento corporativo é bem menor que o universitário. Nós temos muitos casos… Eu não citaria o caso de uma porque o usuário quer, o usuário precisa, então a biblioteca vai correr atrás para atender o seu usuário. Eu não tenho o caso de uma biblioteca que seja exemplar, eu tenho alguns casos que são mais simbólicos, por exemplo: foi inaugurada agora no Texas, em agosto, se não me engano, uma biblioteca que não tem livros. Ela já nasceu digital. São duas no Texas, uma ligada a Universidade e a outra ligada a um College, a universidade também. Elas nasceram já com o conceito de ser cem por cento digital. Elas não têm estantes. Tem uma que tem um espaço muito pequeno, a outra o espaço é maior, mas é uma área onde você tem mesas, cadeiras, sofás, terminais de computador, mas não têm estantes. A área de estantes é usada para o usuário ocupar o espaço. O que também é curioso porque uma biblioteca digital não precisa que o usuário esteja presente, é outro modelo de negócio. Eu passo pelo tipo de acesso que a pessoa tem que estar na minha biblioteca pra poder acessar o e-book. É outra forma de gestão que existe para usar livro eletrônico. Têm vários casos, têm casos de bibliotecas que emprestam tablets com o objetivo de leitura, tem biblioteca que já usa há muito tempo e ai você tem acesso enquanto é nosso usuário e quando não tem mais vínculo com a instituição você não tem mais acesso aos digitais por conta do contrato com os editores. As bibliotecas públicas que estão começando agora a fazer uso, que estão conseguindo fazer assinaturas, têm projeto com a Amazon que não está muito claro ainda como vai ser isso, não está claro para eles. Estão tendo algumas brigas… É um tema que eu estou estudando até para uma disciplina que estou tendo agora no mestrado. A Amazon está emprestando livros para os usuários de uma biblioteca pública, através de um agregador de serviço, a Amazon aluga.

C. P.: Você lembra o nome desse serviço?

L. S.: É a Overdrive trabalhando com a Amazon. A Overdrive é o agregador de conteúdo, um dos maiores que tem no mundo. No Brasil a gente não tem Overdrive e ela fez a parceria com a Amazon. Então eu sou usuário de uma biblioteca pública, eu tenho meu cartãozinho, minha carteirinha de usuário, eu vou ao site da minha biblioteca e eu escolho que eu quero emprestar uma obra no formato Kindle, eu faço a baixa no meu pátio, dali eu sou direcionada para a Amazon que já sabe quem eu sou ou eu me identifico com a minha conta Amazon e ele está lá no meu texto como se fosse de compra, mas ao invés de fazer uma compra eu vou emprestar e essa é a política que foi negociada com a Overdrive junto com a biblioteca. Só que isso não vai ficar só nisso. A gente sabe que não vai ficar só nisso, porque o objetivo da Amazon não é só emprestar. Tudo bem, ela está ganhando dinheiro com a parceria, ela está sendo remunerada pelo aluguel, porque ela faz o aluguel, a biblioteca empresta; e esse aluguel está sendo pago no contrato com a Overdrive. Mas existem questões que aqui para o Brasil eu não me lembro de ter visto isto, mas que é muito sério nos Estados Unidos… “Cadê a minha privacidade enquanto leitor?”. Porque uma coisa sou eu ser uma pessoa que tem uma conta na Amazon e eu compro um livro, porque cada vez que eu entro na Amazon ela fala pra mim: “você que comprou isso, pode gostar disso, disso e disso!”. Outra coisa é através dos livros que eu pego emprestado ela saber quem eu sou e começar a me bombardear com propaganda.

C. P.: É mais ou menos o que o Google faz?

L. S.: O Google reconhece a ID. Ele sabe por onde você navegou e o que pode te interessar, ele usa isso como critério de relevância na hora de mostrar os dados para você. A Amazon é um pouco mais do que isso, porque ela sabe exatamente quem é você, ela não está te reconhecendo pelo IP; o IP é uma das formas dela te reconhecer, mas você pode entrar de qualquer computador: você logou, ele sabe de onde você fez o login. Então ele sabe quem é você, tem seu cadastro lá, onde você mora, o que você gosta de ler, o que você não gosta de ler. Isso para gente, se eu for pensar “é minha privacidade, eu não quero receber propaganda”. Claro que eles vão ter, eles não são loucos, o sucesso da Amazon é porque ele sempre privilegiou atender bem o cliente, e o sucesso da Amazon é isso. Sempre teve a preocupação, a política da empresa é: “eu vou fazer com que o cliente tenha uma boa experiência, ele vai voltar para mim porque ele encontra o que ele quer e compra rápido”. Essa é a política, ele nunca escondeu isso, mas para os americanos eles têm preocupações de segurança que nós não temos. Por exemplo, aqui no Brasil as pessoas da área de segurança… Se você for na biblioteca e quiser ler um livro sobre bomba, você não vai ter a Polícia Federal batendo na sua porta. Nos Estados Unidos eles têm um controle. Existem termos legais onde eu tenho a privacidade do leitor sendo mantida, a biblioteca jamais pode divulgar e ela não vai interferir no que o usuário lê porque ela acredita que o usuário tem liberdade de ler absolutamente o que quer, e a Amazon pegando isso ela está quebrando a privacidade do usuário, porque se você vai comprar um livro de arma, um livro de bomba, isso vai bater no FBI; se você pega um livro emprestado que fala de bomba, não importa se você está estudando uma bomba hidráulica. Se tem “bomba”, eles têm motivos para serem neuróticos. Não estou tirando a razão deles, mas você afeta diretamente todos os tratados que existem de privacidade do usuário. E uma das coisas que consta nesse tratado, são documentos legais mesmo, é a privacidade do usuário para biblioteca.

E. S: Afeta pesquisas científicas, porque os pesquisadores que vão fazer empréstimos nas bibliotecas têm sua privacidade garantida, a privacidade da sua pesquisa garantida!

L. S.: Isso que a gente tá falando de bomba é um caso extremo, mas às vezes você pode ter coisas que podem levar as pessoas a uma situação constrangedora. A pessoa de repente pega um livro de gosto duvidoso ou um livro mais ousado e ai de repente a privacidade está sendo invadida. Além disso, eu não acho interessante – isso me preocupa bastante em termos de biblioteca – eu não acho interessante eu desvincular o acesso ao livro da biblioteca. Porque tudo bem, a pessoa foi no site da biblioteca, disse que quer aquele livro e dali ela foi para Amazon e dali a Amazon liberou. O que o usuário guarda desse processo? “Eu tenho um livro na Amazon”, não “eu peguei o livro na biblioteca” ou “a minha biblioteca me deu acesso a Amazon.”. Isso é uma questão que a gente tem visto muito e porque a gente tem tido tanto aquisição perpétua quanto a assinatura, porque? Eu compro um livro mesmo que ele esteja no meu servidor, eu vou acessar através de uma plataforma proprietária porque é onde os fornecedores conseguem colocar o DRM. Então se a biblioteca não coloca o usuário deles no OPAC, para o usuário descobrir o livro, a biblioteca sendo um serviço de descoberta, eu descubro que eu tenho um e-book na biblioteca, na hora de abrir eu vou abrir um aplicativo, não tem como, mas ele tem que ter a descoberta lá. Não são todos os fornecedores que me dão os metadados para que jogue isso no meu OPAC e ai o usuário vai procurar em outra plataforma. Se eu faço isso, o meu usuário daqui a pouco nem lembra que existe biblioteca, ele vai direto para o fornecedor e isso para a gente não é interessante, porque a gente está pagando por aquilo, é orçamento da biblioteca, eu estou proporcionando o acesso a essa obra para o meu usuário, então eu não posso desvincular isso. Essa é uma questão que me preocupa, eu tenho que trazer o conteúdo para mim. Tem fornecedor que não dá o conteúdo, ai eu tenho outra forma de conseguir fazer isso, mas sempre estar tentando trazer para a biblioteca, para deixar claro: “usuário, eu que estou te proporcionando isso!”.

C. P.: Então sua recomendação é que o acesso seja sempre pela base da biblioteca?

L.S.: Sim, ou pela base da biblioteca ou pelo serviço de descoberta. Mas a pessoa descobre que existe aquele e-book na base da biblioteca. Eu fico muito preocupada, por exemplo, quando eu faço uma assinatura e ai eu vou colocar no site da biblioteca um link pra pessoa pesquisar na página do dono do provedor. Não, esse acervo, mesmo que temporário, pertence ao acervo da instituição e é lá que vai consultar. Essa é uma das coisas que a gente não pode abrir mão, ou pela biblioteca, pelo OPAC ou pelo serviço de descoberta, acho isso fundamental.

*Colaborou Emilia Sandrineli

 

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1 Comentário

  1. Maria Faria
    27 de novembro de 2013 a 12:05 —

    Nossa, li esta entrevista com muito interesse, pois de todas as formas que penso, não consigo imaginar as bibliotecas no mundo do e-book. E ao mesmo tempo, quando imagino que eu poderia chegar na biblioteca com meu tablet ou leitor digital e colocar nele o "livro emprestado", dá uma sensação maravilhosa, mas aí vem a pergunta que ela elaborou no texto: se as bibliotecas pudessem emprestar os e-books, o que seria das editoras, os compradores se limitariam apenas às bibliotecas? Quando ela compara o mercado digital de música ao mercado digital de livros é muito interessante, pois o artista do meio musical passou a sobreviver com os shows, e o autor de um livro vendido digitalmente, viveria de que?

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